Não sei o quanto vocês estão familiarizados com aquela plantinha de folhas verdes manchadas de branco que toda vó insiste em ter em casa, junto com as samambaias e as espadas-de-são-jorge.
Protege a casa, dizem. Afasta mau olhado. Absorve as bad vibes.
A única certeza aqui é de que é venenosa.
Talvez vocês nunca tenham se atentado pra ela, mas não faz mal. O nome científico é Dieffenbachia amoena, pra quem é dessas formalidades, e assim que eu me mudei para o apartamento que viria a ser meu primeiro lar em Berlim, me vi digitando em latim no ebay alemão.
Encontrei um anúncio. Comigo-ninguém-pode. Isso sim é nome de planta pra se ter em casa. Forte. Repetia pra mim mesma no espelho, e já era maravilhoso.
Eu atravessei a cidade até chegar num Neubau em Charlottenburg onde moravam as plantas. A dona me recebeu amigavelmente, apesar do meu pavoroso alemão. Escolhi a plantinha menor - queria começar a amizade do zero, oras - e fizemos nosso primeiro rolê de trem juntas. Ela cabia numa sacola de papel. Uma senhorinha me parou pra saber onde eu comprei aquela planta. Internet, respondi. Ela riu.
Os rolês de trem que se seguiram não foram tão confortáveis assim. Mudanças de casa, uma atrás da outra, e a planta cada vez maior e mais pesada. Fora o vento, ao qual a plantinha é extremamente sensível devido ao seu caule fino e folhagem cheia no topo - quase um coqueirinho, hoje maior que eu.
Quando comecei a compor para o novo disco, fiz uma canção chamada Dieffenbachia I. Foi a primeira música, e a primeira música diz muita coisa no fazer de um disco. Eu logo percebi que ela deu o tom de sobre o que eu queria falar. Ou seria o contrário: ela veio quando eu defini esse tom, ainda que inconscientemente.
Comigo-ninguém-pode. Ou melhor, CMG-NGM-PDE, porque é gritando, porque é internet, e porque as duas coisas são muitas vezes indissociáveis. Esse disco é um grito, sim, mas um grito virtual, que é o único possível, que é o imperfeito - que é o que queria ser perfeito, mas não há caracteres suficientes e ao mesmo tempo é o textão que cabe num quadradinho no seu bolso.
Todo dia a gente grita - CMG-NGM-PDE. Mas um dia a gente se pega repetindo pro espelho, admirados com o poder de uma palavra, que resume um ato, um limite, um reconhecimento. Quando isso acontece, a gente entendeu.












