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Vai Na Fé encerra seus capítulos como novela com mais personagens LGBTQIA + da história da Globo, porém a cada semana mais silenciados.
Nesta noite de sexta-feira, (11/08/2023), foi ao ar o fim da novela ‘Vai Na Fé’ (escrita por Rosane Svartman e colaboradores). Trama composta de elenco 80% negro, pela primeira vez na Globo, em decorrência de nova política a respeito da representatividade. Além disso, Vai na Fé atingiu o feito de folhetim com mais personagens LGBTQIA+ na história da emissora; no mínimo dez personagens tiveram suas sexualidades não-heteronormativas compartilhadas no decorrer da trama, a princípio como um símbolo da representatividade da novela e pluralidade dos seus personagens. Entretanto, com o passar dos capítulos, tais sexualidades serviram apenas como rótulos e estereotipização dos personagens, trancando-os em caixinhas e esquecendo de desenvolvê-los. Em meio a censuras, cenas quase exclusivamente no subtextos e tom totalmente diferente dos demais personagens - e casais - Vai na Fé mexeu numa ferida que parecia estar sendo cicatrizada, a ferida causada pela Rede Globo, na comunidade LGBT.
A primeira polêmica da produção a respeito dos seus personagens LGBT, veio com o rumor do relacionamento entre Yuri e Fred, de acordo com tal rumor os jovens teriam um relacionamento. Porém, um dos colaboradores de Rosane, afirmou que era uma posição homofóbica utilizar o Yuri como arco de redenção para o tóxico Fred. Como se relações homoafetivas fossem unicamente perfeitas e saudáveis, sem a complexidade dos demais casais dúbios e cinzentos. Logo, os atores negaram que esse rumor de fato era algo do roteiro, e um namorado apareceu para Yuri - o mal desenvolvido, Vini. Coitado. Um tapa-buraco mal escrito e sem personalidade, embora o ator seja uma graça. O relacionamento dos dois seguiu-se de forma anêmica e quase inexistente, com o Vini surgindo do nada e pressionando o Yuri a entender-se de uma forma tão mal escrita que não dava para o público sequer imaginar se havia interesse por parte do garoto. Trama escanteada e censurada de uma forma bizarra, com os personagens beirando ao frígido em relação aos demais casais jovens da novela. Por fim, o casal só teve apenas um beijo - distante, com câmera aberta, quase como se todo mundo ali estivesse desconfortável, como se fosse algo anormal, documental - e logo dispensaram o coitado do Vini, que mal tinha aparecido. No lugar dele, o romance de Yuri - assumido bissexual para os pais, em uma cena sem nenhum peso emocional - com a Guiga, e com isso a definição do personagem a apenas aquele relacionamneto. Se a princípio, Yuri era um jovem sonhador advogado que foi preso injustamente e carregava com si essa revolta e complexidade, no fim, tornou-se apenas o namorado da Guiga, resumindo-se a cenas cômicas que beiram ao ridículo. Logo, não preciso dizer que as cenas dele com a Guiga superaram e muito as com o Vini, enquanto os dois garotos foram resumidos a um beijo quase documental, as cenas de Yuri com Guiga foram quentes e explícitas - e quase eternas.
Vitinho e Anthony foram um caso diferente. O primeiro, descrito como um personagem gay diferente, caiu na mesma questão do segundo: gays estereotipados. Ambos possuem carisma, são queridos pelo público, mas são quase não-pessoas, vivendo para desenvolver personagens ao seu redor e para gerarem risadas do telespectador. Afinal, que dona de casa não gosta de uma bicha engraçada? Ademais, entre um e outro diálogo, citavam um possível relacionamento de ambos, que apenas apareceu na última cena dos dois: um beijo de meio segundo, coberto por uma planta. Pelo menos temos personagens gays né!
Por fim, mas talvez principal, tivemos o caso de Clara e Helena. Diferente de Yuri e Vini, elas tinham química, e talvez graças unicamente a isso, ambas se destacaram no folhetim, pois se fosse graças ao roteiro, Helena seria figurante de luxo até o último capítulo - bem, ela meio que foi, já que a personagem nem casa possuía.
A princípio, elas se conheceram na academia e com a progressão do relacionamento das duas, parecia que a trama acompanharia aquilo - afinal, até o primeiro beijo delas foi exibido! Mas depois algo mudou. As cenas foram cortadas, os beijos censurados e o casal foi perdendo o brilho. Todo o plot da Clara - um dos mais interessantes da novela - por uma boa parte resumiu-se em um torture porn da sua relação abusiva com seu então marido, Theo. E quando pareceu que iam superar isso e desenvolver sua bissexualidade, e então sua relação com Helena, a personagem sumiu. Foi escanteada. Logo, sua relação com Helena tornou-se resumida em brigas e reconciliações sem fim. Na reta final, tentaram dar uma complexidade para a dúbia Clara e sua relação com a sexualidade - ela seria bi? A novela nunca explorou isso propriamente - e como isso afetou a Helena. Porém já havia percorrido tempo demais, e não era nos 45 minutos do segundo tempo que o casal ganharia a visibilidade que mereceu durante toda a novela, e que foi substituído por plots bobos e desnecessários.
Com isso - e com outros exemplos menores, mas também esquecidos pela novela - é perceptível que não adianta apenas incluir personagens LGBT se não houver o processo de desenvolvê-los a partir de um viés não-heteronormativo. Entendo que a arte queer jamais será capitalista - e obviamente neste caso, novelas da Rede Globo estão incluídas - mas com a necessidade capitalista de lucrar em cima da inclusão há o surgimento desses personagens em suas novelas, porém o mais agradável heteronormativo possível, e isso inclui silenciá-los ou apenas transformá-los em alívio cômico. Entretanto, ainda há o positivismo em esperarmos que uma autora e uma novela que prega a inclusão o desenvolvimento dos seus personagens queers como pessoas e não apenas como rótulos, mas nesse caso, parece que foi apenas ingenuidade nossa como telespectadores mesmo.
lana del rey for interview magazine (march 2023)
real
1988