Chegar a um consenso a cerca do tema educação não é tarefa fácil.
Quando paramos para pensar no assunto, percebemos o quanto é vasto o campo de estudo nessa área, quantas possíveis falas podemos usar para atender o objetivo de explicar e conceituar o termo.
Nem sempre conceituar uma palavra nos permite a sua real compreensão. Os questionamentos sempre ficam em suspenso. As diferentes visões estão em constante debate.
Mesmo assim, o desafio foi lançado e aqui estou na tentativa de vencê-lo.
A partir deste questionamento tentarei expor as minhas ideias a cerca deste tema, tão amplamente discutido por diferentes autores ao longo dos anos.
Vários são os caminhos para chegarmos a uma resposta satisfatória. Várias são as formas de respondermos a esse questionamento.
Todos são amplos e complexos. Todos os caminhos se encontram na tentativa de entendermos a educação e a prática educativa.
A educação pode ser entendida de muitas maneiras. Ela é sinônimo de instrução e de ensino. Também de polidez e de cortesia.
Este texto tratará do assunto a partir dos dois primeiros significados. Ambos serão ampliados e problematizados, uma vez que ensinar é uma tarefa bastante complexa.
Conforme Gadotti, “a educação é essencialmente ato.”
Portanto, educar é agir. Para que possamos realmente educar precisamos colocar em prática várias ideias e conceitos discutidos em outros momentos e por outras pessoas.
Para que possamos colocar esses conceitos em prática, precisamos nos apropriar deles, dar significado às informações recebidas, relacioná-las com o nosso mundo, para então, termos condições de atuar como educadores no sentido aqui exposto.
A relação educação e escola é recente na história da humanidade. Ela começa a ser reforçada no final do século XVII e início do século XVIII.
“entre os séculos XVI e XVII, os escolares eram vistos como soldados, criados, mendigos, escória e até mesmo vagabundos. Os educadores lutaram para transformar essa visão e desenvolveram a noção de que a criança bem educada era a que frequentava a escola. Era na escola que seriam desenvolvidos a disciplina e os conteúdos necessários para uma ‘boa educação’.”
Essas ideias fundamentam a visão que temos a cerca da educação a partir dos séculos XIX e XX. Muitos ainda entendemos como dever continuar desenvolvendo os conteúdos e conhecimentos que foram esquematizados historicamente nas nossas escolas.
È sabido que devemos ir além dos conteúdos, mas acredito que trabalharmos sobre essas descobertas realizadas ao longo dos anos é papel fundamental da educação escolar. Atualizá-los, problematizá-los, relacioná-los com o mundo e com a realidade local também é de fundamental importância.
Desenvolver conteúdos específicos não é trabalhar empobrecidamente, como muitos educadores parecem compreender. As habilidades e competências, tão aclamadas nos dias atuais, só tem sentido se forem relacionadas aos conteúdos das diferentes áreas do conhecimento.
Segundo Paulo Freire, “devemos entender que o conhecimento dos conteúdos nos auxilia na nossa intervenção no mundo”.
A escola que temos hoje está organizada por disciplinas. Mudar esse formato será parte de algo muito maior: da mudança da escola enquanto instituição.
Assim como outras instituições, a escola está em crise e passa por um processo de desgaste. Nós, professores, vivenciamos esses conflitos, nos desgastamos e discutimos muito para tentarmos nos adaptar a algumas mudanças já estabelecidas. Somos resistentes à mudança pela mudança. Queremos encontrar e dar sentido às transformações as quais estamos vivenciando, e porque não dizer, proporcionando.
Não vem de hoje a intenção de se neutralizar a educação e o ensino. Nos formamos professores a partir dessa ideologia.
Após diferentes leituras e vivências podemos posicionar-nos contrários a esse pensamento dominante. Problematizar o ato educativo é uma prática contemporânea necessária.
O educador atual precisa, conforme texto de Gadotti,
“... identificar educar com conscientizar, com decifrar o mundo, algo que é dificultado pela ideologia... acreditar que (educar) é ir além das aparências”.
Paulo Freire complementa essa ideia em seu livro Pedagogia da Autonomia, escrevendo que “educar pressupõe um conjunto de ideais e objetivos que apontam um determinado modelo de ser humano. Por isso toda educação é política”.
“... não podemos reduzir a educação às suas ligações com o sistema... O ato educativo guarda algo original que não pode ser destruído nem reduzido pela ideologia... A educação pode escapar a ideologia...Sempre fica um espaço livre que o educador deve alargar em busca da libertação.”
As relações de poder que existem dentro da escola irão reproduzir as ideologias dominantes ou apontarão novas possibilidades, dependendo de quem está trabalhando com a educação.
E aí entra o papel fundamental do educador e de sua visão a cerca da educação.
“O que se coloca à educadora ou ao educador democrático, consciente da impossibilidade da neutralidade da educação, é forjar em si um saber especial, que jamais deve abandonar, saber que motiva sua luta: se a educação não pode tudo, alguma coisa fundamental a educação pode. Se a educação não é a chave das transformações sociais, não é também simplesmente reprodutora da ideologia dominante.” (Paulo Freire)
O educador que trabalha em escolas públicas de periferia, quase que inconscientemente, acredita no poder de transformação da educação. Estamos ali com esse intuito. Sabemos que faremos a diferença, ao menos para parte daquela população.
Através do contato com diferentes autores, esse inconsciente começa a tornar-se consciência. Começamos a lutar por aqueles indivíduos usando diferentes ferramentas.
Cada grupo de professores lança mão das suas armas. Alguns usarão a amorosidade, outros a tolerância, a humildade, o gosto pela alegria e pela vida. Um grupo se concentra na ideia de que esse conjunto de virtudes, apontados por Paulo Freire, só farão diferença na vida dos alunos se vierem recheados dos conteúdos, os quais serão fundamentais para que esses possam construir a sua visão de mundo, e nele intervir.
Faço parte do grupo que defende as “virtudes freirianas” associadas ao desenvolvimento dos conteúdos.
Tenho noção de que a educação não está apenas na escola. Ela está presente em vários segmentos da vida social.
A aprendizagem não formal acontece em quase todos os momentos da nossa vida e nos diferentes espaços que ocupamos na sociedade.
Por isso acredito na escola e na educação escolar como fundamentais para ampliarmos a visão de mundo dos nossos alunos. Esse é o meio pelo qual podemos questionar o senso-comum e elaborar questionamentos em relação às aprendizagens não escolares.
Não estou dizendo que estas aprendizagens são inferiores. Por muitas vezes são ricas e complexas. Muitas pessoas aprendem muito sem nunca ter frequentado a escola. Tudo está ligado à educação, à instrução, às diferentes aprendizagens ao longo da vida. Portanto, “educar é tudo...”.
Acredito ser fundamental propor que pensemos sobre este jargão que nos diz que “educar é tudo...” - ainda me recordo, assim como muitos de nós, da melodia dessa campanha.
Muitas vezes, o que aprendemos fora da escola vem com uma carga ideológica fortíssima. Aprendemos os preconceitos raciais, religiosos e econômicos, aprendemos sobre a “natureza” das diferenças socioeconômicas, entre outros tantos exemplos.
É na escola que podemos, e devemos, fazer uma nova leitura dessas aprendizagens não escolares. E é a partir dos conteúdos que podemos fazer as pontes para desconstruirmos algumas verdades pré-estabelecidas sócio historicamente, e que, quase sempre, são verdades relativas.
Complementando a frase divulgada um tempo atrás por diferentes meios de comunicação de massa, “educar é tudo pra melhorar o mundo que a gente tem”.
Então, vamos usar a educação a favor das transformações em busca de melhorar o mundo que se tem.
Para isso, vamos permitir que nossos alunos deem sentido ao mundo através do conhecimento formal e de uma visão crítica e democrática a cerca da(s) realidade(s). Vamos permitir que eles sejam capazes de identificar quais virtudes serão necessárias para que o mundo se torne um lugar melhor para se viver. Que eles tenham condições reais de “construir suas pontes”, ligando os conteúdos desenvolvidos com a realidade. Que seus conhecimentos não formais sejam ampliados através do contato, possível a partir da educação escolar, com diferentes mundos, diferentes contextos históricos e sociais.
Desta forma estaremos, enquanto educadores, contribuindo para uma possível intervenção no mundo. Estaremos permitindo a libertação dos cidadãos – nossos alunos- em relação a ideologia dominante.
Mas esta é apenas uma visão, uma das maneiras de responder ao questionamento e ao desafio propostos no início do texto.
A busca constante de uma resposta esclarecedora sobre educação é atual porque é sempre inconclusa, momentânea, relativa, parcial... porém, nunca é neutra. Assim como a própria educação.
Autora: Tatiana Wasum professora do IEE São Jeronimo.
Referências Bibliográficas:
ARIÉS, Philippe. História Social da criança e da família. Rio de Janeiro: Zahar, 1978.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários á prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.
GADOTTI, Moacir. Educação e Poder: Introdução à Pedagogia do Conflito – Filosofia, ideologia e educação. (não consegui completar por falta de informação).