“A cidade é feita de várias cidades, de diversos lugares que vão se inserindo nos interstícios do urbano, onde a vida, repleta de relações, se desenvolve”. (Hissa, 2006, p.86)
“(...) O homem exterioriza o ambiente como se dele não fosse feito. Como se ele próprio, não fosse o que, rotineiramente, produz e consome”. (Hissa, 2006, p.87)
Cidade: criação humana, espaço onde as pessoas também se transformam. Disputa de poderes, de representações, espaço que abriga as contradições, paradoxos, a morte e a vida. Do desejo de investigar outros caminhos e sentidos que permeiam a cidade, nasce o grupo Entrespaços. Enquanto os processos hegemônicos produzem espaços securitários, militarizados, blindados, racionais, planificados, espaços virtuais e centrais (Lopes, 2008); pesquisamos por meio das derivas, das experimentações, das andanças, da inserção corpórea e sensível nas cidades, seus entrespaços e interstícios. Pelas frestas e fronteiras buscamos espaços livres, sensíveis, imprevistos, reais, concretos e periféricos (Lopes, 2008).
Inicialmente não sabíamos o que era esse grupo, como seria nosso processo de trabalho, e ainda não sabemos muitas coisas... Mas, por meio do encontro de pessoas com trajetórias e histórias diferentes, da mistura de diversos anseios, o grupo tem se formado como um coletivo. Coletivo híbrido, que se dispôs a trabalhar com um desejo comum. Na busca por uma metodologia de trabalho mais horizontal, em que cada componente propõe uma experimentação acerca da cidade, da criação conjunta desses momentos, das conversas, reflexões, discussões, num work in process, vamos trabalhando.
Apostamos na relação dialógica entre a arte e a ciência. Diálogo que tem envolvido o estudo dos processos psicossociais que integram a cidade, do estudo de gênero, da performance, da dança, da psicogeografia, do teatro, das intervenções urbanas... Como a arte pode contribuir para esse processo? Em referência ao texto “Notas sobre o espaço público e imagens da cidade”, da arquiteta Paola Jacques (2009), acreditamos que uso da arte em relação com a cidade, pode se configurar como micro resistência(s), ações dissensuais, experiências sensíveis, que viabilizem a explicitação dos conflitos e tensões que existem nesse espaço; os quais muitas vezes são apagados e silenciados pelos processos hegemônicos que constituem a cidade.
Entrespaçando as cidades, questionando fronteiras, deslocando sentidos, convidamos vocês a participar conosco dessa busca incessante, feita de pedras, leveza, conexões, memórias, ritmos, trajetórias e sobretudo (des)encontros.
Referências Bibliográficas:
HISSA, Cássio E. Viana. Ambiente e vida na cidade. In: BRANDÃO, Carlos Antônio Leite. (Org.). As cidades da cidade. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2006
JACQUES, Paola B. Notas sobre espaço público e imagens da cidade. Rev. Arquitextos/Vitruvius, n. 110, jul. 2009.
LOPES, João Teixeira. Andante, andante: tempo para andar e descobrir o espaço público. In: LEITE, Rogério P. (Org.). Cultura e vida urbana: ensaios sobre a cidade. São Cristóvão: Ed. UFS, 2008.