Sua garganta doía, e doía de tal maneira que foi inevitável para Remus se perguntar se suas cordas vocais haviam se rompido também. O gosto de sangue preenchia a boca de tal maneira que era como se Remus tivesse acabado de engolir um coração, como se o tivesse mordido e o líquido quente e vital escorresse pela boca; no fim, ele sabia que era o seu.
Ao menos, não se lembrava de ter matado sequer um coelho naquela noite, o que era alguma coisa.
Não, ele sabia que o sangue era seu. Sabia que era de seus dentes, retraindo-se dolorosamente de volta ao lugar, de seu crânio se remodelando, de sua boca a qual incessantemente mordera enquanto tentava livrar-se dos grilhões alto impostos e uivara e urrara, preenchendo cada cômodo da casa dos gritos com seu eu animalesco, com sua dor. O sangue era seu, reafirmou a si mesmo, e era quase irônico o quão reconfortante aquela única informação poderia ser.
Nu agora que de volta ao normal, foi só alguns minutos depois de permanecer deitado que ousou se mover, buscando pela troca de roupa separada antes de aparatar para aquele lugar tão perto de Hogsmeade. Não teve forças para muito, contudo. Os trapos ficaram para trás, a camiseta recém colocada sujando-se do sangue dos arranhões que fizeram em si mesmo, mas não em abundância, eram finos, e ardiam como lembrete de que, apesar de tudo, por aquele mês haviam realmente acabado.
Quando finalmente criou coragem para alcançar sua varinha, aparatou-se direto para casa.
As roupas, já sujas, foram jogadas no cesto e ele deixou um afago curto na cabeça do gato e dos cachorros, que ganiram em preocupação com o dono; dessa vez, Remus não sorriu para eles, simplesmente pediu que saíssem e fechou a porta. A banheira se encheu devagar e de forma igualmente lenta ele se colocou nela, não se preocupando com a parcela de água que foi ao chão antes de abraçar os joelhos; cada músculo de seu corpo reclamando, cada junta de cada osso doendo, cada corte ardendo. Foi só quando sentiu dedos familiares em seus cabelos, contudo, sem sequer tendo ouvido a porta abrir, que as lágrimas rolaram.
O soluço veio naturalmente, quase infantil, quase que dê criança e, de maneira quase infantil também, a mão encontrou a de Sirius para segurá-la enquanto a testa se encostava ao joelho direito.
Ele estava bem, não havia ficado perto e o ferido, como sempre temia. Ele estava bem e estava ali.