Séraphine arqueou as sobrancelhas, mas sustentou um silêncio educado como resposta. As cortesias clássicas, ensaiadas a ponto de um irreconhecível enraizar entre o falso e o verdadeiro nela, pareciam absolutamente inúteis com aquela criatura.
Não a surpreendia. Nem por isto a agradava.
Fechando a porta, ela permitiu-se um olhar voltado a ele. Delongou-se mais do que pretendia, fascinada com a vulnerabilidade despreocupada que ele ostentava — intocado por qualquer receio como aquele que a abatera. Se fosse ele o seu alvo, seria uma brecha perfeita.
❛❛ Eu jamais consideraria desrespeitar o seu Castelo, senhor. Mas digamos que… ❜❜ Ela abandonou a porta e aproximou-se a passos curtos, delicados. ❛❛ Digamos que, porventura, eu precise de algo. Como eu poderia chamá-lo, se o senhor não estiver… do outro lado da porta? ❜❜
Ela não questionaria o que, em nome da Morte, ele queria dizer com aquela insanidade. Sem quebrar o ritmo do improviso, sorriu amavelmente. Claro que consideraria. Parecia-a impossível que o Feiticeiro Real não possuísse afazeres primaciais que o impedissem de dar atenção a cada movimento de Séraphine, e certamente era risível de ridículo acreditar que ele realmente estaria, com a paciência cadavérica de uma estátua, do outro lado da porta, só esperando por ela. Queria julgar aquela uma ameaça vazia, mas algo a dizia que ele não desperdiçaria um momento onde poderia quedar-se calado — ou bebendo — para falar coisas sem sentido.
Desprovido da ira na voz, as palavras dele pareciam se arrastar com o desgosto morno de alguém exaurido. Pensativa, olhou-o por mais um longo instante e demorou-se na imagem do assento vazio à mesa. Séraphine Verneuil — a personagem — era a mestra das pequenas sensibilidades do dia-a-dia. O educado seria aproximar-se e ouvi-lo de perto com um sorriso atencioso, sustentando o seu olhar o bastante para mostrar que ouvia com atenção, mas desviando-o pontualmente para não parecer ousada nem particularmente confiante. Diante da falta de convite para sentar-se à mesa, decidiria se o sensato era permanecer de pé ou interpretar o silêncio como uma indiferença complacente.
Mas seu nome ansouino já começava a desaparecer.
Desinteressada em observá-lo beber de perto, e igualmente desinteressada em ficar parada, ouvindo-o com a plenitude de uma boneca de pano, Séraphine começou a investigar o quarto. Equilibrando-se entre curiosidade e receio, ia de um lado para o outro, estudando os poucos objetos com o olho antes encostar os dedos frios. As aparências eram simples, mas queria descobrir se qualquer sensação diferente a atingiria — algum rastro de magia ou uma armadilha bem-escondida. Vez ou outra, parava para lançar um olhar e um sorriso cordial ao Feiticeiro Real. Nas demais vezes, não o olhava, mas desacelerava cuidadosamente, desejando insinuar que dava mais atenção a certos aspectos do que outros. Não era verdade — não ainda. Impossivelmente atenta, apesar do corpo inquieto, ouvia-o com o cuidado de uma predadora memorizando os sons de uma presa, memorizando as palavras e calculando possibilidades.
Ela não parara nem quando foi declarada a sua vez de falar. Após ponderar silenciosamente entre as possibilidades de papéis sugeridas pelo convento, ela decidiu por Lydia de Norðrstjarna. O Império de Hrynðarna era recluso, mas sustentava relações superficiais com Ansouis e Belgrise. Rejeitavam, sempre que possível, visitas de estrangeiros, mas em nome da cortesia e da religião, costumavam enviar nobres em nome do império para não perderem a absoluta noção do andar do mundo e para espalhar a palavra dos santos que louvavam. Lydia não existia, mas sua família… eles, sim, um dia existiram. A dama ansouina não mencionaria quantos arquivos e informações ela roubara até descobrir os Norðrstjarna. Uma casa antiquíssima da nobreza de Hrynðarna que um dia desapareceu de qualquer registro e extirpou-se da História que ela conhecia.
Se ainda viviam, ela não fazia ideia. O que era uma alegria — se nem ela conseguira descobrir, ninguém mais conseguiria.
Poupando-o de explicações longas, ela partilhou o essencial: o nome de Lydia, a origem, e possibilidades de motivações para Lydia — disseminar, em vão, a fé de Hrynðarna através do comércio de objetos que eles consideravam sagrados. Indisposta a explicar seus dons divinos, passados do Pai para a filha, Séraphine contentou-se em dizer que um momento oportuno bastaria para concluir sua função.
❛❛ Temos os papéis. A história… ❜❜
Atravessando o quarto, ela bateu os dedos contra a mesinha ao chegar perto, arrastando-os até aproximar o corpo da cadeira vazia, inspecionando-os da mesma forma que estudara até mesmo a cabeceira da cama, as bordas da janela e a curva da lareira. Com um sorriso indecifrável, Séraphine enfim se sentou.
❛❛ Seja meu consorte. ❜❜ Ela ergueu um dedo, pedindo um momento. Num instante, ela capturou o copo agora vazio entre os dedos, a rapidez anormal de uma semideusa, mais fera do que mortal, desaparecendo com a mesma efemeridade com que aparecera. Derramando calmamente o uísque no vidro, ela cuidou para não derramar nem um sequer pingo, como às vezes acontecia ao superestimar sua visão. Encheu-o o suficiente — nem menos e nem mais. ❛❛ Finja que quer ser. Corteje-me e eu o cortejarei. Com sua… fama, qualquer dama que o senhor declarasse digna de atenção atrairia os olhares da corte. Os olhos de quem quero. Abriria o caminho para melhor adequar-me a sua corte, e duvido que o seu estimado rei duvidaria de mais uma amante em sua vida, mas o senhor pode me contestar se eu estiver errada. ❜❜
O amalgamado de malícia e leveza em seu olhar já predizia que ela achava que não poderia estar mais longe de um equívoco.
❛❛ Desejo uma estadia breve, mas quer os Deuses nos amaldiçoem, é de conhecimento universal o recato e desconfiança das damas de Hrynðarna. Não seria bizarro um cortejo mais longo. E, se as coisas correrem conforme quero, justificada será a sedução rápida do coração da dama Norðrstjarna, pois seu pretendente é dotado de… um charme peculiar. ❜❜ Abafando uma risada, ela empurrou o copo de volta para o Feiticeiro Real, como um pretendente de Hrynðarna estenderia um colar do amor ao fazer uma proposta de casamento. Na ausência de um colar, uísque bastaria. ❛❛ Se aceitar… é claro que não posso prometê-lo felicidade eterna. Mas posso prometer que nossos caminhos nunca mais convergirão e, daqui a longos anos, o senhor poderá relembrar a vez que uma serva da Morte lhe aliviou de um pequeno incômodo em sua corte e se alegrar. Não parece agradável? ❜❜