Lily Potter poderia, agora, ser comparada com um furacão pronto para derrubar o que quer que resolvesse vir em seu caminho. Ou, quem sabe, comparar-se com uma pistola pronta para disparar, tamanha essa a determinação e a fúria em seus passos que se dirigiam até a sala de Dolores Umbridge. Depois de ter sido presa e acusada de invasão de propriedade privada por conta da mulher, havia se mantido silenciosa meramente para que não complicasse ainda mais as coisas, além de que sua raiva era tamanha que era decerto que as coisas ficariam feias se intervisse logo depois. Mas agora… agora, já havia dado mais do que tempo suficiente para que as coisas se resolvessem e estava longe de aceitá-las agora, o corpo feminino inteiro dominado pela insolência da qual era conhecida. Tinha comprado um megafone e estava agora com a placa usada anteriormente, para o primeiro protesto que fez e que a colocou na posição que estava agora.
— I BET YOU THOUGHT YOU’D SEEN THE LAST OF ME. — Assim que chegou na frente do escritório, a voz bradou no megafone, ampliando toda sua petulância que, aliás, estava completamente dentro de seus direitos. — C’mon, Dolores, vem aqui fora mostrar para todo mundo o quão injusta você é once more. Acha que é assim que vai conseguir se livrar de mim? I will continue here and there is not even a fucking little thing you can do to me and you know why? pelo simples fato de que você não me intimida. — As palavras eram proferidas rápida e firmemente, escorrendo toda a raiva contida pelo que havia passado anteriormente, convertendo-se então, para mais determinação ainda. Possuía plena ciência de que poderia ser presa novamente, ciência de que as coisas poderiam se complicar para valer agora, entretanto se negava a ficar quieta, deixando que tudo ficasse por assim mesmo. A mulher mais velha, se locomovendo como que em um ataque de fúria e surpresa pela insolência, apareceu porta afora segurando o celular. — Ora, ora, senhorita Potter… a senhorita ainda não aprendeu como é que as coisas são aqui agora? então me deixe ter o prazer de lhe relembrar. Porque você sabe… consequências, elas devem ser tomadas e você merece receber cada uma. — Como sempre, a mulher possuía um tom falsamente doce conforme proferia as palavras tão ácidas, soltando risadinhas. Como retribuição, tudo o que ganhou fora mais bradar vindo do megafone e a placa sendo levantada em insistência.
Para qualquer um que visse de longe, Albus Dumbledore deveria parecer um homem cansado, pronto a aceitar uma aposentadoria forçada e aproveitá-la da melhor maneira que fosse. Conquanto, na postura tranquila ele escondia um urso, pronto para sair de seu estado de hibernação a qualquer instante. Foi na surdina que diversas informações foram sendo recolhidas, em escapadas silenciosas no meio da noite e aproveitando-se de todo o terreno do instituto, conhecido com a palma de sua mão e no qual poderia andar de olhos vendados. Albus tinha certeza que ela e Riddle desviavam verbas do governo destinadas a educação e que vinham também roubando do caixa de Hogwarts.
E como diz o ditado, quem procura acha. Com a ajuda de informantes externos, do próprio Ministério da Educação, e de seus mais fiéis alunos dentro do instituto, Albus preparou um dossiê que foi enviado diretamente a um de seus melhores amigos do Ministério Público. A resposta foi quase imediata e, calhava de ser, a prisão da mulher não deveria demorar a ser anunciada, bem como a de Tom Riddle. O horário marcado era as sete horas da manhã e, ainda que não fosse pessoa vingativa, Albus tinha um sorriso nos lábios que não abandonaria com facilidade por bem imaginar como seria no dia seguinte, acompanhar a polícia e recuperar sua antiga sala enquanto retiravam Dolores da mesma.
Por isso estava confortavelmente sentado em seu sofá, usando calça de um azul escuro com várias estrelas brancas, própria de pijamas, e um camisetão. Sobre os ombros residia uma manta de tom pardo, no colo um balde de pipocas que devorava com imensa tranquilidade enquanto assistia um filme cujo nome sequer se lembrava, mas que era tão antigo quanto o próprio tempo. Não tinha qualquer pretensão de levantar-se... Mas quando o telefone vibrou, bem, ele já sabia que havia muito pouco que pudesse fazer.
A mensagem de James, alertando-lhe do que faria Lily o fez colocar-se de pé em instantes, torcendo os lábios em careta pequenina; a estudante era uma de suas favoritas, mas por Deus, como poderia ser impaciente. “Oh, bem, há coisas que não podem ser remediadas.” E num dar de ombros tomou as chaves do carro sem se preocupar com os trajes e avisando a empregada de que iria sair, calçando os chinelos felpudos antes de ir para a garagem e, de dentro do veículo, já saindo pela rua, ligar para a polícia. A solicitação de mudança de planos que foi facilmente aceita pelo delegado, um show como aquele deveria ser seria ótimo marketing para a junta policial.
Quando o carro passou pelos portões foi tomado por euforia profunda, então, podendo ouvir de longe a voz de Evans graças ao megafone quando finalmente estacionou o carro de fronta ao prédio principal, já vendo de baixo sua antiga sala com a luz acesa. Aguardou, no entanto, pelos demais policiais para entrar e foi assim, de pijamas, mãos unidas à frente do corpo e com expressão serena que postou-se poucos metros atrás de Lily Evans, bem há tempo de ouvir a declaração de Umbridge. “Não, Dolores, infelizmente não é esse o caso.”
A surpresa no rosto da mulher era tão clara quanto a luz do dia, seu sorriso ao ver os policiais esmaecendo, porque afinal, o que estavam eles fazendo com Albus Dumbledore? Indignação e medo inundaram a mulher, que não tardou a vociferar com sua voz aguda e extremamente doce, veneno em cada sílaba. “O que faz aqui, Dumbledore? Não tem mais qualquer direito aqui!” Afinal, o que o velho vestido em ceroulas queria?!
A resposta Albus logo deu, com um suspiro cansado e negativar suave de rosto. “Gostaria muito que não fosse assim.” Era mentira, é claro, ele adorava no fundo que assim estivesse sendo feito. “Mas creio que os policiais explicaram sua situação melhor do que eu. A minha, no entanto, é a seguinte: fui readmitido como diretor e, bem, foi um prazer trabalhar com você, minha cara, mas agradeceria muito se no seu último dia aqui não erguesse a voz com uma de minhas alunas.” E na tranquilidade da fala, o rosto pendeu com sutileza para o lado enquanto Wulfric se forçava a não rir ou sorrir demais.
Quem diria que sua noite de quinta-feira seria tão agitada?!