Não simpatizem comigo, por favor. Se vocês me conhecessem pessoalmente provavelmente não iriam com a minha cara que, além de azeda, é meio amassada. Não prestem culto às pessoas de uma maneira geral. Os seus artistas prediletos, por exemplo. Gostem deles, mas não os idolatrem. Em algumas religiões, idolatria é pecado. Não cultuem a ninguém. Seus ídolos estão lhes sacaneando, sabiam? Eu sei disso. Por que eu sei? Bem, isso eu não posso contar. Eu simplesmente sei. Não posso falar nada sobre este assunto, pois tenho um contrato aí proibindo-me que eu entre nos detalhes. Então apenas acreditem. Já estamos tão acostumados a acreditarmos em tudo, não? Não estamos? Claro que sim. Nem pedimos prova nenhuma. É só nos aparecerem com um qualquer coisa aí que logo acreditamos. Acreditamos em tudo. Desde sempre foi assim. Acreditamos em Bicho Papão, em Papai Noel, em amores eternos; acreditamos que o escuro esconde coisas estranhas, que tudo vai se arranjar um dia, que teremos tempo para fazer de tudo nas nossas vidas, acreditamos na imprensa (e como acreditamos), acreditamos que o Louro José é um papagaio de verdade (senão ficaríamos putos da vida ao vermos os artistas globais interagindo e acariciando e beijando um pedaço de espuma verde, mas achamos normal: é por que acreditamos em tudo, ou não?); acreditamos no sistema trabalhista, no sistema das estrelas burras, nos sistemas de uma maneira geral, em fantasmas e afins, acreditamos em tudo e mais um pouco. Tudo bem, nada de errado nisso: somos seres crédulos. É isso que nos faz sonhar, concordo, mas é isso que nos faz sofrer também. Quem não acredita, não sofre. Eu acho isso. Posso não acreditar muito no que digo, já que não gosto de acreditar nem na cara azeda e amassada que sou obrigado a ver no espelho todos os dias, mas enfim, é isso que eu acho. Não simpatizem comigo. E lembrem-se, nossos ídolos estão nos ferrando, fazendo-nos acreditar que eles são, assim, dignos dessa idolatria toda, apenas para ganharem uns trocados a mais. Não acreditem em mim. Eu não sou acreditável. Podem acreditar nisso.