946-Poesia, no livro “Da via à láctea”.
Editora: Autografia, 2017.
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946-Poesia, no livro “Da via à láctea”.
Editora: Autografia, 2017.
literaturasse
O obscuro da minha mente me conduz a lugares que nem a própria luz ousaria atravessar.
É lá, no silêncio dos pensamentos sufocados, que descarrego tudo aquilo que meu peito não suporta carregar por muito tempo.
Aprendi que o coração jamais sobrevive sem a mente, assim como a mente apodrece quando se afasta do coração.
Ambos caminham ligados por correntes invisíveis, alimentando um ao outro entre a lucidez e o caos.
E por mais racional que alguém tente ser, sempre existirá um instante, ainda que breve, em que as emoções tomarão o controle dos pensamentos, como uma sombra invadindo um quarto escuro.
Porque no fundo, somos feitos muito mais das dores que escondemos do que da razão que fingimos possuir.
— V. Adrielle
Sim, eu sempre serei aquela que escuta em silêncio, que oferece o abraço antes mesmo do pedido, que usa a própria voz para aliviar as dores de alguém.
Mesmo carregando cicatrizes profundas dentro do peito, nunca soube virar as costas quando uma alma estende a mão em desespero.
Talvez esse seja o destino de quem nasceu para ser abrigo: sustentar o mundo inteiro enquanto aprende a suportar os próprios vazios sozinha.
E ainda que doa, ainda que meu peito sangre em silêncio, eu continuo me reerguendo, porque não aprendi a descansar em outros braços.
Fui feita para ser colo, não para repousar em um.
— V. Adrielle
Te amar foi, sem dúvida, a parte mais bonita que existiu em mim.
Entreguei-me sem sequer avisar minha própria consciência, apenas me deixei cair, lentamente, nas profundezas do teu amor.
Mergulhei sem medo.
E, aos poucos, fui me perdendo nas marés da tua dor.
Foi a parte mais difícil de mim.
Permanecer submersa em um amor já consumido, que não me devolvia luz, nem abrigo, nem vida.
E foi assim…
que aquilo que havia de mais belo em mim se afogou em silêncio dentro do meu próprio peito.
— V. Adrielle
Um dia, deitada em minha cama, minhas mãos repousaram sobre a barriga como quem tenta ouvir o silêncio. E, de alguma forma, minha alma já sabia: você estava ali. Um pequeno menino crescendo em segredo dentro de mim.
Mas minha mente tinha medo de acreditar. Eu não queria criar sonhos antes da hora, embora o meu maior desejo fosse justamente ser sua mãe. Então eu fingia não entender os sinais, ignorava os sintomas, tentava convencer meu coração de que talvez fosse apenas imaginação.
Até o instante em que vi as duas barrinhas surgirem diante dos meus olhos.
Eu olhei uma vez. Depois outra. E outra. Sem acreditar que aquele milagre era real. Naquele segundo, o mundo inteiro pareceu caber dentro de mim. Mil pensamentos atravessaram minha mente, mas acima de todos eles existia uma única certeza: era você, filho.
Você já florescia em meu ventre, pequeno como uma semente, mas imenso no amor que despertou em mim desde o primeiro instante.
Cada chute seu era uma conversa silenciosa entre nós dois. Às vezes doía, às vezes me tirava o fôlego, mas ainda assim me trazia conforto, porque era a prova mais bonita de que você existia. E eu te amava de uma forma tão profunda que nem precisava conhecer seu rosto para reconhecer que você já era a parte mais linda da minha vida.
— V. Adrielle
É insuportável admitir:
ninguém jamais alcançará
o abismo que se abriu no meu peito.
Não é falta,
é ruína.
O tempo vai passar por mim como lâmina cega,
me desgastando em silêncio,
enquanto eu assisto tudo em pé,
sem nunca mais transbordar.
Vou envelhecer assim,
inteira por fora,
devastada por dentro.
Porque o amor que eu te dei
foi inteiro demais,
e me deixou sem nada
pra oferecer a mais ninguém.
— Vitória Adrielle
O peso da noite recai sobre meus ombros cansados.
Caminho entre sombras que eu mesma criei,
e mergulho na escuridão que me acompanha ao longo do dia.
Aqui, o silêncio é denso, quase palpável,
e a melancolia se infiltra
não como um grito,
mas como um cansaço que não passa.
Torno-me, pouco a pouco,
refém daquilo que não sei nomear.
— Vitória Adrielle
Em alguns dias, você percebe que sustentar uma decisão é muito mais difícil do que tomá-la.
Miqueias Klippel
A escuridão me envolve como um manto silencioso, pesado e profundo.
Entre sombras e mistérios, busco o reflexo de uma luz que já não sei se existe, talvez um brilho esquecido, talvez apenas o eco do que um dia foi esperança.
E, no palco desse vazio, a dor ergue-se altiva, soberana, dançando sozinha sob os holofotes do meu cansaço.
— V. Adrielle
Não tem ninguém que venha me causar tanta dor como eu mesma me permitir sentir
"A perceção do amor
torna-se extremamente complexa
quando nunca fomos amados."
-E se tudo fosse poesia?
Parece que a morte se torna a opção mais viável a cada dia que passa.
"Talvez
eu não seja
a pessoa ideal
para alguém,
e está tudo bem!"
-E se tudo fosse poesia?