[Flashback]: Get out of my way;
Personagens: @eas-aki + @eas-twisted Classificação: Livre Local: Biblioteca; Yonsei. Observações: LOG privada.
A semana de provas se aproximava e com isso até mesmo alguém como Kenji se apressava para aprender o conteúdo e tirar boas notas. Fazia pouco mais de um ano que havia se mudado e começado o - não tão sonhado - curso de arquitetura, o que levava sua família ainda pressionar quanto a notas, desempenho e comportamento. Não era segredo para ninguém que ele foi mandado para a Coréia em busca de uma nova vida, um recomeço depois dos problemas com drogas e a depressão, sendo assim, era comum que sua mãe ligasse para o colégio e perguntasse coisas sobre ele mesmo estando na França. Isso o irritava profundamente, era um adulto e ser controlado dessa forma pela família lhe parecia um erro inconcebível que ele não podia lutar contra. Afinal, se não fosse pelo dinheiro fornecido pela mãe, passaria por péssimas condições e acabaria se afundando em um caminho sem volta.
Ele fazia questão de sentar-se em uma mesa separada dos outros que estudavam em grupo, já que, além de não conseguir se concentrar com pessoas muito próximas e falando, ele não tinha amizade com ninguém ali além daquele que o abrigou antes de entrar para a Yonsei. Sua dificuldade gerada pela timidez o fazia travar quando posto em uma situação em que teria de falar com um total estranho, levando-o a ser grosso e gerando a fama que o consumia e afastava mais ainda do corpo discente da instituição. Apesar de desconfortável, estava acostumado a ficar sozinho e por isso não fazia mais questão de falar com as pessoas.
Acabou por distrair-se em seus pensamentos. Sua mente estava exausta dos estudos e por isso começou a divagar escrevendo frases aleatórias de poesias lidas quando mais novo, partituras de piano que nunca esqueceria e desenhando alguns projetos da casa dos seus sonhos. Ultimamente vinha obcecado com aquele esboço de planta que planejava mas não conseguia terminar, faltava algo seu, um toque especial da sua personalidade que ele não sabia como dar. Olhou para os lados de forma demorada, procurando algo naquela estrutura que o fizesse ter uma ideia e acabou batendo os olhos em uma estante um pouco afastada da sessão de arquitetura. Nela estavam os livros para estudo de biologia marinha, algo que nunca se importou em aprender e quando ensinado demonstrava interesse nulo.
Entediado com a falta de criatividade repentina e sem nenhuma vontade de voltar a estudar a matéria devida, se levantou e foi em direção à sessão não explorada. Era assim que o japonês adquiria tanto conhecimento em diversas áreas; motivado pela falta do que fazer e de amigos. Sabia que seria mais um amontoado de cultura inútil em sua mente mas não se importava, aprendeu ainda novo que era muito melhor ter informações inutilizadas em sua mente do que mantê-la vazia e sua sabedoria talvez fosse sua qualidade mais escondida do mundo. Chegando ao seu destino, vislumbrou títulos e folheou livros com cores chamativas até deparar-se com um animal que, em sua concepção, parecia fantástico; o polvo, descrito como o animal invertebrado mais inteligente do planeta chamou sua atenção pelas características de relação com os outros de sua espécie e levou-o à recolher um amontoado de livros sobre estudos daqueles animais.
Caminhava de volta para seu lugar de origem, totalmente focado nos livros ainda dispostos nas estantes para ver se mais algum abordava o assunto escolhido e isso fez com que percebesse a figura robusta que virava o corredor. Dificilmente alguém ultrapassava seus 185 centímetros mas aquele homem parecia ser três vezes maior que si, ainda mais quando visto do chão que era onde Kenji se encontrava recolhendo os livros que caíram depois da colisão.
— Não fica na minha frente do nada. — Sabia que a culpa tinha sido totalmente sua, a natureza distraída e estabanada que tinha sempre o colocava naquele tipo de situação mas não se permitiria pedir desculpa pelo acidente; Kenji nunca pedia desculpa. — Devia olhar por onde anda.
Tendo recolhido tudo que foi ao chão, ele se pôs de pé novamente e irritado encarou o homem tatuado esperando um pedido de desculpas. Mesmo de pé ainda tinha que inclinar o queixo para olhá-lo devidamente e isso dava à ele uma pose estranhamente frágil naquela situação.
Poucas semanas do início de Akira em Seoul. Ele já havia se reconectado com a parte coreana de amigos que tinha, mas não era lá uma boa influência. O japonês nunca fez questão de ter muitos amigos e as tatuagens desde o pescoço até a cintura faziam todo o trabalho para ele de afugentar os que se aproximavam. Se fosse para ter amigos decentes e que sequer fumavam, ele preferia nem ter. Tinha de ligar para os pais duas ou três vezes por semana, naquele começo. E foi o que fazia em seu horário de almoço. Começou como um bom aluno, estudando, frequentando as aulas.
Foi em direção à biblioteca, com a camisa do uniforme, o blazer, mas calças rasgadas e a gravata solta. Estava distraído ouvindo música alto no fone de ouvido quando notou algo esbarrando em seu corpo e caindo direto no chão. O olhar de Akira seguiu para o corpo estirado que recolhia os livros. Nem sequer fez questão de se mover. Apenas pausou a música, retirou os fones e olhou para o rapaz no chão que tentou intimidá-lo. Akira riu. O riso pareceu debochado, como quem dizia: some daqui ou eu te arrebento. Notou que os livros talvez acabassem condizendo com seus próprios estudos.
O olhar buscou o do rapaz uma vez que ele tivesse se erguido. Buscou um dos livros das mãos dele e agradeceu com um aceno de cabeça. O riso debochado se transformou num sorriso de mesmo cunho e o homem respondeu a Kenji.
— Provavelmente você não sabe quem eu sou. Se eu não olhei pra frente é porque você não me pareceu importante o suficiente para desviar. E se está incomodado, podemos resolver isso fora do horário letivo na esquina do colégio. Garanto que vai se arrepender. Me chamo Akira, lembre-se bem desse nome porque vai precisar repetir ele muitas vezes.
Empurrou-o com uma das mãos, mas, antes de sair de perto de Kenji de fato, Akira parou ao lado dele e o tom de voz soou um pouco mais ameaçador, dessa vez, a mão apertando o ombro dele em que se apoiava.
— E se eu fosse você, kouhai, tomaria muito cuidado ao andar pela Yonsei e pela cidade. Não vai querer esbarrar comigo de novo. Muito menos ficar parado no meu caminho esperando levar porrada. — Assim que terminou, piscou para o mais novo e seguiu seu caminho, esbarrando no ombro dele propositalmente.
Foi embora com o livro do rapaz em mãos, folheando-o para ver se havia algo que lhe interessava de fato. Ao perceber que ali não tinha nada para si, deixou-o em uma mesa e foi atrás da seção de biologia marinha. Buscou dois ou três livros sobre reprodução e sobre anêmonas e sentou-se numa mesa mais para o canto. De longe, ainda podia ver Kenji onde ele estava. Com um sorriso no rosto, Akira percebeu que aquele garoto tinha muito a lhe oferecer e que provavelmente implicaria com ele até que ele aceitasse de fato a relação entre os dois.
O olhar do japonês mais velho foi e voltou sobre o corpo de Kenji algumas vezes. Na mesma hora puxou um novato que passava por ali e perguntou sobre o outro garoto, qual era seu nome e quem ele era de fato. Descobriu ser Kenji, o sobrenome não importava. Ele descobriria com o tempo, com certeza. Em sua cabeça, só uma coisa ecoou. "Kenji, eu vou fazer você ser meu. Implorar pelo meu nome e pelos meus toques. E aí sim você vai estar em seu lugar novamente. Vou descobrir quem você é, aguarde." - E por fim, sossegou-se com seus livros.















