Poderia dizê-la a Nia, penso. E, mantendo as palavras confidenciadas, longe da pretensão de arruinar a noite com meus traumas pueris, reviro as urbes esmeraldas. Como quem desaprova, mesmo que não o quisesse de fato, enumero os motivos para que meu desempenho anterior seja devidamente sentenciado. Os dedos esguios erguem-se sequencialmente, as unhas coloridas pelo anil metalizado sinalizando a ordem. — Um. Me deram livros de treinamento para crianças. Dois. Espero que o pense quando dispersar energia caótica em seus secadores de cabelo. Três. É a mesma merda de sempre, sem poderes, sem serventia alguma. — Menciono com mais seriedade do que pretendido. Não há como fugir, embora dificilmente me torne a herdeira – e espero que isto nunca aconteça —, há demasiada expectativa em mim enquanto fae e apenas como uma. Sem outro rumo, resta-me lutar por algo que meu coração permanece morto. O meu propósito lançado por outrem é inegável. Conquanto, em relação à bebida, a incerteza forja a feição, o olhar distante recordando das breves ocasiões em que conheci seus efeitos. Uma mais deprimente que a outra. Quando Nia confessou que Lukas não era meu pai e na noite em que conheci Maxwell. Canecas contra si e a conversa calorosa na companhia de um desconhecido que conhecia meus mais profundos segredos: esse é o mínimo que espero de uma bebedeira inconsequente. Uma gargalhada segue a encenação de Abbadon e por um instante, imagino como seríamos como amantes. Desastre. — Esse algum… — Observo o nosso redor, a massa corpórea incluída no cenário de forma apropriada: alguns dançavam enquanto outros entretinham-se com brincadeiras alcoolizadas e demonstrações pornográficas nos cantos mais obscuros do salão. — É um alvo inocente, Abba? — Questiono com o olhar maquiavélico, segura de que qualquer fae ou especialista seria foco de um sofrimento prazeroso nas mãos da morena. — De qualquer forma, não ousaria interromper sua diversão… Afinal de contas, alguém terá que se divertir para que o quarto não seja inundado por tédio durante a semana. Guarde detalhes menos indevidos, huh? — Solícita, bebo mais do vinho e no terceiro gole, percebo que o copo está vazio. Jogo-o numa mesa, em que outros estão dispostos e pelas mãos livres, puxo a silhueta de Abbadon. Nos incluindo na mesma dança, meu corpo se move segundo a melodia. Imersa na dimensão quase metafísica quando fecho os olhos, deixo ser guiada pela música. O estado segue. Pulsos se elevam, as palmas entre os fios castanhos enquanto o restante da silhueta se desloca de forma angelical pelo espaço. A confusão sonora se limita a ruídos e por ele, sinto que uma pequena e singular descarga elétrica percorre de meus pés até a nuca. Uma luz mínima se esvai de mim, ainda comedida, abro os olhos para que desse modo se perca imediatamente. Curvo os lábios para Abba, pousando a destra em seu quadril para dançarmos e o faço sem me importar com os olhares que recebemos.
Abbadon conteve a risada alta que queria dar com a impaciência alheia diante do controle de seus poderes. ❝ ━ Hey, pelo menos você ganhou um livro infantil e não um ‘magia para bobocas’, poderia ter sido pior...Não se preocupe, eu os mantenho bem longe de seu alcance e sabe disso, o único secador naquele banheiro é o seu e se você estragá-lo...Bem, espero que não brigue consigo mesma. Nesh, eu literalmente passei a minha primeira infância sendo tratada com pena por meus pais porque eles achavam que eu não tinha poderes e então eu fui mandada para outra planeta porque meus poderes não eram o que eles queriam, então...Acredite, eu entendo a ansiedade de controle das habilidades e de se mostrar capaz. Vai ficar tudo bem, confie em si mesma e no processo um pouco, o seu problema é achar que alguém nasce sabendo como praticar magia perfeitamente. ❞ Abbadon não tinha os mesmos problemas de Nestha, afinal a outra era herdeira de um planeta, mesmo que não fosse a herdeira direita ao trono, as expectativas de todos para com a princesa eram vocalizadas todos os dias a torto e direito pelos corredores e fora deles, podia ser o primeiro ano de Nes ali, mas se seguisse o padrão de acontecimentos de Vesper...Ela teria longos e duros anos pela frente. ❝ ━ E alguém aqui é inocente de verdade, Nessy? Todos estão a procura de alguma coisa, desde que seja consensual, não há mal algum em dá-los exatamente o que querem. ❞ Os cabelos foram colocados para trás com uma das mãos enquanto observava as pessoas ao seu redor, a maioria usava mais glitter que roupas e ela podia ver o brilho se espalhando pelo salão a cada movimento impensado que alguém executava, seu estômago se embrulhou pensando no estado que suas roupas teriam ao final daquela brincadeira. ❝ ━ Que bom que pensa assim, mas saiba que não vou ser babá de ninguém, então se você se meter em encrenca ou acabar bebendo demais, a responsabilidade é sua. Bem-vinda a Alfea. ❞ Ser puxada por Nesh para a pista não estava em seus planos, na verdade dançar sozinha ou acompanhada não fazia parte de suas ambições para a noite e tão pouco de suas atividades preferidas. Por um momento Abbadon apenas permaneceu ali, parada com um copo na mão bebericando o conteúdo transparente enquanto a mais nova se divertia e trazia atenção a si, mas no momento que Nesh lhe direcionou o sorriso ela sabia que estava acabada. ❝ ━ Não. Não ouse. ❞ Uma risada baixa foi dada com a silenciosas insistência, não havia muito o que fazer, deixar a outra ali sozinha não era uma opção em sua mente e não queria decepcionar a amiga, portanto apenas se conteve em dançar conforme a música, as asas manchadas se abrindo apenas para que ficasse em paz sem alguém tentando dançar consigo sem sua permissão. ❝ ━ Minha jaqueta vai para o lixo depois daqui, sabe disso, não é? ❞