彡 ➔ mas se garotos não choram, alguém diz o que eu sou?
valha, sabe onde eu encontro um tal de ERASMO MANCINI COSTA? achei esse rg no lixo hoje, ele tem VINTE E TRÊS anos. ah, é o ERASMO? conheço demais! ele é DE SÃO PAULO, né? tá morando lá no PRINCESA ISABEL e trabalhando de PESCADOR E ESTUDANTE DE SERVIÇOS SOCIAIS, sei. sempre lembro daquela música NINGUÉM ME ENSINOU, do LAGUM quando falo com ele. ( cisgênero masculino, ele/dele, michael cimino ) conexões.
seu zé e dona judite já foram, um dia, o casal mais amado de maraú. ou, pelo menos, do bairro taguatinga. juntos, eles e os três filhos administravam a pequena papelaria e loja de pipas da cidade, na garagem de casa. era comum que as crianças do bairro batessem na porta da casa da família, não se surpreendendo ao encontrá-los de pijama e chinelos para vender uma caixa de lápis de cor ou rabiolas. o quarto filho veio de uma forma muito inesperada, já com mais de 10 anos de diferença dos irmãos.
porém, durante uma sonhada viagem de família a são paulo, o bebê de dois anos foi dado como desaparecido. os pais passaram meses na cidade do sudeste, enquanto a polícia procurava o filho mais novo, gastando o que tinham e o que não tinham, inclusive ajudados por doações de outros marauenses, mas nada deu certo. voltaram para maraú com a dor de ter perdido um filho e falidos. tiveram que vender a casa e o comércio, e o casamento também não demorou para se deteriorar. quase vinte anos se passaram e os dois se tornaram o que são hoje: o seu zé da garagem e a dona judite da mercearia. os mais velhos da cidade ainda se lembram da relação antiga entre os dois marauenses, principalmente quando os três filhos adultos dão as caras pela cidade.
erasmo mancini costa vive e só conhece são paulo desde que se entende por gente e desde que seus pais adotivos lhe registraram com seus sobrenomes. dona juliana e seu caetano nunca esconderam que o maior presente de suas vidas não tinha vindo do útero da matriarca e sempre buscaram pelos pais biológicos de erasmo, antecipando que o menino pudesse querer essa informação. o que acabou se tornando verdade, por mais que não fosse a grande missão da vida do garoto. teve uma vida bem costumeira a de um jovem classe média em são paulo, com todas as regalias que isso oferece.
sempre tomado pela curiosidade e pela pressa, erasmo era conhecido por não aplicar isso em questões oportunas, como a escola. por isso, repetiu de ano duas vezes e se formou no ensino médio com dezenove anos. depois disso, decidir o que queria fazer da vida foi mais um processo de indecisão (ou de enrolação, como diriam seus avós). estudou, sim, mas não tinha um curso em mente. ao descobrir que uma universidade de uma cidade do ceará oferecia o melhor curso de serviços sociais do país, foi como se algo lhe chamasse para aquele lugar.
chegou em maraú aos 21 anos e, de certa forma, sentia como se tivesse voltado para seu lugar de origem. além da faculdade, descobriu um passamento curioso, que nem ele mesmo sabia que gostaria tanto e que acabaria virando seu emprego: a pesca. para uma pessoa tão agitada, é uma surpresa até mesmo para erasmo que se sinta tão em paz ficando horas e horas em silêncio na companhia da água, do céu e de uma vara de pesca.
é uma incrível coincidência do destino que ainda não foi descoberta, mas erasmo é, de fato, o filho perdido de seu zé e dona judite, na mesma cidade que seus pais depois de quase vinte anos. é uma questão de tempo até que a verdade comece a plantar pensamentos na mente do mancini, principalmente se ele continuar frequentando o bairro taguatinga com frequência.
uma vez disseram a erasmo que ele tinha tempo sobrando para errar, e parece que ele levou isso a sério. pensar em consequências e opções não é muito o forte dele, e isso acaba resultando em situações ruins e conflitos acidentais. mas o costa é determinado até mesmo para cometer as maiores burrices que maraú já viu.
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