Hoje eu vi um vídeo do Lucas Pavanato (PL) falando que greve de funcionário público é vagabundagem, justamente hoje, em que acontece uma greve de professores em São Paulo.
Eu sou professora do Estado de São Paulo fazem 5 anos, e eu nunca vi uma situação de sucateamento tão grande para com os professores.
Então eu gostaria de pontuar o que é ser professor da rede pública estadual hoje.
Talvez o Lucas não saiba, mas muito provavelmente seja apenas mal caratismo, mas esse ano houve uma redução de 35% da carga horária de Ciências Humanas nas escolas, até o ensino fundamental foi afetado.
Muitos dos professores que eu conheço sequer conseguiram pegar aulas, eu consegui 12 aulas em 3 escolas diferentes.
Hoje em dia os professores formados em qualquer matéria de ciências humanas podem pegar outras matérias da mesma área da sua disciplina de formação, eu sou formada em Ciências Sociais, não me sinto habilitada para outras matérias, mas fui obrigada a pegar história e projeto de vida para não ficar desempregada. Eu preciso estudar muito mais para dar matérias que não é a minha de formação, dito isso, eu preciso de tempo para estudar, planejar as aulas, corrigir as atividades, etc.
Nós corremos o risco de termos nosso contrato extinto quando não atingimos a carga horária mínima de 20 aulas, então a maioria de nós passa o ano tentando atribuir novas aulas, seja elas quais forem, tendo domínio ou não.
Em 2023 fizemos um concurso público, com supostas 15 mil vagas, os professores de filosofia e sociologia nunca foram chamados.
Quando você é categoria O (professores contratados temporariamente, não concursados), você não tem direito a convênio médico, se suas aulas forem de substituição, qualquer falta, mesmo que justificada por atestado, leva a perda das suas aulas. Esse ano o Estado também não aceita atestado de teleconsultas ou convênios particulares, apenas do SUS.
Quando você participa da atribuição você tem a informação se as aulas que você está manifestando interesse são de substituição ou não, mas não sabemos qual o tipo de substituição ou data em que o professor titular volta, esse ano tinham pouquíssimas aulas de ciências humanas devido a redução da carga horária, e as que tinham era de substituição, ou seja, todas as minhas 12 aulas eram de substituição.
Existem os projetos da pasta como o PROATI (antigo PROATEC), nesse cargo, muito resumidamente, nós damos suporte a parte tecnológica da escola, como fazer controle de entrada e saída de equipamentos, resolução de alguns problemas com as máquinas e plataformas, etc.
São 20 aulas, como o projeto mudou, esse ano se você tiver aulas de manhã, mesmo que apenas 1, você obrigatoriamente assume o cargo no período da tarde, a carga horária também aumentou, são 25 horas referente as 20 aulas.
Devido a toda precarização eu estou fazendo transição de carreira e investindo em outra área profissional, o que implica na necessidade de tempo para estudar também.
Eu tinha 4 matérias diferentes para planejar aula, história para 6° anos, história para 7° anos, projeto de vida para 6° anos e sociologia para 2° Anos do ensino médio.
Eu queria fazer redução de escolas quando peguei o PROATI, inicialmente poderia abrir mão de 2 escolas para ficar em apenas 1, a que eu tinha as aulas de sociologia. Foi o que eu optei.
No primeiro dia após a atribuição do PROATI eu descobri que o professor titular das aulas de sociologia havia voltado, perdi minhas aulas, se não fosse o PROATI eu estaria apenas com 6 aulas. Imagina se eu não tivesse conseguido o projeto? Que por sinal foi extremamente burocrático, com prova, entrevista, e atribuição quase na metade do ano.
Pense em um professor que não tenha facilidade com tecnologia para poder pegar esse tipo de projeto, o que aconteceria com ele? Com um salário menor que um salário-mínimo?
Não Lucas, nem sempre, como você disse, o professor ganha acima da média da população.
Sem aula atribuída eu não poderia assumir o projeto, tive que correr nas outras duas escolas para manter as aulas que inicialmente eu tinha declinado, felizmente deu tempo, infelizmente continuo em 3 escolas.
Às quartas feiras eu trabalho 10 horas seguidas, na quinta 8 horas, os outros dias da semana tenho a manhã livre, menos segunda que faço o multiplica (curso que os professores são pressionados a fazer para aumentar pontuação e reduzir a quantidade de ATPC), o pouco tempo livre que tenho de manhã eu tenho que me organizar para estudar a nova carreira, planejar aulas, corrigir atividades, fazer meu tratamento de saúde mental (eu tenho sid de alguns transtornos e doenças mentais, que são em parte, agravados pela situação da minha carreira de professora).
A noite eu assumo a jornada dupla, cuidar da casa e da família.
O PROATI também não me permite adoecer, qualquer falta, ainda que justificada me faz perder o projeto, ou seja, não tive o direito de paralisar hoje, mesmo concordando com todas as pautas dos professores.
Eu quis declinar de 2 das 3 escolas não apenas porque é cansativo, por serem muitas matérias diferentes para planejar aula com a tarde toda ocupada pelo PROATI, por não sobrar tempo para estudar as matérias que me foram atribuídas, nem para a segunda carreira, nem para meu tratamento de saúde mental que inclui terapia e exercícios físicos. Mas também porque em uma das minhas turmas, eu simplesmente não consigo dar aula, os alunos falam o tempo todo, são desinteressados, não realizam as atividades, e tem um aluno em específico que claramente tem algum diagnóstico de transtorno ou doença mental, porém não tem laudo, a tutora é a avó, já de idade e sem conhecimento sobre essas questões, ela se recusa a dar os remédios do garoto, por dizer que são muitos. Ele vai para escola sem medicação, ou com a medicação incorreta, passa a mão nas alunas, principalmente as com outras deficiências, já tentou me dar um tapa na bunda, fica me agarrando e tentando me beijar o tempo todo, não consigo dar aula porque ele mexe nas minhas coisas e tem costume de surrupiar coisas de professores e alunos, ele não senta na própria carteira, fica o tempo todo em cima de mim e mexendo nas minhas coisas, o que me impede de conseguir dar aula ou sequer passar conteúdo na lousa, isso quando não apaga os textos que escrevo na lousa. Sem laudo, não existe sequer a possibilidade de ter uma cuidadora que me ajude com ele. Essa sala tem me adoecido um tanto.
Eu tentei argumentar com a minha diretora sobre a possibilidade de declinar dessa turma, ela disse que eu não estava querendo trabalhar e nesse caso não poderia declinar, apenas se os horários batessem com o do PROATI.
Eu avisei que uma das escolas, a de quinta feira, eu sairia muito próximo ao horário do PROATI na outra escola (durante esse tempo precisaria almoçar e considerar o translado, que não é tão longo, mas ainda exige tempo), ela me disse que não haveria problema, daríamos um jeito.
Na primeira quinta feira em que atrasei 10 minutos ela me cobrou que pedisse a escola que alterasse meus horários, eu disse que não tinha mais como mexer nos meus horários.
Eu tive que encaixar, com muita dificuldade o tempo de estudo, exercícios e terapia nas minhas manhãs livres, qualquer alteração seria uma perda significativa para mim. Eu já tinha, com muito pesar, aberto mão de uma oportunidade valiosa, um curso para minha segunda carreira, que precisaria ser no horário da tarde. Eu já tinha feito muitas concessões, minha rotina estava apertadíssima, puxada, para não ter que abrir mão também do meu tratamento de saúde mental.
Em momento algum ela me perguntou o que estava ocorrendo para que eu não pudesse mexer nos horários, me chamou na sala dela e me ofereceu 2 aulas de história para o ensino médio em outro dia e horário para eu poder declinar da escola que estava me fazendo atrasar. Eu tentei dizer que não podia, não só porque não tinha espaço na agenda e não podia renunciar a mais nenhum compromisso, mas também porque já tenho dificuldades com as aulas de história para o fundamental, imagine com o conteúdo para ensino médio, eu sequer saberia responder as perguntas dos alunos, não tenho domínio de história, minha área é sociologia. Ela não me deixou falar, gritou para todo mundo ouvir que eu era uma chata, que reclamava de tudo e ia acabar perdendo o PROATI. Foi muito constrangedor, eu nem consegui responder, apenas sai correndo de lá e não falei mais com ela.
Não é a primeira situação de assédio que eu sofro por parte de gestores autoritários, desumanos, grosseiros.
Eu não sou respeitada pelos alunos, nem pela gestão. Eu não tenho direito a adoecer, a falhar, a não ter minha rotina disponível 100% para escola, se eu adoeço não tenho convênio médico, não posso marcar um exame ou aderir a uma greve.
Eu não tenho nem um vislumbre de estabilidade, todo ano preciso participar de atribuição e mudar de escola, torcer para ter aulas disponíveis para mim, que essas aulas sejam livres e eu não corra o risco de perdê-las no meio do ano, eu não tenho seguro-desemprego, tenho que almoçar em 10 minutos ou durante o trabalho, quando meu contrato acaba fico meses sem salário e sem garantia de trabalho. Eu não sou valorizada, sou desrespeitada, fico adoecida psicologicamente, e meu salário é ridículo para toda a carga que eu carrego, eu não tenho carro, não posso pensar em financiar nada porque não tenho garantia que estarei empregada no ano seguinte, meu salário vai quase inteiro para pagar contas básicas como mercado, água, luz, internet e afins. Porque meu vale alimentação e transporte também é ridículo, e a partir de um certo salário nem vale temos.
Lucas Pavanato aprovou um aumento de 37% no seu próprio salário, enquanto foi contra a greve e a favor do reajuste do salário dos professores abaixo da inflação.
Realmente, do alto do seu privilégio fica fácil dizer que os professores são vagabundos. Para você meu problema é, como disse minha diretora, que eu não quero trabalhar, que eu sou chata e reclamona.
A verdade é que pessoas sem empatia não sabem se colocar no lugar do próximo, vocês não têm sensibilidade para compreender o que o professor está passando nesse momento, muitos sem aulas e os que tem aulas em situação precária, atuando em uma das profissões mais adoecedoras que existem.
Então eu tenho para mim, que os vagabundos de verdade, são os que não estão em sala de aula, recebendo seus altos salários as custas dos impostos dos trabalhadores, enquanto votam contra nossos direitos.












