Eu voltei porque queria ser abraçado pelas palavras que um dia você escreveu pra mim, quantos anos um amor "esquecido" tortura um peito?
- já se passaram muitos anos, e eu ainda venho aqui, procurar qualquer migalha que restou sua pra mim .
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Eu voltei porque queria ser abraçado pelas palavras que um dia você escreveu pra mim, quantos anos um amor "esquecido" tortura um peito?
- já se passaram muitos anos, e eu ainda venho aqui, procurar qualquer migalha que restou sua pra mim .
Eu sempre fui assim,
um pouco triste e um pouco só.
“Eu tenho uma sensação meio de amargura, de fracasso. Você me entende? Como se tivesse a obrigação de ter sido, ou tentado ser, outra pessoa.”
— Caio Fernando Abreu.
hoje eu pensei em você
e foi estranho
porque não veio nada junto.
nem vontade,
nem saudade,
nem aquela urgência antiga
de organizar o que passou.
só o pensamento.
cru.
sozinho.
talvez algumas pessoas passem pela gente
sem aprender a ficar.
não por falta,
mas por excesso de ruído.
há quem precise do caos
pra sentir que está vivo.
eu aprendi a ficar em silêncio
do teu lado.
e isso não me apagou.
me organizou.
foi ali que eu entendi
que calma também pode ser entrega.
às vezes penso
se a calmaria assusta
quem só reconhece o amor
quando ele dói,
quando tem incerteza,
quando ameaça ir embora.
o que doeu, doeu muito.
não como ferida aberta,
mas como algo que muda a forma
de encostar nas coisas depois.
você perdeu a chance de aprender a ficar.
não digo isso com amargura.
digo como quem percebe tarde
que ofereceu abrigo
pra alguém que ainda procurava tempestade.
eu fiquei um tempo
sendo casa
pra quem não sabia pousar.
e tudo bem.
eu também aprendi algo aí.
hoje eu pensei em você
e deixei passar.
como quem olha o mar
sabendo que já não precisa entrar
pra lembrar que sabe nadar.
Sara.
Feliz ano novo.
Tem coisas que não acabam,
só aprendem a existir
de um jeito torto.
Como quando a gente gosta
sem saber onde colocar o sentimento,
ou quando o carinho chega
mas nunca encontra descanso.
Eu não lembro o momento exato
em que comecei a me conter,
só sei que virou hábito
não ocupar espaço demais,
não pedir demais,
não sentir alto demais.
Algumas presenças
não machucam por ausência,
machucam porque chegam
com tudo
já preenchido.
E a gente vai ficando
num canto educado do afeto,
aprendendo a amar
sem reivindicar,
sem atravessar,
sem deixar marcas visíveis.
Não houve erro.
Nem falta de cuidado.
Só caminhos que se cruzaram
quando já estavam
cheios demais.
E certas dores não pedem solução,
pedem silêncio.
Porque explicar demais
só denuncia
o quanto ainda importa.
Sara.
Eu continuava a soluçar, mesmo depois de ter parado de chorar. O soluço não parava. Foi então que notei, que mesmo eu parando de chorar, meu coração não parava.
Escriturias
Tem dia
que a paz mora
no fundo de uma xícara
no canto de um sorriso
ou no silêncio partilhado
com quem entende
sem precisar explicar.
C.A
“‘Combinamos que não era amor. Escapou ali um abraço no meio do escuro. Mas aquilo ali foi sono, não sei o que foi aquilo. Foi a inércia do amor que está no ar mas não necessariamente dentro de nós. A gente foi ao cinema, coisa que namorados fazem. Mas amigos fazem também, não? Somos amigos. Escapou ali um beijo na orelha e uma mão que quis esquentar a outra. Mas a gente correu pra fazer piadinha sexual disso, como sempre. Aí teve aquela cena também. De quando eu fui te dar tchau só com a manta branca e o cabelo todo bagunçado. E você olhou do elevador e me perguntou: não to esquecendo nada? E eu quis gritar: tá, tá esquecendo de mim. E você depois perguntou: não tem nada meu aí? E eu quis gritar: tem, tem eu. Eu sempre fui sua. Eu já era sua antes mesmo de saber que você um dia não ia me querer. Mas a gente combinou que não era amor. Você abriu minha água com gás predileta e meu sabonete de manteiga de cacau. E fuçou todas as minhas gavetas enquanto eu tomava banho. E cheirou meu travesseiro pra saber se ainda tinha seu cheiro. Ou pra tentar lembrar meu cheiro e ver se ele ainda te deixa sem vontade de ir embora. Mas ainda assim, não somos íntimos. Nada disso. Só estamos aqui, reunidos nesse momento, porque temos duas coisas muito simples em comum: nada melhor pra fazer. Só isso. É o que está no contrato. E eu assino embaixo. Melhor assim. Muito melhor assim. Tô super bem com tudo isso. Nossa, nunca estive melhor. Mas não faz isso. Não me olha assim e diz que vai refazer o contrato. Não faz o mundo inteiro brilhar mais porque você é bobo. Não faz o mundo inteiro ficar pequeno só porque o seu chapéu é muito legal. Não deixa eu assim, deslizando pelas paredes do chuveiro de tanto rir porque seu cabelo fica ridículo molhado. Não faz a piada do vampiro só porque você achou que eu estava em dias estranhos. Não transforma assim o mundo em um lugar mais fácil e melhor de se viver. Não faz eu ser assim tão absurdamente feliz só porque eu tenho certeza absoluta que nenhum segundo ao seu lado é por acaso. Combinamos que não era amor e realmente não é. Mas esse algo que é, é realmente muito libertador. Porque quando você está aqui, ou até mesmo na sua ausência, o resto todo vira uma grande comédia. E aquele cara mais novo, e aquele outro mais velho, e aquele outro que escreve, e aquele outro que faz filme, e aquele outro divertido, e aquele outro da festa, e aquele outro amigo daquele outro. E todos aqueles outros viram formiguinhas de nariz vermelho. E eu tenho vontade de ligar pra todos eles e falar: putz, cara, e você acha mesmo que eu gostei de você?Coitado. Adoro como o mundo fica coitado, fica quase, fica de mentira, quando não é você. Porque esses coitados todos só serviram pra me lembrar o quão sagrado é não querer tomar banho depois. O quão sagrado é ser absurdamente feliz mesmo sabendo a dor que vem depois. O quão sagrado é ver pureza em tudo o que você faz, ainda que você faça tudo sendo um grande safado. O quão sagrado é abrir mão de evoluir só porque andar pra trás é poder cruzar com você de novo. Não é amor não. É mais que isso, é mais que amor. Porque pra te amar mais, eu tenho que te amar menos. Porque pra morrer de amor por você, eu tive que não morrer. Porque pra ter você por perto um pouco, eu tive que não querer mais ter você por perto pra sempre. E eu soquei meu coração até ele diminuir. Só pra você nunca se assustar com o tamanho. E eu tive que me fantasiar de puta, só pra ter você aqui dentro sem medo. Medo de destruir mais uma vez esse amor tão santo, tão virgem. E eu vou continuar me fantasiando de não amor, só pra você poder me vestir e sair por aí com sua casca de não amor.E eu vou rir quando você me contar das suas meninas, e eu vou continuar dizendo “bonito carro, boa balada, boa idéia, bonita cor, bonito sapato”. E eu vou continuar sendo só daqui pra fora. Porque no nosso contrato, tomamos cuidado em escrever com letras maiúsculas: não existe ninguém aqui dentro. Mas quando, de vez em quando, o seu ninguém colocar ali, meio sem querer, a mão no meu joelho, só para me enganar que você é meu dono. Só para enganar o cara da mesa ao lado que você é meu dono. Eu vou deixar. Vai que um dia você acredita.’”
— O contrato, Tati Bernardi.
parei de te amar
parei
assim de repente
num dia amava, no outro não
decidi enquanto saía do metrô república
me veio como um impulso, um presságio,
um susto
não sei ao certo
sei que parei
então não precisa nem vir com essas
coisas todas
o fio foi finalmente cortado
rompido por mim
quando ocorreu também fiquei surpresa
lembro-me de ter parado frente às
catracas
e ter sido acompanhada por uma
liberdade nunca antes vista
só se é verdadeiramente livre quando
não tem ninguém para amar
quando ninguém tem o que esperar de mim
voltei para o metrô e vim correndo te
contar
exatamente
caminho direto
dizem que notícias boas devem correr a
cidade
e corri como nunca
num medo de que no caminho eu voltasse
de repente a sentir tudo aquilo
e aí não tivesse mais o que te falar
então sem mais delongas algumas
parei de te amar
parei
assim de repente.
Gabisteca
Meu verbo é sentir, e eu sinto, sinto muito
te desejo maturidade
para saber lidar com o silêncio das coisas.
Eu diria que é raro, raríssimo, em tempos de alma seca, encontrar alguém que goste de caminhar na chuva com você.
Sinto mil coisas por você.
A coisa que mais durou em minha vida foi esse tumblr