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26 de Janeiro de 2026 | Verão Fixo | Serra Grande/Uruçuca, Bahia
Um sonho em forma de ficção fantasiosa:
Era um final de tarde de céu fechado, onde nosso grupo estava num lugar de mato alto e seco. Havia um muro cinza mais á frente e atrás dele árvores de folhas muito verdes que contrastavam com todas as cores em nossa frente. A capitã Ariana Aqualtune estava em cima da mais alta.
Sempre me surpreende sua impetuosidade. Apesar de ser líder de uma tripulação de piratas, ela ainda agia com a curiosidade de uma criança explorando o que havia fora dos limites da vila de onde viemos. Estavamos tão longe, e tanto se passou nas águas e terras onde passamos. Apesar das batalhas, feridas, perdas e cicatrizes, ela ainda desejava saber mais.
"Saia daí capitã, você pode se machucar" - gritei.
"Vai tomar no cú!" - rapidamente respondeu. Toda a tripulação riu. Inclusive eu.
Ela tirou e arremessou um dos galhos da árvore para que vissemos. Estava cheio de flores violetas e muito cheirosas que ainda não tinhamos encontrado nesse continente. A capitã desceu da árvore e atravessou a pequena porta do muro cinza. Quando já estava chegando perto de nós ela parou e viu algo um pouco mais á frente de onde eu estava. E de repente apareceu diante de nossos olhos, como num passe de mágica, escondido pelas cores do mato: um casco de cagado dourado.
Somos piratas diferentes. Nossa tripulação vai em busca de conhecimento onde ninguém tem coragem de ir. Negociamos com acadêmicos arrogantes e covardes que não querem sair do conforto da universidade de alguma das várias capitais decadentes desse mundo. Nossa expedição foi financiada por um desses idiotas que buscava por indícios da existência dessa interessante espécie de quelídeo, que ao invés de soltar cascas de cada escudo de seu casco durante o período de troca de pele, soltava uma uma grande casca inteiriça.
Ariana pegou com a ponta dos dedos aquele delicado tesouro e ergueu para que vissemos. No momento nossa tripulação não estava focada no cumprimento da missão. Mas sim no encanto da vida. Era um lindo casco. Se o levaríamos para a capital? Talvez sim. Talvez não. Não obdecemos ninguém, principalmente do sistema. Somos piratas.
escrito por VD | terça, 20 de Janeiro de 2026 | Lua Nova em Aquário | Verão Fixo | Serra Grande/Uruçuca, Bahia
"Artista que não se compromete com a mudança do mundo, está mudando o mundo sem querer"
Amanda Maia
E isso é um problema. Pois sem vontade empenhada a cabeça artística, que é cabeça criadora, que realiza coisas e altera realidades, pode trabalhar por uma realidade injusta, sem saúde, sem tesão, sem amor, sem liberdade.
Para mim, pior do que os que não acreditam nas realidades abertas pelas palavras acima citadas, pior do que os que escolhem trabalhar contra, é não ser capaz de imaginar a força da própria escolha, duvidando dela.
Sou induzido a acreditar no esvaziamento de minhas escolhas pelo fato do mundo não ser do jeito que escolhi. O mundo que não desejo existe na maior parte das vezes, na maior parte do tempo. Eu nasci nele.
Mas se há algo que a Bruxaria Mariposa deixou enquanto um legado em meu pensamento, é que o Sistema Vigente trabalha com a falta de perspectivas que sejam construidas para e pelos povos, pelas comunidades, pelas diversidades culturais, introjetando no lugar a perspectiva que convém à minoria que sempre trabalhou para ter privilégio.
Faço a citação da frase acima de um modo diferente: Artista que não se compromete é capaz de mudar a realidade pra ela virar a mesma de sempre.
Já vi milhares de vezes gente talentosa, cheia de magia, de bom coração, espalhando "boa" filosofia pelo mundo pra justificar que tudo é como deus quer se seja. Mas deus no sistema onde estamos tem nome, cor, gênero, propriedade, não respeita culturas diferentes, outras cosmogêneses e muito menos fronteiras. Pra este deus, é tudo dele e todos nós deste mundo devemos trabalhar pra ele.
Não importa se quero ou não exercer meus talentos, minha magia. Durmindo ou acordado, não desligo o que eu sou. Permanecer desperto é o X da questão.
revérbero escrito por VD | sexta, 12 de Dezembro de 2025 | Lua Minguante em Libra | Primavera Mutável | Serra Grande/Uruçuca, Bahia
Aventuras Culturais
Por Victor Diomondes, 5 de Dezembro de 2025 (sexta-feira)
"Conduru", espetáculo de dança apresentado na Feira Cultural Comunitária Saberes & Sabores
Como mestre de cerimônia da Feira Saberes & Sabores recebi no palco cultural a apresentação da Companhia de Dança Afroliberarte. A sinopse do espetáculo assim o apresenta:
“Conduru nasce do sopro da Mata Atlântica, das árvores nativas que dançam ao vento e guardam as águas dos rios Água Vermelha, Almada, Capitão, de Contas, Jeribucaçú e Tijuipe.
É um canto de reverência à terra viva, à fauna e flora que sustentam o território.
Inspirado nas raízes indígenas Gueréns, Tupiniquins e Tupinambá, o espetáculo honra as memórias e ancestralidades que habitam as terras de Ilhéus, Itacaré e Uruçuca.
Conduru é um chamado à identidade, memória e ancestralidade, um gesto poético de pertencimento ao território que nos acolhe" .
O território que a obra aborda possui uma rica diversidade de bioma e cultura, assim como a presença de seus povos originários. Assistir uma obra artística que expressa isso através da dança foi uma experiência fascinante.
Vi nos corpos dançantes dos artistas a busca pela conexão com a natureza e a ancestralidade através da música e dos ritmos, dos figurinos, dos pés que batiam na terra. Não havia ali a realização de qualquer manifestação cultural específica de um povo, mas uma criação artistica embebida pela atmosfera do Litoral Sul da Bahia e enraizada nas ancestralidades dos próprios dançarinos em saudação às deste território.
Após o espetáculo, uma roda de conversa entre público e artistas, onde todos trouxeram suas impressões e também questões desafiadoras: violência sobre corpos indígenas e negros, marginalização e apagamento histórico-cultural, diferenças entre igualdade e equidade, etc.
Erika Marcela (Colômbia), Driely Alves (Brasil), Prince Macauley (Costa do Marfim) e Franco Shanaham (Argentina) se encontraram e formaram a companhia aqui em 2019. Com a Afroliberarte caminham por danças e sonoridades diaspóricas da África Ocidental e América Latina (Abya Ayla).
A Afroliberarte age pelas conexões entre as diversidades culturais de onde seus integrantes se originaram com as daqui da Bahia, consolidando pontes entre povos e territórios que preservaram suas culturas frente à colonização europeia.
| Victor Diomondes é integrante do Ponto de Cultura Viva Coletivo Guilda Anansi. É um dos agentes do Fórum Permanente de Cultura de Uruçuca, Bahia, e faz parte da Diretoria de Cultura da Associação de Moradores e Moradoras do Bairro Novo (ASMOBAN) no distrito de Serra Grande. A associação realiza a Feira Saberes & Sabores no bairro todas as sextas-feiras, onde Victor atua como o mestre de cerimônias do palco que recebe uma diversa movimentação cultural |
| para ver mais sobre Afroliberarte https://www.instagram.com/afroliberarte?igsh=YXNuNWdqZzZ0eHd0 |
| para ver mais sobre Feira Saberes & Sabores https://www.instagram.com/feirasaberesabores?igsh=MW01bjNpa25nZHB2eg== |
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Diário de Rósea Hora - Retorno
Cantamos para as águas do rio ontem. Em meio a combates através de sistemas de sons, ao lixo que insiste em invadir a terra, ao descaso, a invasão violenta que chamam de progresso cantamos para as águas do rio. Cantamos para as antigas, para as mulheres, para as deidades, para as divindades.
Enquanto minha cabeça ainda pulsava apertada ao fluxo de trabalhos, necessidades, conflitos, demandas, desaguei no nosso canto o desejo de estar com o Axé das águas. E eu não estava só. Estava com minhas irmãs e irmãos.
E então, quando acabamos, apenas ouvi o canto do rio. Limpo e puro. Um rio nunca pára de cantar, embora eu possa parar de ouvir.
A arte da música foi porta para abrir os sentidos para a arte da natureza.
escrito por VD | sábado, 6 de Dezembro de 2025 | Lua Cheia em Gêmeos | Primavera Mutável | Serra Grande/Uruçuca, Bahia
"Para a Guilda Anansi, Turismo de Base Comunitária é resistência cultural contracolonial"
Amanda Maia
Quem Sou é aquele amigo que o tempo passa e passa, e continua comigo. Descobri que mora em Onde Estou Agora. Aqui o lance é lealdade de coração.
Quem Não Fui é um bróder tóxico que arrasta pra rolês aleatórios. "Se tivesse feito" é o anzol dele. Mora em Dá Em Lugar Nenhum.
escrito por VD | quarta, 22 de Outubro de 2025 | Lua Nova em Escorpião | Primavera Cardeal | Serra Grande/Uruçuca, Bahia
Mapas de Vozes. Voz da Terra
Reverbero do processo de elaboração de cartografia social das Escutas Públicas realizadas nos dias 2 e 7 de Setembro de 2025 pela Comissão Popular da Revisão do Plano Diretor de Serra Grande, Uruçuca, Bahia.
O que dizer?
O que dizer do sentimento de ver pessoas de um território olhando um mapa coletivamente, em comunidade, e transformando aquele punhado de impressão colorida sobre um papel em caminhos, histórias, experiências, memória?
Lembro de quando minha Orientadora Amanda citava a frase "o mapa não é o território" (de Alfred Korzybski) quando falava sobre a pesquisa artística não ser o mesmo que vivê-la no corpo, atravessando o espaço-tempo, vivendo a experiência. E estar participando das Escutas Públicas da Comissão Popular vem dando nova dimensão a essa frase.
Cada pessoa é pedaço de realidade. Suas visões de si e do lugar onde estão vão costurando uma colcha geográfica e histórica, ampliando a realidade, colorindo de multiplas dimensões o mundo que gira e gira. Não cabem julgamentos morais. Não cabe o "você está acima, você está abaixo". Mas cabe sua visão do lugar onde você está - inclusive podendo marcar num mapa.
E aí o pedaço de papel é pintado. O mapa impresso vira uma tela. E a obra que resulta desse ato mostra coisas, diz coisas sobre as pessoas que são o território. A terra começa a falar conosco com muitas vozes. Seja em hamonia ou não, em confiança ou não, em saúde ou não. Fala. Dissonantemente, polifonicamente, em uníssona carência de escuta.
"Por que não me escutam?", brota da boca da terra. E se me coloco a ouvir a realidade tecida pelas ruas, pelas matas, pelas casas, pelas árvores, pelas vidas que as habitam, então me cabe ler o que dizem. E isso desafia.
A opressão e seus mecanismos de validação e perpetuação não se colocam neste desafio. E para além da conveniência de não escutar o que não quer e defender o que quer, há uma nota de temor. De temor daquilo que revela a boca da terra.
O mundo é maior que esse temor . As pessoas são infinitas. E ser lembrado da imensidão da Vida é...
Não conheço palavras que sejam suficientes para dizer o maravilhamento que sinto pela Vida quando eu alcanço esse estado. Mas poder experienciar a criação desses mapas é algo que fica na cartografia da minha memória.
escrito por VD | domingo, 7 de Setembro de 2025 | Plenilúnio em Peixes | Inverno Mutável | Serra Grande/Uruçuca, Bahia
Portfólio
Ainda carrego em meu coração os cheiros dos discos de vinil que eu dançava.
A solidão das noites ao som de rádio.
A luz amarela entre a porta de casa e as assombrações do elevador.
A cor do céu e o canto das cigarras no final da tarde.
O brilho da estrela da manhã que chegava antes do nascer do sol em minha janela.
A criança que eu era quando dançava desvairado em meu quarto.
Esse é o artista que sou. Nada nem ninguém apagou os primeiros desenhos da Vida em minha alma.
O Tempo não me tirou nada.
Estou chegando aos 40 anos. Foi longa a queda da ficha.
E agora é que estou entendendo que o trabalho de um artista é trabalhar.
Sem que o sentido seja um próximo "sucesso".
Uma próxima "genialidade".
Um próximo "julgamento".
"Conhecer as manhas e as manhãs".
E sou grato ao Tempo por estar vendo neste momento.
Antes ou depois teria sido um problema.
Agora é o momento certo.
Eu não quero ser jovem pra sempre. Nem ter o que eu não tive.
A Vida já desenhou em mim. Quero agora montar o portfólio.
escrito por VD | quarta, 27 de Agosto de 2025 | Lua Nova em Libra | Inverno Mutável | Serra Grande/Uruçuca, Bahia
Iniciando um painel semântico:
Inteligência coletiva.
Como autonomia e coletividade coexistem?
Como coletividades se relacionam com comunidades e territórios?
A coletividade não isenta o indivíduo da responsabilidade pela vida e pelo seu viver.
1 de Agosto de 2025 | Inverno Fixo | Serra Grande/Uruçuca, Bahia
O ator deve saber o que dizer. Do contrário, não dirá nada, mesmo que fale.
Aprendizados colhidos após orientações dos dias 17 de Maio e 29 de Junho de 2025 (duas datas celebrativas) | Outono e Inverno Cardeais | Serra Grande/Uruçuca, Bahia
Patriarcado é sobre a diligente e contínua formação de um estado de medo por pessoas que aceitam participar de uma pirâmide social doentia.
Revérbero de VD | 26 de Junho de 2025 | Inverno Cardeal | Serra Grande/Uruçuca, Bahia
Sacerdócio não é servidão.
É trabalho.
lembrete escrito por VD | quinta, 19 de Junho de 2025 | Serra Grande/Uruçuca, Bahia
Como gozar uma onda de prazer irrefreável?
...
...
.
Preto
Ignorante
Sujo
Inferior
Idiota
Bicha
Não devia nem ter nascido
Melhor seria morto
Vagabundo
Gentinha
Pequeno
.
Quantas vezes essas batidas marretam
O espelho que tem dentro dos meus olhos?
De forma que eu duvido, duvido, duvido
Mas quantas vezes eu duvidei da força de minha cultura?
Quantas vezes o espelho-olho me permitiu duvidar?
*
Êta! De sua cultura?
Da terra onte nasceu?
Daquilo que te nutriu?
Daquilo que te embalou?
De onde vieram seus ancestrais?
Não
NÃO!
Pode parar
*
Não me deixam duvidar
Tampouco duvido
...
Palavras que a Orientadora me ensinou:
Fractal https://www.dicio.com.br/fractal/
Espiral https://www.dicio.com.br/espiral/
Rizomático https://www.dicio.com.br/rizomatico/
4 6 2025
correntes de Ar
que sopraram
meu Coração
nesse dia
Fazer para ser lembrado é diferente de fazer para lembrar.
Um artista pode fazer arte para ser lembrado.
Um artista pode fazer arte para lembrar.
Não é sobre utilidade. É sobre o que se escolhe cultivar.
...
O Tempo onde estou é de uma luta pela memória. Sendo provocado pela Bruxaria Mariposa - e recentemente pela Agroecologia - me pergunto: quero que lembrem das marcas de bet, de carro, de franquias de cinema...? Ou quero que lembrem dos elementos da cultura que brotou do território, do nome das estações, das fases da lua, do nome dos rios, das folhas que alimentam e curam o corpo?
Eu já escolhi. Agora é entender como minhas ações enquanto artista educador podem ser um meio de lembrar.
...
A memória é uma questão na atuação cênica. Peças antigas, falas que precisam ser ditas, lugares que precisam ser evocados novamente, e tudo precisa falar ao Tempo de Agora. O Tempo onde estou precisa lembrar. Eu preciso lembrar. Da Cultura que nasceu da História e da Natureza deste Território. Da Bahia. Do Nordeste.
Não é sobre isolamento cultural. Não é sobre um tipo de patriotismo. É sobre ler o mundo da terra e da cultura onde nasci.
...
A cidadania cultural e a defesa das políticas públicas para isso é uma frente de combate contra a tomada hóstil de territórios pelo apagamento e apropriação culturais.
2 6 2025
correntes de Ar
que sopraram
meu Coração
nesse dia
"A Sociedade Civil
não é feita
de súditos"
Pegação de visão de Amanda Maia sobre Cidadania | 2 de Junho de 2025 | Serra Grande/Uruçuca, Bahia
Reconheço as divindades dos ventos, das matas, dos rios, dos mares, do fogo, das profundezas, do céu. Mas como reconheço o movimento?
Olho vivo
A comunicação na palma da mão
Sendo como se é