Fome.
Quem me vê por fora só enxerga o amargo de minha essência,
Mas aos poucos que me conhecem,
Experimentam meu doce âmago,
Meu cítrico espírito.
Minha quebrada carcaça não define o gosto da minha alma,
O tempero agridoce das minhas imperfeições
jamais irá sobrepor o aroma das minhas ações.
Meus olhos são adocicados,
Meus lábios amanteigados,
Meu peito é açucarado,
Mesmo que parte do meu ser esteja defumado.
Quero que prove do meu coração mentolado,
Quero que toque meu corpo delicado,
Quero que sinta o salgado de minha maresia,
Será que sente meu olhar ser denso como chocolate amargo?
Eu sou um prato refinado,
Demoro para ser preparado,
Ainda mais para ser montado,
Mas quando sou servida à mesa,
Sou muito melhor que uma sobremesa,
Pois te entregarei o gosto da permanência,
Até na mistura mais excêntrica.
Minhas artérias são insólitas,
Meu sangue etéreo,
Degustas da minha carne,
Engole da minha essência,
Dilacera os meus ossos,
E com a barriga estufada,
Diz que está satisfeito.
Tu lambe a cobertura da iguaria,
Quebra a porcelana fria em busca por mais,
Mas eu não recheio o vazio,
Eu não estou nos pratos rasos,
Eu não sacio a necessidade daquele que já está cheio.
Por que não tentas me servir também?
Deixe-me lamber o frescor da sua pele,
Mastigar a carniça dos seus atos infames,
Provar do que você me tem para dar,
Pois uma refeição apenas se torna banquete,
Se ambos enchem a mesa.











