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Queria que você lesse meus textos e me desse uma opinião sincera. Pode ser querida?
hum... pode? hahah, mas eu não sei quem você é :(, mas me manda um e-mail que a gente conversa :) luisageisler[arroba]gmail.com
Teste cego
Teste cego é um experimento científico, onde algumas das pessoas envolvidas são impedidas de saber determinadas informações que possam levar à inclinações conscientes ou inconscientes de sua parte, invalidando o resultado.
Por exemplo, ao pedir que consumidores comparassem os sabores de diferentes marcas de um produto, a marca deve estar oculta, do contrário, consumidores geralmente preferirão a marca que lhes é familiar.
(mais ou menos uma boa definição, mais ou menos dito na wikipédia)
**
Meu professor da área de marketing ama Coca-cola. Ele ama a marca Coca-cola e tudo que ela representa. Eu não digo isso como uma grande observadora - que eu não sou, visto que passo o tempo inteiro dentro da minha cabeça -, mas como uma pessoa que o ouviu dizer isso mais de uma vez.
**
Na aula de marketing, terminavam de exibir o comercial, o conceito de família, os ursinhos polares, awwwn, o ar-condicionado ligado, faltavam quinze minutos pro meio-dia, mas naquela instituição as aulas iam até 12:50. Uma aluna tinha uma garrafa de Coca-cola sobre a classe e ao final do comercial, ergueu-a; Coca! O professor correu até a aluna e fizeram um high-five. Coca!
Pelo menos, foi assim que me contaram que aconteceu na outra turma.
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Contou de um teste cego que aplicou na outra semana com a turma de pós-graduação. Ao contar, falou que apostou com todos os alunos que gostaria mais de Coca-cola do que de Pepsi, que reconheceria o sabor. Embora Pepsi não entrasse na casa dele, quando meu não sabia qual marca era, ele gostava da Pode ser.
- E agora, sor, tu vai comprar Pepsi?
- Negativo. Quando eu sei a marca, eu gosto mais de Coca.
**
Eu uso meu professor como exemplo, não porque ele é de marketing, não porque ele gosta de Coca-cola, mas porque ele fez o teste. Quero fazer também. No fundo, no fundo, a Coca-cola e a Pepsi podiam trocar de receita uma com a outra: as pessoas deixaram de consumir o sabor faz muito tempo.
Quando você ouve alguém falar, você presta atenção na gramática dela, presta atenção no que essa pessoa veste, na escolha dos exemplos, no tom de voz e linguagem corporal, nas citações que faz ou deixa de fazer e, no final das contas, se isso não agradar, se essa embalagem, se essa marca não convencer, não adianta. Não adianta ter um discurso Martin Luther King com embalagem Lady Gaga: não se quer saber de verdade.
A associação com essas marcas pessoas só tende a piorar. O coleguinha que falou besteira no primeiro dia de aula nunca vai ter chance de criar uma boa primeira impressão de novo, tudo que ele falar sempre vai passar pelo filtro "será que ele vai falar merda de novo?". Enquanto ele fala, já se julga procurando as falhas, os errinhos, as incoerências e, mesmo se não houver, quando eu sei a marca, eu gosto mais de Coca.
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Machado de Assis ou Paulo Coelho?
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No teste, meu professor precisava dizer a palavra que lhe vinha à mente para cada marca provada. Ao mesmo tempo em que confundia ketchup Oderich com ketchup Heinz, deu ao Heinz a palavra "fábrica". Embora sempre compre Heinz, gostou mais do Oderich.
Os gostos já se prendem às pessoas. Elas já aprenderem do que elas gostam, de como elas gostam, de quem, do quanto, como elas reagem e como isso funciona. O que agrada a uma pessoa é o que a faz, não é? Ela não pode mudar de opinião.
Por isso que estamos associados a marcas, não só marcas capitalistas-o-marketing-cruel-criou-referências-na-minha-cabeça-lavagem-cerebral-sou-a-vítima, mas marcas quaisquer, formas de imagem.
"Estudo Medicina."
"Sou uma pessoa noturna."
"Eu gosto de me organizar com antecedência."
"Se eu planejar, fica sem espontaneidade."
"Não como carne de animais porque é cruel."
"Eu seria vegan, mas é hipócrisia porque coelho em plantação de alface é peste."
"O problema em ser sarcástico..."
"Coca!"
E ao ver o outro, essas formas de imagem interferem no julgamento. Interferem mais do que deveriam, mais do que uma dita pessoa livre de preconceitos pode decidir. Quem controla a própria personalidade?
**
Ainda quero fazer um teste cego, mas não saberia reconhecer marca nenhuma (chocolate Lacta vs Nestlé vs Lindt?), à exceção a mostarda Heinz.
Prevejo que, só por dizer que acertaria a mostarda Heinz, errarei.
**
Sorvete Häagen-Dazs ou Big?
Cansaço
Caio estava cansado. Por baixo do paletó Armani comprado no MercadoLivre liquidação de inverno em doze vezes; sentia cansaço. Por baixo da gravata com o nó já marcado, só tinha três gravatas, a listrada-vinho, a preta com bolinhas douradas, a toda azul, sentia o cansaço; as gravatas causavam cansaço no pescoço. Sob a camisa, a diarista sempre passava errado, sempre errado, sempre umas dobrinhas nas costas, amassava no caminho, no carro; sob a camisa, o torso cansado, a gordura substituía a cada dia os músculos abdominais que a natação criara. A natação não cansava, mas não dava mais, poxa, falta de tempo, falta de tempo, duas horas de trânsito; agora, só o cansaço e os músculos que sumiam.
A calça risca-de-giz pesava ao somar-se ao cansaço, aquecia as pernas já peludas e exaustas. Risca-de-giz, como a Graziela do Marketing dissera que lhe ficava bem. Mas só isso que dissera.
“Tu fica bonito de risca-de-giz.” Ela falava olhando para os papéis e amarrando os cabelos.
A risca-de-giz, cada linha branca arrastava uma tonelada rumo aos sapatos de couro. Caio odiava usar couro, os animais, um cachorrinho, hálito de filhote, não causavam cansaço; mas o chefe, (uma xícara de café por intervalo, três antidepressivos por dia (de manhã, antes de dormir e um terceiro se se sentisse cansado
o chefe sempre tomava os três,
não que Caio soubesse). O chefe sempre dizendo.
“Sapato de homem é de couro, só de couro, couro, hein?” E olhava feio para os tecidos sintéticos, couros falsos, mas e os filhotinhos, hálito de filhotinhos, direitos dos animais, mas.
Caio sentia cansaço nas meias. Meias made in China, China, Coréia, maiores concorrentes, ninguém produz a esse preço, só podia ser dumping, onde estava a Câmara de Comércio Exterior, ninguém produz travesseiro colcha tão barato, meias baratas, novas, confortáveis, só podia ser dumping
dumping.
Meias suadas, baratas, novas, confortáveis grudavam-se aos pés cansados
cansados da taxa de câmbio
cansados da cobertura no Moinho de Vento, prédio de 18 andares,
cansados da BMW, bancos maravilhosos, não eram de couro,
Caio não mais se orgulhava das noites trabalhando, agora só se cansava;
o vento úmido, no rosto, a cobertura no Moinhos de Vento, as nuvens brancas, o céu azul
e o sono e então
Ele foi.
Primeira entrevista em jornal
Saiu no Diário de Canoas, dia 07/05, sábado.
- A jornalista pediu três opções de foto para divulgação e escolheu a que eu mais parecia uma mendiga.
- Na reportagem, Luiza, Luísa e Luisa.
- Entre meus autores favoritos, Hemingwey.
- A headline não condizia com o que eu achava que a reportagem poderia ser.
Mas adorei.
Hoje, a Secretaria Municipal de Cultura de Canoas me ligou. Eles leram a reportagem, querem fazer algo na Feira do Livro de Canoas, o jovem e a literatura. Queriam fazer algo com o Contos de Mentira, mas o lançamento será dia 4/07, enquanto a feira canoense será em junho.
Irei lá amanhã e falaremos a respeito.
Aparentemente, minha cara de mendiga não os assustou.
Settle down (raspa de panela #3)
Hannah começou a discar o número de telefone de Cássia. Sentava-se na poltrona ao lado da bancada do telefone quando ouviu os toques, o primeiro, o segundo, torcia que só ouvisse os toques, que Cássia não atendesse.
Na noite anterior, saíra pela primeira vez com Thiago, logo após a primeira ligação dele. Hannah não gostava de guardar segredos.
Quando Cássia ligasse, perguntando o motivo da chamada, Hannah inventaria uma desculpa, escondendo o assunto ao mudá-lo. Hannah não gostava de guardar segredos, mas, naquela situação, libertar-se-ia do que gostava ou do que desgostava.
Terceiro toque do telefone.
Sim, Hannah casou-se, sim, teve o filho, numa imaginária lista de tarefas. Tem uma idade para festas, eles dizem, uma idade para curtir, uma idade para estar na faculdade, uma idade para settle down (acalmar-se, estabelecer-se numa vida calma e ordenada, não é bem isso).
Settle down é um jovem que enlouqueceu muito na escola e faculdade, fedia a maconha, passou mais tempo em rave que em sala de aula, brigou com professor e reitor, encheu o cu de LSD, bateu na namorada, formou-se no curso quase não se formando. Um dia, ele casa-se, compra uma fazenda no interior do país, começa a criar ovelhas, cobra um preço justo por tudo que produz, respeita e ouve os filhos, abraça a esposa quando chega fedendo da labuta. Isso é settle down. Sempre visualize settle down com a fazenda e as e ovelhinhas balindo. Todo mundo um dia compra a sua fazenda.
Quarto toque no telefone, Hannah cruzou e descruzou as pernas sobre a poltrona.
Tem uma idade para festas, eles dizem, uma idade para curtir, uma idade para estar na faculdade, uma idade para settle down, uma idade para ter dúvidas, uma idade para casar, para se apaixonar, por aí vai. Se suas ações estão fora da idade certa, eles dizem, você tá errado, você tá agindo de um jeito arriscado, você tá confuso, perdido, você precisa entender o que você tá fazendo, você tá indeciso, você não quer ver um psicólogo?
Franco fora o melhor amigo de Hannah durante a faculdade e Hannah sempre imaginou que a pessoa mais fácil de lidar fosse a pessoa que você amava. Não pode ser amor com uma pessoa difícil de lidar, uma relação não se baseia em desafios, Hannah sabia.
“What is to love?” Shakespeare once said. Hannah amava o marido e, sim, ela sabia o que era amar, com certeza, senhor Willy.
Foi fácil de lidar. É-se feliz quando se é feliz todos os dias? Hannah jamais se perguntou, ocupou-se em ser feliz casada com seu melhor amigo. Apreciaram-se, beijaram-se, pelaram-se, sentiram-se, gostaram-se, apreciaram-se, casaram-se, gostaram-se, beijaram-se, apreciaram-se, pelaram-se, sentiram-se, gostaram-se, aceitaram-se, permitiram-se, deram-se o primogênito. Obedeceram-se: cada um aprendeu as pequenas idiossincrasias, conheceu as expressões matinais e silêncios que denunciavam mudanças de humor, irritação e/ou cansaço.
O quinto toque telefônico, Hannah sorria do outro lado da linha. Cássia não atenderia, mas Hannah queria certificar-se. No fundo, se Cássia tivesse atendido, Hannah teria falado. Se Cássia tivesse atendido, as palavras teriam escorregado de Hannah, do acidente com Thiago, do susto, do medo, do encantamento: não, não falaria do encantamento, afinal não se repetiria. Estavam, contudo, no sexto toque do telefone e Hannah não queria que Cássia atendesse ― sétimo ― e não sabia por que permitia que o telefone chamasse.
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Outra raspa de panela. Coloquei tudo numa mesma queue, todos personagens e trechos que não serão usados, mas que me causaram pena sair pressionando Delete.
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Hoje ainda é quarta-feira.
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Estou em semana de provas há três semanas, recebendo umas e fazendo outras e recebendo umas e notas. As notas andam todas na casa do 7-8.
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A exceção: meu irmão teve aula com uma professora que ele rotula como "a mulher que mais sabe da ESPM". A matéria dela é brilhante também, ela é brilhante como um todo e é, de longe, a professora que mais sabe deste meu semestre. A matéria é Introdução ao Estudo das Relações Internacionais, teoria dos Estados/Agentes/teorias de compreensão das Relações Internacionais/Atores/Formas de poder etc, interessantíssima.
Acontece que meu irmão é (além de ex-aluno) parceiro dessa professora, não sei como. Desde que descobriu que eu tinha aula com ela, passava dizendo: "fala que tu é minha irmã, que tu sobe no conceito dela." Eu não fazia nada. Meu irmão dizia: "fala que eu mandei um abraço", eu não fazia nada.
Numa chamada dessas, na quarta semana de aula, ela chamava os nomes:
- Luisa Silva (a outra Luisa)
-Eu!
-Luisa (...) Geisler
-Eu!
"Quem é Luisa Geisler?"
Deu merda.
Assumi minha culpa de ser eu Luisa Geisler. Ela riu:
- Ah, tu que é irmã do...?
Sim, era eu. Confirmei antes que ela terminasse a frase.
No dia seguinte, no ônibus, meu irmão me avisa que a professora veio até a empresa empresa júnior de Design e Publicidade e Propaganda da ESPM onde ele trabalha. Também avisa que a professora comentou que eu era aluna dela, e que fizeram uma aposta. Um café se eu tirasse mais que 8,5 na primeira prova dela. (meu irmão apostou que a professora lhe pagaria um café se eu tirasse mais de 8,5.) A professora reagiu:
- Bá, mas que falta de fé na tua irmã!
Meu irmão, é claro, também reagiu:
- É que essa aposta já tá ganha...
Não que eu tenha estudado pra dar café pro meu irmão, a matéria é em si maravilhosa. Mas tirei 9. Ninguém tirou 10, não ouvi de nenhum 9,5, ouvi de vários 6, 7s e por aí vai. Ouvi de um outro 9 e outros 8s.
E esse foi o único desvio padrão da minha média 7-8.
Raspa de panela #2
Marana odiava atravessar a rua quando o sinal para pedestres estava vermelho. Sentia um desconforto na proibição. Não que Marana fosse demasiado prudente: fazia trekking aos finais de semana, fizera bungee jumping na Indonésia, saía para dançar e acordava em quartos alheios, preparava suas apresentações para a chefa na noite de véspera, atrasava-se duas ou três vezes na semana.
Atravessar a rua, se o sinal para pedestres estava vermelho, irritava-a. A sinalização era de que se aguardasse. Embora a rua estivesse vazia, se Marana atravessasse, ela sentia-se pedindo para ser atropelada. Havia um acordo: quando o sinal está vermelho para pedestres, os motoristas podem dirigir com liberdade, o sinal estava verde para os carros porque os pedestres não atravessariam. E se passasse um carro a 100km/h, o motorista confiante de que os pedestres aguardavam sua vez?
As amigas brincavam que Marana conferia se vinha um carro do Chuí antes de atravessar a rua. Mesmo que fosse numa faixa de segurança, mesmo que o sinal para pedestres estivesse verde, Marana abraçaria a bolsa de grife e correria até a próxima calçada, gramado ou passarela. Detestava ser lenta no meio do trânsito, no cheiro de fumaça, no barulho de motores em frente ao semáforo, esperando pelo próximo acidente, motoristas esperando pelo sinal verde.
**
Outra raspa de panela que sobrou do romance, outro trecho que não será utilizado.
Trecho abandonado
A areia atravessa as tiras da sandália de Camila e ela mexe os dedinhos uns juntos dos outros. Camila e Bruno seguram taças de champagne com gn mesmo, francês. Enquanto o amigo servia a bebida na beira da praia, Bruno comentou: era francês, devia ser coisa boa, hein. Riram, provaram, exaltaram o champagne antes de sentirem o gosto.
O casal olha para o céu, na expectativa de que os fogos de artifício surjam antes da meia-noite. Bruno passou a mão em torno do ombro de Camila, como sempre fizera ao longo dos cinco anos de casamento, os seis anos de namoro e fará por todos os anos que venham.
Conversam com os três casais de amigos, riem, o ano que vem será o ano, sem dúvida. Brincam, piadas sexuais, trocadilhos, mais champagne, mais champagne, bolhinhas, delícia esse champagne mesmo, hein e esse ano? Esse ano foi fantástico, impressionou demais, foi uma bosta, isso sim, muito especial, mas ano que vem, ano que vem será ma-ra-vi-lho-so.
Camila é mignon, sua altura total bate no ombro de todos os convidados, mas ela os olha nos olhos (a ponto do desconforto) e cabeça erguida, o cabelo curto que deveria cair sobre os olhos preso com uma presilha. Mignon por mignon, fala alto, berra, ri como se todas as outras pessoas da praia devessem ouvir suas conversas e interessar-se. Bruno tem altura mediana para o brasileiro mediano ― 1,73m, mas qualquer mulher (como a narradora que vos fala) afirmará que isso é baixo demais ―, ou seja, é mediano e dentro dos padrões da expectativa. Acima de tudo, ele passa a mão em torno dos ombros de Camila, e tem-a contra si, lança-lhe olhares, nota quando o copo dela esvazia e pergunta se ela quer mais champagne. Se ela nega, ele oferece-se para segurar o copo. Acima de toda a ausência de altura de Bruno, resiste um homem mediano com planos de ano-novo que incluirão Camila por todos os possíveis anos-novos.
Falam de planos de ano-novo, de novo. O casal da esquerda fala de que, ano que vem, conhecerão a Europa. Sonham com a Finlândia, sabe? Economizavam desde três anos atrás e agora querem passar dois meses inteiros lá, estudar finlandês. Nunca estudaram, mas querem, é chamado da alma mesmo. Os amigos acham simpático, acham fofo, elogiam a beleza da Finlândia, é frio lá, né? Mas eles irão quando? Tinham data definida? Os amigos querem souvenirs, regalitos, pelo amor de deus. Riem. Brincam quão maluco é estudar finlandês e ninguém estuda finlandês, ninguém fala finlandês. Os amigos tomam champagne em conjunto e, depois de tomar o demorado gole, a esposa do casal da esquerda acaba dizendo:
― Maluco mesmo é viver uma vida com paixões medíocres, né?
Os quatros casais riem, abraçam seus respectivos parceiros, já dará meia-noite. Viram-se para Camila:
― Vocês planejam o que pro ano que vem?
O casal olha-se e, sorrindo-se dão de ombros.
― Continuar me esforçando na Fachmann ― Camila diz ―, ser promovida…
― Ano que vem, a gente termina de pagar o carro… ― Bruno diz.
― A gente podia comprar outro, né? Tá velho aquele! ― Após as gargalhadas e goles de champagne alheios, Camila e Bruno riem e bebem juntos.
― Bom ― Bruno diz ―, a gente sempre pode ir pra Noruega!
A contagem regressiva começa depois de falarem da viagem do casal da esquerda, depois de acrescentar que quem nunca conheceu a Europa Oriental nunca viveu. Sim, Rússia é linda, uma experiência que muda por inteiro a maneira de entender as coisas, o mundo. Não sabem como haviam passado tanto tempo ignorantes dela. Acrescentam:
― Depois que você conhece a Rússia, você tem que nascer de novo.
Os fogos de artifício expandem-se e colorem o céu escuro, os beijos à meia noite. Um risco azul brilha até subir ao céu, depois explode num * e cada risco corre para um lado. Confunde-se com outros riscos, com as estrelas e com a Lua, sob o barulho de explosões e vozes, junta-se a outros * que, em curvas, caem dissolvendo-se.
Camila, com a sandália cheia de areia, e Bruno assistem àquilo, mas só se permitem prestar atenção porque sabem que têm a presença um do outro lado a lado, abraçando-se lado a lado. Se Bruno sentir o corpo de Camila mover-se, ele virar-se-á, perguntará se estava tudo bem, se ela quer um refrigerante, algo para comer, uma ambulância, um helicóptero com paramédicos. Se Camila sentir o braço de Bruno deslizar, dar-lhe-á um tapa e dirá que sente frio. Dirá:
― Abraça aí, pô.
Era mais um ano-novo.
O filho de Camila e Bruno nasce em agosto daquele ano, uma menina, linda e saudável de parto normal. Esse, porém, não é o tipo de coisa que a gente conta para os amigos que está planejando porque nunca é bem um planejar. E as coisas que dão certo nunca são as que a gente planeja. E quando a gente planeja não planejar e relaxar, dá errado de novo.
O outro casal amou a Finlândia. Trazem fotos, souvenirs, memórias, pulôveres de lã, histórias, cartões-postais, os regalitos, uma bebida local muito maluca, dicas sobre um final de semana em Londres e Paris, truques de economia em Milão e um chocolate belga que derrete na boca.
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Este texto é um trecho do meu romance em produção. Verdade seja dita, foi um trecho dispensado, mas me deu pena selecionar tudo e dar Delete pura e simplesmente.
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Nenhum destes personagens é parte do romance, nem nada assim. Não beiram o cargo de coadjuvantes.
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Sábado, sem falta, um trecho que não vai ser raspa de panela de nada.
Tomando banho com Durkheim
Prova de Sociologia da Globalização amanhã, sóciologos clássicos so far.
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Tomei banho com o livro na pia, li enquanto secava o cabelo, li enquanto jntava. Tenho esse desespero constante de que vou me esquecer de tudo. Ainda nem cheguei aos resumos.
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"Quando optamos pela não-submissão, as forças morais contra as quais nos insurgimos reagem contra nós e é difícil, em virtude de sua superioridade,que não sejamos vencidos (...) Estamos mergulhados numa atmosfera de idéias e sentimentos coletivos que não podemos modificar à vontade. Mas isso não significa que a única alternativa para o indivíduo seja prostar-se impotente diante das regras sociais ou viver permanentemente consciente da pressão dos fatos sociais. Apesar da existência de dificuldades impostas por um poder contrário de origem social, apresentam-se comportamentos inovadores, e as instituições são passiveis de mudança desde que vários indivíduos tenham, pelo menos, combinado a sua ação e que desta combinação se tenha desprendido um produto novo que vem a constituir um fato social."
E. Durkheim
Diálogo sobre amor (ou “Ensaio sobre o silêncio da UTI”)
***
(Este é um exercício de Oficina que eu mandei pra um concurso e nunca vingou. Que ele encontre descanso aqui.)
***
Quando Marcelo chegou à sala de espera da UTI, Sarah estava num sofá. Durante os três dias, Sarah estivera naquela sala. Freqüentava a UTI sempre que possível. Horários extras de visitas, cafés da manhã, almoços, jantas. Sarah e a bolsa grudada ao colo pelos dois braços, as pernas cruzadas, a cabeça pesava aos ombros. Sempre no sofá de couro marrom, de uma época em que couro marrom significava refinamento. Os quadros feitos por pacientes, muitas idéias, coloridos, mas sem vida. Os olhos castanhos de Sarah fixos nas revistas amarelas em mesinhas laterais. No bolso da velha calça jeans, o celular.
Para Marcelo, era difícil atravessar aqueles vazios. Andava pela sala controlando o som da respiração. Ignorando as pessoas em grupos, em vozes chorosas, bem-vestidas, perfumadas de naftalina.
Marcelo sentou-se ao lado dela.
Era o quarto dia que ela vinha à UTI.
Sarah visitava o pai em todos os horários de visita. Chegava meia-hora mais cedo. Conhecia as enfermeiras, internos e médicos pelo primeiro nome e vida íntima. Faltava a aulas da faculdade. A mãe visitava durante os horários de jantar. O irmão fazia faculdade nos Estados Unidos.
E Sarah visitava o pai em todos os horários de visita. Marcelo nunca argumentou contra. Conhecia a namorada. Tentava acompanhá-la. Em geral, trazia-lhe um sanduíche, um refrigerante, salgadinhos, chocolate. Ela comia, perguntava do dia dele, fingia um sorriso, arrumava a postura por alguns instantes.
Uma enfermeira passou. Sarah virou os olhos em sua direção. Acompanhou-a ir e vir.
Conversaram monossilábicos.
Marcelo sentava-se o mais próximo que conseguia, fazia-lhe carinho nos cabelos. Interessava-se.
Se já chamaram pelo nome dela? Não, alguns colegas da aeronáutica vieram visitar o pai, ela explicou. Ela os deixou irem primeiro.
O pai, médico da força aérea, sofrera com as muitas transferências pelo Brasil. Tinha poucas relações no sul, onde moravam no momento. A família era a mãe e os dois filhos. E Sarah visitava o pai em todos os horários de visita.
Marcelo perguntava do irmão, da mãe, da rotina eterna dos três dias. O que ela andara fazendo? Sarah sorria, mudava de assunto, respondia com uma pergunta vaga. Aham, sim, ela sabia, não, ela não sabia. Oi? Do que Marcelo estava falando? Ela se distraíra.
Sarah olhou o horário no celular.
Marcelo acostumou-se. Acostumou-se com o ficar lado a lado, olharem um para o rosto do outro, depois para o chão, a televisão e as pessoas falando sozinhas. Um beijo raro e discreto. Acostumou-se a vê-la diversas vezes ao dia, a não perguntar.
Acostumou-se com o silêncio progressivo.
Naquele quarto dia, trouxera histórias. Coisas que aconteceram com ele, pessoas que vira, pequenos momentos. Ela ouvia, assentia com a cabeça. Encarou o chão. As histórias incompletas vibraram dentro de Marcelo.
Marcelo inspirou. Viu um homem conversar com uma enfermeira. Perguntou a Sarah se era um dos colegas do pai. Sarah negou. Disse que estava observando eles entrarem e saírem. Faltavam ainda alguns colegas. Marcelo expirou:
― Ver alguém partindo ― ele observou o resto da sala. As famílias agrupavam-se. ― Acho que amor é isso.
Sarah riu. Riu como quem lembra de uma piada num momento ruim:
― E quem vai me ver partir? ― ela olhava para as revistas amareladas. Voltou a olhar para o chão.
Marcelo virou o corpo, passou os braços em torno de Marcela. Abraçou-a e lhe beijou a testa.
Ficaram.
***
And it came to me then that every plan is a tiny prayer to father time As I stared at my shoes in the ICU that reeked of piss and 409
What Sarah Said - Death Cab for Cutie
***
Cinco minutos
Vai soar confuso, eu já sei. (talvez eu só ache que vá soar confuso porque são seis e quinze da manhã)
Tem um espelho, tá? tá. No espelho, o meu reflexo e o do meu irmão.
Com o canto do olho, enquanto confiro meus restos de maquiagem, eu olho pro reflexo do meu irmão no espelho.
Eu sei que ele sabe que eu tô puta.
Tá?
Eu sei que ele sabe. Tem uma mecha de cabelo que eu prometo que vou cortar, venho prometendo desde março, tá? tá. Ajeito ela.
-Isso foi hora de sair?
-Seis e quinze.
-Cinco minutos, pô
Cinco minutos de atraso significam trem lotado, significam probabilidade de perder o ônibus em Porto Alegre, significa talvez se atrasar pra chegar na universidade. Cinco minutos, pô. Saímos do elevador. Eu sei que meu irmão sabe que eu tô puta porque eu ando mais rápido que ele. Tento deixar ele pra trás nas esquinas canoenses. Tá escuro ainda, vento gelado, ando mais rápido, mais rápido, meia quadra na frente.
you gotta roll with it you gotta take your time you gotta say what you say don't let anybody get in your way
Uma quadra na frente do meu irmão. Faz frio, o Sol não nasceu ainda, eu sei que ele sabe que eu tô puta.
cause it's all too much for me to take I know the roads down which your life will drive I find the key that lets you slip inside
A luz dos postes ilumina a rua com carros estacionados desde a noite passada, enquanto meu irmão se apressa, eu me apresso, cheiro de ar úmido de manhã bate na minha cara. Mal meu irmão me alcança e anda do meu lado no meu ritmo, ele ri, diz algo que os fones de ouvido atrapalham.
Kiss the girl, she's not behind the door but you know I think I recognize your face but I've never seen you before you gotta roll with it you gotta take your time, tiro um fone.
- Oi?
Meu irmão ri mais.
- Tu acha mesmo que vai andar mais rápido que eu?
Meu irmão - um redator publicitário (e estudante de Publicidade e Propaganda) de 1,92m, que nunca teve problemas com peso - apressa-se. Anda mais rápido, eu ando mais rápido, ele anda mais rápido, faz frio, o Sol não nasceu ainda, eu sei que ele sabe que eu tô puta. Eu ando quase-corro.
- Não acho nada - digo. E apresso o passo.
Sobre currículo resumido
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Olá, Luísa, Você pode me encaminhar um texto com um pequeno currículo seu para inclusão no livro? obrigada,
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Sabe morar no exterior com quinze anos de idade? Como chama mesmo? Com família americana, sotaque do Texas, ir a feiras, assistir ao primeiro rodeio de sua vida (nunca mais)? Já fiz dessas.
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Sabe italiano, inglês, francês, alemão? Estudei todos esses. Aliás, inglês até lecionei por uns oito meses. Letras, estudei. Relações Internacionais, estudo. Ciências Sociais, ênfase em política, pretendo.
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Sabe os concursos literários que tu não ganhou? Vários.
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Aquela vez que deu branco no meio do teu monólogo e tu pensou em parar tudo, levantar e pedir desculpas.
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Sabe do processo seletivo com o fósforo?
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Sabe da vez que eu tive cabelo vermelho-e-preto, listrado mesmo?
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Sabe aquela palestra de oito finais de semana sobre cultura francesa? Aquela no famoso Ano da Franla no Brasil? Aquela, que ninguém chegou aos 75% de presença, mas tu e a tua amiga foram em todas? Eu fiz disso.
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Sabe a Oficina de Criação Literária do Luiz Antonio de Assis Brasil, que tu entrou no processo seletivo meio de brincadeira no último dia? Aquela que tu achou que ia largar na metade por motivos maiores? Aquela que tu começou as aulas com dezoito anos e - logo após teus colegas e seus mestrados em Nietzsche, de Escrita Criativa, de professores da Cásper Líbero - tu foi lá na frente se apresentar e falou, com a voz baixa e olhando pro chão:
- Oi, meu nome é Luisa, tenho dezoito anos e a última graduação que eu estive foi meu ensino médio... - E ninguém riu?
Sabe? Eu fiz dessas também.
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Sabe os textos pra revista que tu mandou e ninguém te respondeu? Fiz desses.
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Sabe líder de turma? Já fui.
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Era um curso da Junior Management na escola, mas acho que eu não sabia na época. Todo mundo faz na quinta-série, entende um processo fordista de produção com canetas, ganha certificado e tudo. Nunca perguntaram se eu queria, mas interromperam minha aula de História
E estávamos eu e meus colegas sentados em volta da mesa, um encaixava uma molinha em torno da carga de tinta, outro testava, outro entregava pra professora.
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E querem um currículo resumido.
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Luisa Geisler nasceu em Canoas/ RS, em 1991. Estuda Relações Internacionais, idiomas estrangeiros e escreve. Em 2010, foi premiada no concurso "Histórias de Trabalho" (prefeitura de Porto Alegre), categoria "Histórias Inventadas (conto)". Contos de Mentira, seu livro de estréia, ganhou o Prêmio SESC de Literatura."
(como juntei e reduzi as duas imagens no PAINT por preguiça, a qualidade só piorou)
Essas são as duas amostragens de capa pro Contos, ainda não enviei uma resposta. Deixo a decisão a vocês: qual vocês curtem mais?
As respostas, UHHHH~~
Deixaram meu pronome gaudério, turururu.
Recebi um e-mail
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Copidesque (copy desk) ou passagem de texto é o trabalho editorial que um redator ou revisor de textos faz ao formatar mudanças e aperfeiçoamentos num texto.
Wiki
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sobre como meu copidesque está no correio e em breve poderei lê-lo. Medo. Tem diversos tus, será que foram sumariamente transformados em vocês?(embora alguns contos tenham você.)
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Fica a dúvida: Sobre o "tu" gauderiamente conjugado em literatura contemporânea brasileira. Sei que o Daniel Galera usou, usou inclusive no Mãos de Cavalo, um livro que foi publicado pela Companhia das Letras, então, não é sempre a casa editorial. Enfim. O Mãos se passava em Porto Alegre abertamente, então, o Daniel podia (e devia) fazer isso.
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mas também, pode ser que não mexam. tem contos que usam o tu, outros usam o você, uns se passam em São Paulo, uns em Porto Alegre, uns em um monte de aeroportos, uns em lugar nenhum específico.
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tu conjugado gauderiamente:
- Mas tu vai? - ela riu.
- Vou - Hermano olhava para o chão. - Tu não iria?
- Tu tá magoando tanta gente com isso...
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Tem autores gaúchos que fazem, outros não. (afinal, é a linguagem falada que a gente ouve)
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Opiniões sobre isso escrito, em literatura?