Aconcheguei me na poltrona de camurça. O corpo afundou no estofado macio, e relaxante sensação apossou me por alguns segundos. Encarei, como nunca antes feito. “Estamos aqui novamente.” Disse tão lentamente que até certa letargia me atingiu. Eu estava exausta. “Sim, estamos aqui novamente, como outras milhares de vezes.” Os olhos felinos e cansados. Era possível agraciar certa determinação e persistência, mesmo que tudo parecesse tão escuro em suas íris. O negro profundo hipnotizava, e meu corpo borbulhava, de uma maneira patética. Tomei fala. “Achei que não teríamos mais essa conversa, afinal você prometeu.” Minha voz falsamente firme forçava um timbre rouco, que poderia vacilar a qualquer momento. “Está me culpando? Acredite, eu não queria estar aqui.” O cheiro então enjoou me, não era um aroma comum, por assim dizer, fedia a medo e tristeza. Eu o conhecia muito bem. Meus olhos vacilaram para o canto daquele cômodo, eu estava fugindo de seus dois buracos negros. Meu corpo não relaxava mais na poltrona de camurça, estava tenso e rígido. Minha força desfalecendo aos poucos, fugindo pelos vasos sanguíneos, vazando pelos poros como água corrente. “Eu quero que você vá embora.” Quase supliquei, se não havia feito. Esperava que dessa vez ele entendesse o recado. Minhas mãos começaram a tremer, e temia chorar. “Você pede para mim ir embora, mas nunca deixa partir de fato.” Busquei então por oxigênio. - “O que você espera de mim?”. - Meu peito estava apertado, pois eu sabia que ele tinha razão, a culpa no final era sempre minha. E o que poderia fazer? Com os olhos pesados em lágrimas, e os batimentos descompassados, encarei aquele olhar. Vislumbrei, mesmo que contra gosto, um sorriso se formar em seus lábios. Sua voz familiar perfurou meus tímpanos. “Só o que espera de si mesma. Sabe que não pode fugir pra sempre.” Ele estava certo no final, o seu único papel era apenas refletir. E eu estava vendo naquele momento, enquanto minha figura refletia no espelho, que o único culpado da minha situação era eu mesma.