Abaixo de Zero
Anos 50: surgem os beatniks. Sujeitos livres que agora encontravam um país para ser descoberto, com paisagens que não não eram os cacos da Zona de guerra europeia. Românticos e um tanto poéticos, eles encontraram nas drogas e religião forças impulsionadoras para expandir o próprio modo de vida e se tornaram símbolos dos Estados Unidos por algum período. Jack Kerouac assim a descreveu: uma geração de loucos, iluminados hipsters, fez subitamente a América ascender e avançar, seriamente a vadiar e a pedir boleia em todo o lado (...) significa características de uma espiritualidade especial que não agia em conjunto mas eram Bartlebies solitários olhando para fora da janela da parede nua da nossa civilização.
Anos 90: o horizonte de eventos foi devidamente explorado e nos confins do universo só resta o Enigma e a Culpa, nada entre os dois. A Humanidade agora perdeu toda e qualquer inocência e só restou saída na acumulação e no Espetáculo um modo de vida que, no fundo, já não oferece o mesmo senso de descoberta de décadas antes. Abaixo de Zero é o símbolo desse momento cultural e ontológico, específico dos norte-americanos, agora plenos vírus multiplicadores de seu Sonho apodrecido e maligno.
Em Abaixo de Zero contemplamos a frieza destrutiva de uma geração de riquinhos, que parece ver no abismo a certeza de que a vida é mera nuança da Morte. Não há fim, sentido e mal um princípio em todas as ações. Clay, o protagonista, parece o inocente que vaga em certos círculos infernais — não abrasivos, mas frios e desprovidos de qualquer emoção. Seus amigos tomam conhecimento dos pais por fofocas de revistas, ele evita sentir qualquer coisa por ser mais fácil assim. Alguns desvairados tentam quebrar essa roda perpétua com atos insanos (estupros, snuff movies).
É radical por ser vazio. Mas não um gesto em si, mas um movimento de queda. Não há nada muito depois do que o romance propôs, caso seja levado como retrato de uma geração. O que vem depois é justamente o sucesso: O Psicopata Americano, uma armadura que quase abandonou a humanidade para viver nas ruínas conceituais de um sistema que sabe perfeitamente que deu errado — e essa sabedoria melancólica é justamente a maior fonte de sua força. É o exemplo de crítica que se funde tão umbilicalmente ao alvo que pode parecer um mero espelho, um produto indistinto do mal que condena.
Por isso resta a pergunta: o que há depois disso aqui? Apenas o retorno por uma estrada sangrenta e colonizada pelo mais puro mal.















