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@dont-tryy
oh, sim
há coisas piores do que
estar só
mas costuma levar décadas
até que o percebamos
e frequentemente
quando o conseguimos
é demasiado tarde
e nada pior
do que
ser demasiado tarde.
- Charles Bukowski
eu
tão isósceles
você
ângulo
hipóteses
sobre meu tesão
teses
sínteses
antíteses
vê bem onde pises
pode ser meu coração
- Leminski
você é como pele de cobra
e eu vou te arrancando sempre que dá
minha cabeça vai deixando pra lá
cada detalhe exótico
do seu rosto
o desapego se
transformou em esquecimento
e isso é a coisa
mais triste e deliciosa
que já aconteceu
- rupi kaur
você foi a coisa mais bonita que eu tinha sentido até então. e eu estava certa de que continuaria sendo a coisa mais bonita que eu poderia sentir. será que sabe como isso pode ser sufocante. ser tão jovem e pensar que tinha encontrado a pessoa mais incrível que eu poderia conhecer. em como ia me acomodar pelo resto da vida. pensar que tinha provado o mel em sua forma mais pura e que tudo mais teria um gosto refinado e sintético. que depois disso mais nada faria diferença. que nem todos os anos à minha frente combinados poderiam ser mais doces que você.
- rupi kaur
“Amar grande é gastar reservas e ainda assim ter coragem pra dar o que não se tem. Amar grande é ter vertigem no chão mas sentir um chamado pra voar. Amar grande é essa fome enjoada ou esse enjôo faminto. É o soco do bem na barriga. É mostrar os dentes pra se defender mas acaba em sorriso. É o sal que carrego no fundo falso da bolsa pra quando eu não aguentar a vida. É o açúcar que carrego junto. É tudo que pode sair do controle. É meu corpo caindo. E as almofadas de várias cores pra me dizer que pode dar certo. É o desespero aconchegante.”
— Tati Bernardi.
Como qualquer texto argumentativo, a autora no caso eu, defende uma tese bem clara:
O amor mesmo em tempos modernos é o maior presente dos deuses, o único sentimento capaz de salvar almas perdidas.
“I’m so unhappy. A portmanteau word. Analysed: headache; guilt; remorse … (…) How can I get sensible? I mind so much. Oh dear—the conflict—the ugliness:”
— Virginia Woolf, Complete Works
talvez eu precise te dizer, pessoa que está na minha vida, que eu não faço promessas que eu não sei se vou estar aqui amanhã
mesmo que hoje eu te ame muito muito muito
eu não posso garantir nada além do agora nada além desse instante e desse texto
nada.
não é porque eu não gosto de ficar nas e com as pessoas ou porque elas não ficam em mim é simplesmente porque não existe nada além disso aqui esse momento aqui em que nossos átomos dividem o mesmo espaço e se dão bem
é que eu prefiro admitir que isso pode e irá acabar um dia e encarar essa verdade me libera de muitas dores principalmente a da culpa
eu quero ser boa pra você, mas se um dia eu não puder mais ser vou embora e será por amor também
“E o único jeito de ser mais malandro que a tristeza é sendo cínico. E lá vai a garota. Comprar pão quente com seu cinismo. Comprar absorvente com seu cinismo. Amar com seu cinismo. Porque só o cinismo vence a tristeza. Porque só o cinismo é mais triste do que a tristeza. E eu virei um muro alto feito de pedras cheias de pontas. Tudo isso só porque eu quero tanto um pouco de carinho que acabei ficando com medo de não ganhar.”
— Tati Bernardi.
de zero a dez, quanto você acha que dói?
de zero a dez, quanto você se importa?
se é difícil pra você que só assiste, imagina pra mim que nem consigo dar nome ao que sinto.
vou deixar a alma gritar… uma hora ela vai cansar e então é quando aproveito pra tentar salvar o que restou. o que a dor ainda não tocou.
sofrer não muda quem sou. não me faz menos merecedor
sofrer me faz perceber que, mesmo frágil, eu posso ser profissional em me reerguer.
gente, priscilla alcântara
a gente cruzou a esquina do incontornável tantas vezes antes de nos encontrarmos que, ao mínimo sinal de que nos aproximaríamos dela juntos, corremos em direções opostas temerosos e ofegantes. ninguém aguenta mais sofrer por amor, sabe? ficou batido, bobo, saturado. e as pessoas, as mais sensíveis, seguem entrando nos mesmos ciclos. nós dois não. e cada um chegou nessa quina por razões particulares e tristes, mas chegou. a gente sabe o que é dar errado e assim como parece cuidado agora, baby, é tão limitante. estamos tão resguardados, murados porque mapeamos o fracasso toda vez. eu te escrevi pra dizer que a gente precisa deixar portas e passagens secretas entre essas defesas. porque a gente deu certo primeiro. a gente sempre dá certo primeiro. e, cara, eu te mandei aquela mensagem pra lembrar: um dia a gente vai pegar uma rodovia longa, sem esquinas, só curvas de tesão e etc. um dia a gente escapa dessas encruzilhadas. daremos certo no fim. talvez não tu e eu. nós. em outros caminhos, sabe?
e apesar de eu ter dito -volta- a resposta certa era -siga- quem sabe eu te ultrapasse e você venha correndo porque o seu destino, o seu merecido descanso, sou eu.
agora compreendo melhor as garras dos gatos:
também eu gostaria de esconder punhais por baixo de um corpo manso
inês francisco jacob, TELHADOS DE VIDRO
eu tô muito só agora. tem pessoas no mundo que eu amo profundamente e vejo de longe prosperar. torço no meu silêncio pelo sucesso e qualquer raio da luz alheio me basta. eu nunca fui mesmo de cobrar presença. tem pessoas no mundo que me amam profundamente e que torcem por mim quando lembram de lembrar. e eu sou grata por qualquer vibração, ainda que distante, porque eu sei que cada dia que eu levanto e vivo é um alívio silencioso pra elas. é um pequeno presente cotidiano sobre o qual a gente nem sempre fala, mas eu sei que isso é amor e que quase sempre basta porque tem que bastar. eu nunca fui mesmo de cobrar presença e não vou começar agora, mas me sinto só nos dias normais quando ninguém tem tempo pra exercer amor do meu lado. quando ninguém me toca nas mãos, nos braços, na cintura. quando ninguém me conduz na direção da luz nos meus dias escuros. mesmo sabendo que o interruptor só funciona com a minha digital e ninguém pode me curar. mesmo sabendo que tem vias finas demais, onde so cabe uma pessoa por vez e eu tenho que atravessar só. eu sinto que cheguei na autoestrada e eu ligo o som e sorrio debaixo do sol e do céu, num conversível imaginário e eu não tenho agora com quem dividir a rotina da viagem. não tem ninguém pra me abrir o mapa e me guiar num looping toda vez que a gente se perder junto. eu tiro fotos e envio postais. eu sei das pessoas que vibram por mim à distância. vibro de volta, solitária e cansada. ninguém vigia a minha mala quando eu entro na cabine do banheiro do aeroporto. às vezes fica difícil ficar só. não porque eu precise muito de companhia e esteja disposta a cobrar, mas porque deixa de ser prático. eu tô muito só agora, mas eu nunca fui de cobrar presença. talvez eu mesma vá embora agora pra me admirar de longe prosperar antes que a solidão me enforque. talvez eu diga pra mim mesma que isso é amor. e talvez então baste porque tem que bastar.
as relações de amor são muito mais duras depois que a gente cresce. além de ser sobre se sentir amado ou não é também sobre não ter dinheiro pra dividir o aluguel e aceitar explicar três ou quatro vezes a mesma coisa. o amor adulto precisa sobreviver ao desgaste da repetição
e eu sei que você vai dizer que se for amor mesmo se for amor mesmo é poético demais pra quem volta cansado do trabalho e dá de cara com os mesmos desajustes que eram só engraçados três anos atrás
o amor duro precisa conversar o tempo todo, mas a pessoa se cansa e se estressa e queria que a vida fosse um pouco mais fácil porque tem a porra do presidente e a amazônia e também tem o cartão de crédito e o banco que aumentou a tarifa da conta como se fosse justo cobrar 50 reais por cinco teds mensais
o amor precisa esquecer das coisas que irritam e então você tenta só dormir no mais perfeito silêncio e se tem qualquer barulho e o teu sono é leve, tem empurrão e chacoalhada, tem você levantando e indo dormir no sofá, tem a reza do amor pra que você ache tudo uma consequência justa da escolha
porque você disse sim e deu a mão e o juiz decretou ou só os móveis foram trazidos e as coisas divididas, porque você tem essa segunda vida agora, a do casal, e o amor precisa caber:
nas brigas que acontecem depois do expediente ele precisa dormir entre vocês, pra que a mágoa não fique. ele precisa acordar do seu lado pra que a raiva não se precipite e acabe estragando o fim de semana na casa da sogra
muita coisa precisa funcionar antes do amor e porque a gente às vezes tá doente demais
o amor não consegue
e a gente que dizia que saberia lidar com tudo isso ou que tentaria até o fim meio que desiste, meio que culpa, meio que desata a chorar desolados e infelizes porque na verdade crescer é ainda mais duro que amar sendo adulto e ninguém diz isso pra gente enquanto crianças, ninguém nos explica na adolescência, ninguém nunca
a gente aprende na marra a sustentar o amor ou não aprende. só tenta.
amar é duro mesmo
só que às vezes a nossa fé é ainda mais