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6 A.M - Cigarros
Sempre pareci com a minha mãe. Pelo menos é que os outros costumam dizer, mesmo eu sempre falando que somos diferentes com aquela risadinha sem graça de quem está pouco se lixando para conversa de tia que te pegou no colo, confesso, somos idênticas. Temperamento, jeito de pensar, voz, modo de agir. Não acho ruim, pelo contrário, isso me fortificou e dissipou qualquer elo com o cara que se diz meu pai. Considero-me uma produção independente, filha de uma mãe com força de uma família. Isso é o que mais me pesa para seguir meu sonho, deixá-la sozinha. Sentar nesse banco da rodoviária me parte o coração, mesmo com a sua aprovação. Tenho tudo que preciso para cortar o país do sul ao norte (nessa ordem, o sul sempre me atraiu mais). A rodoviária está tão vazia quanto às ruas de domingo às seis da manhã. Perdi as contas de quantos "Você tá maluca, é perigoso viajar sozinha desse jeito." eu ouvi, mas precisava de um tempo para mim. Rodar fotografando e escrevendo a respeito de tudo, sem destino certo e lugar para ficar. O pior que pode acontecer é meus órgãos irem parar no mercado negro. Posso trocar meu rim por alguns maços de cigarro. Não faria isso. O banco estava gelado, o vento frio congelava os extremos do meu corpo. O barulho da TV no quinto guichê chegava a me torturar. Agradeço todos os dias ao grande Steve Jobs, graças a ele tenho o Jake, meu IPod. Adquiri a mania de nomear objetos com a minha mãe, segundo ela, isso faz nos apegar e tomar mais cuidado com as coisas. The Strokes abafaria perfeitamente a hipocrisia dos atores da novela das nove e, sem sombra de dúvidas, seria um belo passatempo. Não tinha o hábito, mas naquele frio um cigarro iria bem a calhar. Peguei alguns trocados no bolso e me dirigi à lanchonete, comprei uns três cigarros soltos e um isqueiro. A noite seria longa. De volta ao banco, tragadas e The Modern Age, mal pude ouvir a voz que me chamava e, devo confessar, sentir aquela mão no meu ombro fez meu coração se comprimir ferozmente contra o tórax. – Foi mal! Não queria te assustar, só queria fogo. Pode me emprestar o isqueiro? – Atrás de mim com o cigarro apagado balançando na boca conforme as palavras iam saindo de sua boca, estava um rapaz que parecia ter uns 23 anos. Tirei um dos fones, peguei no bolso o isqueiro. – Não deveria fumar, dá câncer. – Foram as únicas palavras que me vieram a cabeça, precisava de algum motivo para continuar olhando para ele e fazendo minha análise. Ele era bonito, não era uma beleza que se diga clássica, mas aos meus olhos, ele era muito atraente. Jeans rasgados, xadrez e coincidentemente, uma camiseta dos Strokes por baixo. – Faça o que eu digo, não faça o que eu faço? – Ele riu e por Deus, que sorriso era aquele?! Não dava mais para disfarçar minha cara de fascinação, meu sorriso contínuo estampava na minha testa a frase: “Me coma.”. – Eu não fumo. Só socialmen... – Socialmente? – De novo aquele sorriso, já não conseguia prestar mais atenção na música. – Tá indo para onde? – Salto, o ônibus tá atrasado. – Então vamos no mesmo. – Essas quatro palavras me tiraram um sorriso abafado no canto da boca, que tenho que admitir, queria que ele tivesse percebido. Depois de mais cinco minutos de espera, o ônibus enfim chegou. Sentei no último banco, não tinha banheiro então nada me incomodaria. Observei atentamente ele se dirigir à poltrona, a terceira frente à minha. – Pedro – disse virando-se para trás – Prazer. – Prazer, Mônica.