Take My Hand, I'll Teach You To Dance || Lyel
A FLASHBACK.
takemetoelylsium:
- Não estou com medo deles, Lyle, estou… Não sei o que pode acontecer lá dentro.
O moreno escutou o riso abafado do outro como se o que tivesse dito não fosse de real importância, e decidiu tomar o fato como irrelevante. Havia ido longe demais com aquilo, não tinha mesmo como voltar atrás. Já tinham sido vistos por metade da escola, e certamente seus nomes corriam pelas bocas tingidas de batom do outro lado do salão, sussurros levados até a floresta e se perdendo entre as árvores. O rapaz respirou fundo, erguendo a cabeça e aceitando todas as consequências que atravessar aquela porta poderiam trazer.
Foi como um soco no estômago, para não dizer coisa pior. Todos aqueles olhares, o jeito que riam ou escancaravam as bocas, rostos se virando para olhar outra vez. Elyl tinha vontade de sumir, puxar Lyle e sair correndo pelo mesmo lugar de onde vieram, indo se esconder em algum canto escuro, se enfurnar em uma sala de aula, talvez. Sua respiração era mais pesada, mas ele sabia que não podia desmaiar naquele momento, seria demasiado constrangedor, e Lyle e seu terno cor-de-rosa chamariam ainda mais atenção, sendo que tudo o que queria naquele momento era o irmão tranquilo e o pertencendo. Era a primeira vez que podia chamá-lo de seu sem ter medo, sem se repreender mentalmente. Poderia gritar para o mundo que seu irmão seria seu para sempre.
Algo chamou a atenção do homem ao chegar no meio do salão. Alguém estava… sorrindo para os dois? Ninguém nunca sorrira para ele daquela forma, o aprovando. Ele engoliu em seco, sentindo algo subir de seu coração, fechando a garganta. Ele estava… chorando? Pego de surpresa Elyl levou a mão que não estava entrelaçada na de Lyle ao rosto, sentindo-a ficar úmida ao toque. Um riso surpreso escapou de seus lábios como um soluço, logo depois se estendendo até uma longa risada melodiosa. Poucas pessoas haviam escutado o filho de Ícelo rir, e apenas as que haviam presenciado o ato sabiam o quanto era bonito, como se não existisse nada a temer. Afinal se os pesadelos estavam felizes, realmente não havia com o que se preocupar.
Levado por um impulso repentino, a inacreditável sensação de felicidade, Elyl se virou para Lyle, que tinha um de seus imaculados sorrisos no rosto, e deixou que o irmão visse a alegria em seus olhos, como eles brilhavam da mesma forma que a lua lá fora por causa dele. Só dele. O moreno riu de novo, embora desta vez com maior leveza e sem a surpresa inicial, deixando que o riso viesse direto de seu coração. Inclinando-se um pouco, fez o que sempre quisera fazer, o que em seis anos não pôde. Elyl o beijou. O beijou como se fosse a última coisa a se fazer, ali no meio, deixando que as luzes vermelhas e douradas os iluminassem, que seus corações batessem mais forte, que as mãos de dedos longos puxassem a cintura do gêmeo até que esta se encontrasse com a sua. Tudo o que ele queria estava ao alcance de suas mãos, o mais perfeito sonho que nunca ousara sonhar.
- Eu te amo, Lyle. Te amo como nunca vou amar mais ninguém na vida. - sussurrou Elyl ao ouvido do gêmeo antes de se preparar para o que estivera esperando não há cinco dias, mas há seis anos.
Tirando toda a coragem que tinha olhou para o rapaz que estava cuidando do som, acenando a cabeça para ele. A música parou, outra começando a tocar logo em seguida. Era a música favorita dos dois, aquela que escutavam desde pequenos. Tremulando, deixou que um dos joelhos repousasse no chão, ao menos sabia se conseguiria se levantar depois, tamanho era seu desespero. Levando uma das mãos ao bolso, Elyl voltou com uma pequena caixa aveludada, abrindo-a logo em seguida e a estendendo para o loiro à sua frente. Ainda possuía lágrimas lhe enfeitando a face, juntas do mais largo sorriso, embora este estivesse tão receoso quanto quem o portava. Era disso que estava com medo desde o início.
- E eu não quero amar mais ninguém. - o homem respirou fundo, erguendo os olhos para que estes se fixassem nas lindas íris claras que já havia decorado a cor. Elas eram tão lindas quanto o dono.
Lyle não sabia do que gostava mais: dos sorrisos, dos olhares mal encarados ou de sua mão segurando a de Elyl. Os sorrisos só demonstravam o que o filho de Morfeu já sabia: eles eram amados, aprovados, por quem os amava e aprovava anteriormente. Os olhares reprovadores, por mais que doessem, só o faziam querer lutar ainda mais por quele amor; só o faziam querer segurar ainda mais forte a mão de Elyl e prometer-lhe ser seu eternamente. Mas a mão de Elyl segurando a sua, o suor de nervosismo que as peles produziam, sua mão levemente trêmula, tudo era reflexo da luta que os dois travavam em seu interior. Tudo era prova de que era possível, de que podiam amar e serem amados. Lyle amava Elyl. Elyl amava Lyle. Não havia mais nada que importasse.
Foi pego de surpresa pela risada. Pela primeira vez em muito tempo, os papéis pareciam invertidos: Lyle se preocupava demais enquanto Elyl distribuía a risada mais incrível do mundo. Talvez Lyle estivesse com medo. Medo de amar demais, medo de estarem errados demais. O que seus pais estariam pensando no momento? O que Afrodite achava daquele amor? Entretanto, foi só olhar para o moreno de olhos claros ao seu lado. A imagem do sorriso grande no rosto foi o suficiente para fazer Lyle sorrir ainda mais do que antes. Não havia o que temer. Não havia com o que se preocupar. Estava tudo bem, tudo incrivelmente bem.
Se a risada foi uma surpresa, o beijo foi uma coisa inexplicavelmente prazerosa. Sentiu o irmão se inclinando e acabou por fazê-lo também. Alguma coisa se mexia em seu estômago, seu coração parecia seguir o ritmo de um tambor, seus pelos eriçados e seus dedos inquietos indo até a nuca do outro. Os lábios quentes de Lyle contrastavam perfeitamente com os lábios gelados de Elyl. E era perfeito, nada menos do que perfeito. Esperara por aquele momento desde o dia que percebera como seu coração batia mais rápido quando o assunto era o irmão gêmeo. Esperara por aquele momento durante anos. E não podia estar mais certo: valeu a espera, valeu cada segundo inquietante.
Lágrimas começaram a escapar de seus olhos quando observou a cena seguinte. Elyl ajoelhado na sua frente. A música tocada, ele sabia, era obra do irmão gêmeo. As pessoas olhavam espantadas para aquela cena. Um irmão pedindo a mão do outro. Por quanto tempo seriam alvo de preconceito, Lyle não sabia, mas, sinceramente, não se importava nem um pouco. Nada mais importava, nada além da pequena bolha que criaram, do pequeno e colorido mundinho que só cabiam dois. As lágrimas embaçavam sua visão, assim como suas bochechas doíam pelo esforço de aguentar o sorriso enorme que aparecia na face do loiro. Lyle certamente emanava um brilho especial naquele momento. Era felicidade, era amor, era a forma mais pura e nítida do que eram realizações de sonhos. Aquele era o sonho do qual Lyle nunca queria acordar.
Levou uma das mãos à boca, tampando a expressão boquiaberta e tentando, ao mesmo tempo, secar as lágrimas que não paravam de descer. “Elyl...” Foi a primeira coisa que escapou por seus lábios. Um sussurro, a palavra que ele mais amava no mundo. Amava o nome do homem que se encontrava ajoelhado à sua frente mais do que amava a si mesmo. Sequer conseguia medir o tamanho do amor pelo próprio rapaz. Era absurdo, mas era tão bom que não cabia em seu peito. A mão que escondia seu rosto parcialmente foi ao rosto do irmão gêmeo, acariciando sua pele com leveza. O sorriso quase rasgava sua pele de tão grande, quase cegava os olhos das pessoas de tão brilhante.
Ouvia os cochichos de quem estava à volta deles, palavras maldosas sobre o Tártaro, desonra e afins, mas simplesmente não conseguia se importar. Como aquilo podia ser visto como ruim? Como aquele amor tão puro poderia ser considerado, em algum momento, fruto de pessoas ruins, a semente da discórdia? Aquilo era amor, afinal de contas. Amor tão verdadeiro que doía. “Elyl, eu...” A voz estava embargada, mas Lyle fazia de tudo para continuar. Precisava dizer sim. Precisava dizer que amava estar com ele, que amava sentir seus toques, que amou aquele beijo como amaria os seguintes, que amava tudo, absolutamente tudo em Lyle. Que amava Lyle. ”Eu te amo tanto.” Uma risada rouca escapou, nervosa e cheia de entusiasmo. Já podia imaginar quão glamouroso o casamento seria.
Inclinando-se, levou os lábios novamente aos do gêmeo. Dessa vez, com mais delicadeza o que antes, beijou o irmão, depositando todo o seu amor naquele pequeno ato. Sem quebrar o beijo, levou as duas mãos à camisa que o outro usava, puxando-o para que se levantasse. O beijo prosseguiu por longos minutos até que, por fim, ficou sem ar. “Eu sou seu, meu amor, eu sou seu.” E aquele era seu sim, aquele era seu para sempre. Aquele era seu amor.













