Ela tinha medo, não era drama. Por favor entenda, mulher não é enfeite pra sua cama. É onde você a deseja, mas até um beco serve, para que ninguém veja, o quanto o medo no sangue dela ferve. Sangue, derramado. Culpa de quem, desalmado? "Da mulher, mal amada." "Foi pra rua quase pelada!" Ora, veja que absurdo. "Ela pediu pra acontecer!" Foi também estuprada por um coletivo surdo, que do grito dela fez questão de esquecer. Esqueceu por "crer". Mas que crença é essa, baseada no que cada um quer ver, e que julga a vida como uma peça. Tipo peça de teatro, cada protagonista pro seu lado. Sua história é mais que lida, e determina seu direito à vida. "Olha as roupas." "Ela rouba." "Passa o rodo." "Vagabunda do povo." Vira dama pra respeito ter, bela, recatada e do lar. Deixa de lado o seu ser, só pro ar da vida respirar. Não precisa abrir a porta, nem sequer puxar a cadeira, só não queria ser morta, por negar sua "brincadeira". Outra crença equivocada, a roupa dela foi rasgada. Outra surra bem dada, "quem mandou não ficar calada." Mais uma vida retirada, ou outra alma atordoada. A pobre coitada foi estuprada, e o povo alienado não fez nada. Perseguida na rua, ou espancada em casa. A realidade nua e crua, estampada na cara. Mas ele conheceu a liberdade, ainda que da loucura fosse prisioneiro. Ninguém se importou com a verdade. Outro crime sorrateiro. Corro por mim. Grito por ela. Não me calo por nós. -Letícia Caroline