Queria gritar que Enzo fez pior, pior do que ele fizera, mas de novo não ia deixar a mágoa lhe vencer. Jogar algo em raiva na cara do outro provaria pra ele e pra si mesmo que não havia superado, que isso nunca ia parar. Por outro lado, muitas outras coisas provavam que ele as coisas não estavam superadas e aquilo só o deixava mais irritado, com raiva até de si mesmo. “Você vem na minha casa dizer então que você voltou de Boston pra ver a Athena e não teve a decência de falar comigo? A Athena me escondeu também? Porque ela me perguntava de você, vocês dois estão fazendo um jogo comigo? Porque eu não entendo o que eu fiz pra merecer esse descaso. Então certo, deixando de lado o que eu senti quando você foi embora, você agora quer me culpar por não se fazer corpo presente pro seu filho? A filha do seu amigo não te impediu de me ligar pra dizer adeus, Enzo ou me dizer ‘você dormiu com minha ex e possivelmente engravidou ela, vamos terminar’ você só desapareceu.” Por algum motivo sua voz diminuíra, soava quase fria a seus ouvidos e sabia que chegara num estágio de cansaço mental que não achava mais razão pra nada. Sua vontade era dizer ok pro rapaz, falar que perdoou e ir pro quarto ou ir encontrar Eleanor em algum lugar. “Eu entendi já Enzo, não precisa mais se justificar. Não importa o que você diga, eu cheguei num estágio que não vale a pena, eu só vou retrucar e vamos ficar nessa pra sempre. Você procurou um cano de escape de tudo que você estava sentindo, vale salientar que não sozinho, e se agarrou a ele, deixando tudo mal resolvido pra trás. It’s Ok! Fine, i’m fine e você vai ficar também, depois de se livrar dessa culpa. Eu te perdoou.” Balançou a cabeça pra reafirmar o que dissera, encostou-se na mesa da sala e coçou a barba ainda sentindo os olhos arderem, mas se recurando a expressar mais nada além de desconforto, se fosse ter alguma coisa mais forte ia fazer sozinho, ou na presença da melhor amiga. “Não importa Enzo! Eu não ligo se você dormiu com alguém em Boston porque eu dormi por aqui, o que me importa só foi você ter se agarrado com a porra de um cara praticamente na minha porta e depois sumir, o resto foda-se. I’m not a mind reader too pra saber se você não dormiu com o cara, o que importa é que eu vi e logo depois você tomou chá de sumisso.”
Com um suspiro longo e triste, cruzou os braços numa forma de proteção, ouvindo o outro e fazendo o possível pra não abrir a boca nas primeiras respostas que seu cérebro criava já que tinha a certeza de que apenas seria maldoso. “I know you knew, isso é o que me deixa com mais raiva. Me deixou com mais raiva. Eu sinto de verdade por ter dormido com Athena e acho que talvez seja a única oportunidade em que eu posso pedir desculpas de verdade, cara a cara. Eu sinto muito se isso te chateou e eu não queria isso e nem quero agora, me chateia ter que te falar todas essas coisas e te ver chorando, ou mal, você é alguém- Você é importante, mas eu merecia que você terminasse comigo pessoalmente. Desse um fim, se afastasse, mas ao menos me dissesse algo, não me deixasse no escuro.” Abriu a boca pra continuar, mas as frases seguintes o emudeceu, incrédulo por alguns segundos e depois afundado em vários outros sentimentos. Escutar aquilo fazia bem pra sua mágoa e orgulho ferido ainda que não sonhasse em casar ou em constituir em família, não mais pelo menos, ao mesmo tempo que o machucava mais. Se tinha uma coisa abalada ali era a confiança e se Enzo se sentira daquela forma quando ele deixou Boston talvez merecesse mesmo tudo isso, mas não queria ter que passar de novo.
Em um segundo de baixa guarda se viu perto de incentivar o outro a tentar, mas quando o moreno passou pela porta tudo se esvaiu em dobro, a comprovação da covardia do outro o enfurecendo de novo e tudo que fez foi gritar. “Você é um covarde por me falar todas essas coisas e dar as costas assim!” Andou a passos largos até a porta a abrindo com força, coisa que se talvez o outro não a estivesse segurando ela bateria contra a parede com força - e não importando com proximidade esbravejou. “Você não faz dessa briga uma comédia romântica, diz que me ama e vai casar comigo e vai embora! Eu diria filho da puta, mas sua mãe nem merece, mas com o egoísta eu concordo. Você é muito egoísta por me falar todas essas coisas agora. Depois de quatro meses, na verdade não importa o tempo, você não pode esperar que eu ache isso um grande ato de amor depois me ter me feito um lixo e eu mereço, eu tenho plena certeza de que já tratei muita gente mal e o o caralho todo, mas você não pode reacender nada desse jeito depois de ter feito. Não vou passar por isso de novo.”
Haviam ainda muitas palavras a serem ditas, frases a serem completadas fixadas em seu cérebro, mas era como um jogo da forca; todas incompletas como num jogo de adivinhação e Enzo simplesmente não conseguia mais pensar. Ele não conseguia pensar olhando para Harry. Aquela torrente de sentimentos era de força aterradora e nunca experienciada, nem em seus momentos mais frustantes em seu trabalho, ele nunca havia se sentido assim, ele precisava de um minuto, e por isso manteve-se ali, do lado de fora, segurando a maçaneta e tentando colocar ao menos parte em ordem, resistindo o ímpeto de correr e realmente deixar tudo para trás. Era difícil demais. E era difícil demais porque Enzo finalmente percebeu que nunca amara ninguém, porque nenhum sentimento assemelhava-se ao que ele sentia por Harry. “Oh.” O murmúrio fora pequeno, rouco frente a falta de voz que começava a fazer-se presente por tanto ter forçado a garganta nos últimos minutos. Mas ele não teve mais tempo, porque logo a voz de Harry soava mais uma vez e com um grau de irritação ainda maior. Os dedos de Enzo apertaram-se na maçaneta, mas ele não correu. “I JUST SAID I WAS, I WAS SAYING I’M FOR THE ALST FIFTEEN MINUTES, HARRY! BUT I’M NOT... GOING AWAY OKAY, I’M... Here!... Just on the other side.” Ele disse assim que a porta foi aberta com raiva, imediatamente dando um passo para trás ao passo que, pela primeira vez desde que aquela conversa começou, simplesmente calou-se e ouviu. Havia muito a se observar, muito a se absorver, porque cada palavra, embora dura, trazia a sinceridade de como Harry se sentia ao menos parcialmente ou, talvez, até mesmo sem por cento verdade. Enzo na verdade sentiu seu estômago se afundar, mas segurando uma mão atrás da outra ele se manteve firme; e mais importante, não chorou a despeito dos olhos evidentemente úmidos. “... I’m gonna say it, all at once, okay...?” Ele começou, a ponta da língua deslizando pelos lábios enquanto os pulmões pareciam se comprimir. “Eu nunca disse que você era o culpado por eu não estar , aqui pro meu filho, porque eu tava aqui pro meu filho, talvez não fisicamente, mas eu não deixei de falar com a Athena e não teve jogo nenhum, Harry, porque ela nem sabia do que tava acontecendo com a gente... Eu não voltei nos primeiro dois meses e nos outros dois eu vim só duas vezes e eu só... Não era raiva mais, era vergonha, de encontrar você e fazer o que a gente tá fazendo agora porque eu sabia, eu sabia que eu devia ter dito alguma coisa e me explicado e só... Não ter agido que nem um moleque. You didn’t deserve that, nobody does, fuck the fucking past, it really wasn’t about revenge. I just... I thought i couldn’t face it, because I was feeling all this and I’m-I’m feeling all this. It’s not about forgiveness, that’s... Earned but it’s just all this.” Um novo grunhido lhe escapou aos lábios, sendo sua vez de apertar a ponte de seu nariz enquanto os olhos comprimiam-se com força, a voz se elevando um pouco mais. “Eu não acho que isso é um grande ato de amor, porque não é, isso não é a porra de uma comédia romântica, eu não quero que seja, caralho, eu nem sei o que vai acontecer na minha vida, ou na sua, ou qualquer outra merda sei lá, ou se você vai mudar pra Tanzania ou ficar aqui até ter setenta anos, ou se eu não vou morrer escorregando depois do banho , mas eu não-Não vou e nem quero passar mais um dia com a porra de um “e se” na minha cabeça. Eu não tenho nada a perder porque eu já perdi, mas isso não quer dizer que se-seja fácil... Eu simplesmente vir aqui e dizer tudo isso. So i wanna run, and ride, and i know you wouldn’t make fun of me for saying it but it’s hard because i’ve tried to love many people but the fucking thing is in twenty eight years i have only loved you. And it’s terrifying, And yeah i might shake it one day but i just had to... I had to at least try to make part of it right.” Ao fim do discurso a voz de Enzo era baixa, quase como um suspiro que sabia que Ericksen seria capaz de ouvir, as mãos passando pelos olhos uma vez que o auto controle normalmente se esvaía. E dessa vez, Enzo só ficou ali, braços cruzados, dedos apertando a pele a ponto de machucar e fazendo seu máximo para não fazer o que queria fazer quando tudo se tornava demais: correr.