situações tumultuadas, multidões, pessoas com quem não costumava conversar surgindo do nada para debater sobre algum assunto… grace nunca gostou de nenhuma dessas coisas e, desde antes mesmo da chegada da polícia no local, os arredores de onde o ônibus havia parado era uma combinação das três. não seria hipócrita de dizer que não havia ficado curiosa com o ocorrido, que não havia demonstrado interesse em ouvir algumas das teorias formadas pelos habitantes locais, todavia, o tempo que passou no meio do tumulto já havia sido mais do que o suficiente para fazer com que a mulher se cansasse de tudo aquilo. graças ao apagão, ir para casa seria um tanto difícil mesmo se conseguisse passar por todas aquelas pessoas e, por causa disso, não conseguiu conter um suspiro de alívio ao ver que o wild horse bar mantinha as luzes acesas. “é, eu tava lá no meio até agora” disse ao ouvir jesse logo que ela entrou no bar, sentando-se em um dos bancos que ficavam perto do balcão logo em seguida. “o complicado é saber qual das trezentas histórias que já tão circulando é a verdadeira. tem umas pessoas bem criativas por aí” riu baixo “isso é pra mim?” questionou, arqueando as sobrancelhas e apontando para a bebida que ele havia largado sobre o balcão.
“O que te fez entrar? Além do gerador, quero dizer. Certamente não foi a fachada convidativa.” Brincou, o olhar ainda focado nos copos do balcão. “Isso custa dez dólares.” Respondeu, puxando a bebida de volta para si. “Vinte pra você, na verdade.” Completou, sorrindo de canto e a olhando nos olhos. “Na verdade, tanto faz. Sobre as histórias, eu quero dizer. Todas tem um fundinho de verdade, ou seja, dá pra tirar a essência da coisa. Ônibus em chamas, uma pessoa virando churrasco. É bem simples.” Declarou, umedecendo os lábios. Era certo dizer que Jesse ficava, no mínimo, irritado com a presença de Grace em... Bom, qualquer lugar. E ali não era diferente. Chegava a ser pior, ele pensava, porque o lugar era seu. Seu bar. E nem mesmo a multidão de pessoas que lotava o lugar seria capaz de distraí-lo da loira, já que ela parecia fazer o possível e o impossível para não o deixar em paz. Não restava nada a fazer a não ser dar o troco. “E o que você acha que aconteceu? Se conseguir me convencer com uma história absurda, a bebida é sua com um desconto de cinquenta por centro. Sai pelo preço original.” Sussurrou a última parte, como se contasse um segredo. “Boa sorte. Não pode ser algo que eu já ouvi hoje e também não vale chorar e se desesperar. Isso aqui não é Hollywood não.”
Sabia que seus irmãos demorariam para sair da rua, estavam entretidos com amigos ou com a própria confusão que se instaurara no ambiente. Voltar para a casa escura não parecia mais a melhor opção, logo a morena pensara que adentrar o primeiro estabelecimento com um gerador seria o mais confortável a se fazer. Arrumando o casaco que lhe protegia do frio, Harley fez o caminho até o balcão, sentando-se em uma das cadeiras não demora para ver a figura de Jesse, torcendo o nariz para o comentário deste. “Na realidade dá pra ver a fumaça e uma parte do ônibus daqui então nem precisa de um relatório pra ligar os pontos.”
“É, o cheiro também ajuda um pouco.” Concordou, passando a limpar os copos sujos do balcão. “Vai pedir alguma coisa, Norwood? Get some blood flowing, uh?” Sorriu, provocativo. Lembrava-se muito bem do dia em que se conheceram: o dono do bar tentava separar a mulher de um bêbado qualquer que tinha a incomodado. A vontade de Jesse naquela noite era deixar com que ela acabasse com o velho, mas, infelizmente, ele tinha um policial usando o banheiro do estabelecimento. Deixar que ele encontrasse uma briga não era exatamente a melhor escolha. “Hoje ‘tá cheio de babaca, dá pra você escolher e ainda deixar os melhores para o final. Suit yourself.”
Entrou depressa no bar, tentando evitar o clima gélido das ruas e procurando um lugar quente o suficiente para que pudesse se abrigar por aquela noite. Logo alcançou o balcão e pediu por uma cerveja, ignorando toda a confusão que acontecia do lado de fora do ambiente. Corpos estirados no chão lhe traziam uma lembrança nada agradável, e ela preferia esquecer. “ — Jess, aquele assento esta desocupado?” Apontou para poltrona no canto do bar, dando a entender que ficaria por tempo indeterminado. “ — Você não tem ideia do caos que esta la fora, é bem pior do que aparenta.” Passou os dedos pela testa massageando as têmporas, invejava os sortudos que conseguiriam chegar em casa naquela noite. Ela estava visivelmente cansada, os últimos dias no trabalho haviam sido cheios e estressantes, aquela cerveja era tudo que ela estava precisando no momento.
Arqueou as sobrancelhas para a mulher, logo depois de seguir a indicação dela e avistar a poltrona. “Você ‘tá zoando com a minha cara, Lana?” Respondeu com outra pergunta, estreitando o olhar. “Qualquer assento aqui está desocupado quando você consegue tomá-lo como seu. Ou pague para ter alguém tirado dele, mas deixemos isso para outra hora, sim? As coisas estão meio caóticas por aqui para eu organizar subornos.” Concluiu, o tom sarcástico explícito na voz. Observou a linguagem corporal da morena, entendendo que estava tão cansada quanto ele e que aquela situação não melhorava muito as coisas. “Acho que eu tenho um pouco de noção, sim. É quase como se eu já tivesse vivido algo do tipo antes...” Provocou, revirando os olhos. “Enfim, você parece tensa. Aceita uma massagem?” Ofereceu, claramente com segundas intenções.
assim que a mulher percebeu que de nada adiantaria se manter por ali, helena entrou em um dos ambientes que parecia ser pouco iluminado com um gerador, um ótimo lugar para tentar entender o que acontecia e ainda tomar uma cerveja enquanto fazia sua filha dormir já que a pequena carregava olhos pesados e dava bocejos contados. se sentou próxima ao balcão e pediu a bebida para o homem enquanto posicionava charlotte dentro do carrinho que lhe pertencia e lhe dava de mamar. ‘entendo.’ respondeu pegando a bebida e o agradecendo com um sorriso. ‘estava lá fora e está muito confuso, melhor ficar aqui mesmo, ainda mais pelo gerador, sabe?’
A mulher era insana por entrado naquele bar com uma criança, disso Jesse tinha a mais absoluta certeza. Não tentou nem esconder o olhar de julgamento enquanto preparava a bebida e na clara hesitação ao entregá-la para a morena. Assentiu para a explicação dela, mordendo o lábio inferior para não deixar um riso de escárnio escapar. “Sim, claro. O gerador está uma merda, na verdade, não sei se ele aguenta a noite toda. Espero que até acabar todo mundo já esteja bêbado demais para se importar. Eu ia odiar ter que acender velas. Ninguém precisa de mais uma coisa pegando fogo hoje, certo?”
Ao ouvir os gritos e as sirenes vindo no lado de do bar, a primeira coisa que Maeve fez foi sair de perto do balcão no qual estava, indo em direção à uma janela, na intenção de ver melhor o ocorrido. Havia fogo, carros de polícia e aparentemente um corpo. Sim, a certeza de que havia uma pessoa morta em meio ao tumulto era quase positiva. Depois de sua dúvida ser realmente confirmada, Maeve voltou para o balcão, pegando a bebida com uma das mãos e a bebendo em um único gole. “É melhor não. Aqui está mais tranquilo, por incrível que pareça.” Ela deu de ombros. “Eu posso te atualizar… Havia um ônibus em chamas e um homem morto.”
“Tranquilo?” Arqueou as sobrancelhas, olhando em volta do próprio estabelecimento. “Isso aqui tá um caos, Graham, um caos. Eu honestamente prefiro a média de sete brigas por noite que a gente tem nos fins de semana. Desespero não se cura com a porra de um shot.” Passou a mão pelo rosto, bufando. Não bastasse a porcaria da mão quebrada servindo como uma lembrança, agora também tinha que lidar com memórias. Tudo graças ao filho da puta que tinha decidido colocar fogo em um ônibus. “É, eu ouvi falar... Não é como se fosse o top #1 de assuntos comentados na última hora.” Revirou os olhos, olhando para a bebida que ela tomava. "Você conhecia o cara?”
A noite que já havia começado com um apagão geral na região agora também contava com gritos e sirenes policiais, a situação toda era um tanto quando improvável. Mas nada é improvável demais para aquele canto de Chicago. A confusão se estendia para dentro do lugar, abarrotado de pessoas em busca da luz provida pelo gerador. “Quem passa noticias melhores do que um bando de bêbados, não é mesmo?” falou com um meio sorriso, dirigindo seus olhos ao loiro enquanto limpava um copo. “Parece que colocaram fogo num ônibus…” ou ao menos era isso que ela tinha ouvido do homem no final do balcão. “E no motorista”.
Jesse riu, atraindo olhares desaprovadores de algumas pessoas, o que não podia ter tido um efeito menor no humor do homem. Assentiu veementemente, despejando vodka no próximo copo limpo. “Hey, eu te ensinei bem.” Arqueou as sobrancelhas ao fazer a brincadeira. Mudou o peso de um pé para o outro, levemente desconfortável. “Yeah... Deu pra ver o ônibus desgovernado descendo da janela... Acho que você estava lá atrás ainda.” Comentou, fazendo com o que o copo deslizasse pela madeira até ela. “Pode beber essa por conta da casa. Vai ser uma noite longa pra você também, blondie.”
O frio começou a ficar insuportável demais no lado de fora, por mais que estivesse agasalhado, a escuridão parecia deixar tudo ainda mais gélido. E a sua garrafa de vinho estava vazia, de qualquer maneira. Por este motivo, foi se abrigar num local onde as suas visitas já eram frequentes e, por sorte do destino, também tinha um gerador funcionando. E álcool, ele precisava de álcool. ❝ É, bem, está um caos total lá fora, eu não ia perder de ver de perto, você sabe. De todo jeito eu lucro com isso. ❞ deu de ombros, alcançando a bebida que havia sido colocada sobre o balcão antes de notar a mão quebrada do loiro. ❝ Ih. Por acaso a sua mão escorregou na cara de alguém? ❞ perguntou, arqueando uma das sobrancelhas. E então ele se deu conta. Kaleb se deu conta do por quê o outro não estava tão interessado em saber sobre o atentado. E em como o incidente que havia acontecido na frente daquele mesmo bar no início do ano havia levantado tantas reações semelhantes. ❝ Não perde nada ficando aqui dentro, sério. You okay? Porque eu posso colocar ABBA pra tocar, é comprovadamente impossível ficar desanimado escutando ABBA. ❞
“Porra, cara, isso é terrível.” Disse, em meio a uma risada baixa. “A sua sorte é que eu gosto e que a sua carinha é linda demais pra alguém vir aqui acabar com ela.” Completou, balançando a cabeça. “Caos total está aqui dentro. Eu prefiro separar um milhão de brigas do que aguentar mais uma pessoa entrando aqui em prantos. Esse é mais o seu departamento, que merda. Oh, this?” Perguntou, indicando a própria mão com o olhar. Tentou não deixar a seriedade da expressão se manter por muito tempo, mas não conseguiu. Ela já havia tomado o espaço da conversa. “Você me conhece, sou desastrado.” Respondeu, dando de ombros. Suspirou, abaixando a cabeça e fechando os olhos por alguns instantes. Concentrou-se no ar entrando e saindo de seu corpo, a mão boa se fechando contra a madeira do balcão. “Eu ‘tô legal, man. Só estressado com esse caos e com vontade de ir lá em cima destruir esse caralho de gerador no soco. Já estou com uma mão fodida mesmo, não vai ter problema se eu fizer uma segunda visita ao hospital essa semana.” Riu, sem muito humor. Por fim, levantou a cabeça, olhando diretamente para o outro. “Quer saber? Pode colocar pra tocar. Mas eu só deixo se for Dancing Queen em um loop infinito. É pegar ou largar.”
Antes de toda confusão começar, seu intuito era ajudar o irmão no bar visto que naquela noite não tinha nenhuma luta programada. Infelizmente o atrasado em sua reunião lhe fez pegar todo o problema com o ônibus e com isso desistir de ir para o Route 66 e sim encaminhar-se para um destino que já conhecia muito bem. Como já era de se esperar, o local ainda tinha luz, mesmo que um pouco fraca, e não era preciso chegar muito perto do clientes para saber qual era o assunto da noite. Seus olhos focaram no dono do bar e no momento que serviu uma bebida para um cliente e decidiu se aproximar, sentando em um dos bancos. “Nem vai perder muita coisa, apenas um ônibus caindo aos pedaços e um corpo preto feito carvão.” Trinity nunca foi muito conhecida pelo tato ao falar dos mortos. “Será que eu posso ganhar uma daquela ali também?” Perguntou apontando com a cabeça para a bebida servida antes.
Jesse soltou um riso abafado ao ouvir a mulher. Sempre tivera uma certa inclinação a encontrar o humor, principalmente humor negro, em qualquer situação. Balançou a cabeça em negação, fingindo estar decepcionado com a falta de delicadeza da Kavinsky. Nem ao menos colocou esforço na interpretação; o sorriso de canto em seus lábios denunciava isso. “Foi mais ou menos o que eu ouvi também. A única pergunta que ninguém fez ou conseguiu responder foi que tipo de animal fez essa barbaridade.” Virou-se de costas para pegar mais um copo na prateleira atrás de si. “Um mamífero ou uma ave?” Perguntou, mais para si mesmo, aproveitando que estava de costas para lançar um olhar para a própria mão machucada, resultado do crime da última semana. Quando se virou novamente para Trinity, porém, a expressão já havia sumido de seu rosto. O Hiscocks umedeceu os lábios e olhou em volta, assegurando-se de que ninguém prestava atenção nos dois. “Depende, senhorita.” Respondeu, inclinando o corpo por cima do balcão até que seu rosto estivesse a meros centímetros do dela. “Você vai pagar?” Sussurrou.
Os gritos e as sirenes ouvidos pelo dono do bar mereceram sua atenção por poucos segundos quando começaram. Agora, quase meia hora depois da chegada da polícia, ainda conseguia ouvir o tumulto lá fora e também dentro do bar, já que eram um dos únicos estabelecimentos próximos com um gerador. Um gerador de merda, mas ainda assim. Balançou a cabeça em negação e fechou os olhos com força, tentando bloquear o burburinho que lhe lembrava aquela noite agitada no começo do ano. Terminou de preparar a bebida e a colocou no balcão com uma das mãos — a outra estava quebrada. “Eu nem vou me incomodar em ir lá fora, sabe. É só ouvir qualquer conversa aqui dentro por, sei lá, dois minutos que você consegue o relatório completo.”
don’t forgive the murderer, father, the victims never sinned ( flashback, february 2018 )
“E, semelhantemente, também os homens, deixando o uso natural da mulher, se inflamaram em sua sensualidade uns para com os outros, homens com homens, cometendo torpeza e recebendo em si mesmos a recompensa que convinha ao seu erro. E, como eles não se importaram de ter conhecimento de Deus, assim Deus os entregou a um sentimento perverso, para fazerem coisas que não convém; Estando cheios de toda a iniquidade, fornicação, malícia, avareza, maldade; cheios de inveja, homicídio, contenda, engano, malignidade. Sendo murmuradores, detratores, aborrecedores de Deus, injuriadores, soberbos, presunçosos, inventores de males, desobedientes aos pais e às mães; Néscios, infiéis nos contratos, sem afeição natural, irreconciliáveis, sem misericórdia; Os quais, conhecendo o juízo de Deus (que são dignos de morte os que tais coisas praticam), não somente as fazem, mas também consentem aos que as fazem.” (Romanos 1:27-32)
Uma vez por mês, Jesse dava festas no Wild Horse Bar. Festas que levavam o mês inteiro para serem preparadas e que eram uma tradição de anos no estabelecimento. Havia a contratação de um DJ, funcionários temporários, equipe de iluminação e decoração. Tudo era programado para a extrema satisfação dos clientes e convidados que já haviam se acostumado com o nível das noites, portanto tinham a expectativa altíssima. Festas que eram sempre um sucesso, não importava o que acontecesse. Afinal, o dono do local sempre improvisava uma solução, porque nada podia dar errado na melhor noite do mês. Era sempre assim, o homem até se acostumara. Não sabia o motivo, mas não estava tão animado naquele mês. Talvez o tema estivesse muito batido, talvez as coisas dessem errado de um jeito que não daria para consertar. Talvez não fosse mais original, pensava ser o problema. “Fuck it”, pensou. “Eu penso nisso da próxima vez.” Por agora, era melhor se concentrar no que aconteceria naquela noite.
Tudo estava indo como o esperado. Música, diversão, bebidas, danças. Dessa vez, conseguiu observar um número muito maior de amigos seus ali, chegou até a perder a conta. Como organizador, comprometia-se a não beber e sempre ficar de olhos abertos. Mesmo assim, tinha a sua diversão. Quase esqueceu de seu mau pressentimento sobre aquela noite. Nunca se considerara uma pessoa sensitiva ou com qualquer coisa ligada à espiritualidade e muito menos religião. Por isso, quase ignorou aquele sentimento por completo. Quase. Conseguiu ignorá-lo quando recebeu uma mensagem dos pais, dizendo que compareceriam na festa. Quando os pais não chegaram? Também conseguiu ignorar tudo aquilo, dizer para si mesmo que não era nada. Jesse podia parecer um monstro sem coração, mas se importava muito com os pais, talvez as únicas pessoas que realmente amara durante sua vida toda. Mas, foi impossível ignorar o sentimento quando a primeira leva de adolescentes que deixava a festa voltou para dentro mais rápido que jamais visto antes. Algumas garotas vomitavam. Outras choravam nos braços de amigos ou namorados. Todos pareciam chocados. O sentimento de agonia que o loiro sentira a noite toda? Ele estava lá, mais forte do que nunca. O que quer que tivesse acontecido, ainda estava lá fora.
Jesse e seus seguranças lutaram para ultrapassar a barreira de convidados que já observavam a cena que assustara os primeiros. Um dos seguranças chegou primeiro e tentou alertar o chefe. “Senhor, não é uma cena bonita. Seus pais…” As duas últimas palavras fizeram aquele sentimento de antes explodir dentro de si ao ponto de fazer todo o ar ser puxado de seus pulmões. Empurrou o funcionário para o lado com força, obrigando-se a entender o que via. Não. Não, não, não, não. Não queria entender, não queria enxergar. Não queria olhar para aquilo, não queria aquela imagem em sua cabeça para sempre. Mas não conseguia desviar o olhar. Todos ali reconheceriam os dois corpos jogados no chão como dois bonecos. Se não por serem clientes antigos do bar e conhecerem os antigos donos, pelas fotos que haviam espalhadas pelo local. Todos ali sabiam quem eram Jacob e Adam Hiscocks. Todos ali sabiam quem eram os pais do atual dono do local, os pais de Jesse.
Os dois homens estavam em situações parecidas. Ambos mortos, com cortes profundos e olhos abertos. Não havia poças de sangue em lugar algum, era como se os corpos tivessem sido drenados. Os únicos traços do líquido vermelho estavam nas camisetas brancas que as vítimas usavam. Não eram manchas de sangue que estampavam o vestuário. Eram linhas. Palavras. Em ambas as camisetas, podia facilmente ser lido o que estava escrito. Romanos 1:27-32. E, mesmo não sendo religioso, Jesse sabia o que aquilo significava. São dignos de morte os que tais coisas praticam. Seus olhos ardiam com lágrimas, por raiva. Seu corpo inteiro tremia, por ódio. Seu coração se apertava, por pura e maciça dor. Sem desviar o olhar da cena, usou uma das mão para puxar o segurança para mais perto de si. “I want everyone out. Even you. Party’s over.” Anunciou, atravessando o mar de pessoas e ignorando tudo o que lhe era dito. Tudo o que fez foi ligar sua moto e arrancar daquele lugar em uma velocidade inexplicável.
Não se importou com as pessoas chamando seu nome, não se importou com os corpos deixados ali, na rua, para todos darem uma olhada. Tudo o que importava era sua própria raiva e sua própria dor. Esperava que elas desaparecessem assim que parasse, porque a cada segundo elas tomavam mais espaço dentro de si. O apartamento dos pais era um borrão aos seus olhos. Não soube quando desferiu o primeiro soco e não soube depois de quanto tempo parou. Só descobriu que gritou durante aquele tempo todo porque sentiu a garganta extremamente irritada. Olhou para suas mãos, encharcadas de sangue. Para os nós de seus dedos machucados e doloridos. E então se lembrou.
Lembrou-se dos corpos sem vida dos dois homens que foram colocados na frente de seu próprio estabelecimento. Soco. Dois homens que se amavam. Soco. Dois homens casados. Soco. Dois homens importantes.Soco. Dois homens que eram seus pais. Soco. Dois homens que pagaram o preço de ser quem eram. Soco. Dois homens que cometeram o crime de amar. Soco. O vermelho sangue havia criado uma pintura nos arredores e na parede.
Levantou-se e, conforme saía da casa, escondeu o rosto com seu capuz e guiou a moto até se aproximar de seu bar. Os corpos não estavam mais lá, apenas alguns curiosos e fitas amarelas da polícia. Não quis enfrentar tudo aquilo. Escondeu a moto entre as sombras da noite e entrou pelos fundos, logo subindo as escadas que levavam ao depósito. Só então, deixou que o rosto fosse banhado por lágrimas que, conforme eram limpadas, misturavam-se com o sangue em suas mãos. Seu sangue. O próximo passo seria tomar um banho e decidir o que fazer. A decisão levou dias. Dias que passou com as portas do bar trancadas, preso dentro de si. Sem amigos, sem conversas, sem nada. Não se importava com a preocupação dos outros. Era errado, mas não se importava.
A venda das instalações antigas do Wild Horse Bar rendeu pouco dinheiro ao Hiscocks, apenas o suficiente para um sobrado abandonado próximo ao The Rabbit Hole e para a reconstrução sem nenhum tipo de zelo e importância do bar. Ele se mudou para a parte de cima do sobrado, os pertences que tinha jogados de qualquer forma nos cômodos sujos e escuros. Não tinha problema porque nada mais era importante. Não tinha mais um significado. Nada mais importava porque, depois daquela noite de festa, Jesse tinha duas perdas para carregar.