Capítulo I - Luke
Achei que minha vida seria um tanto quanto fácil. Como eu estava enganada.
Sempre fui uma garota normal. Na verdade, eu me considerava normal, mas as outras pessoas não. Na escola, desde pequena, nas aulas de desenho, eu criava figuras que faziam meus professores me mandarem para fazer uma visitinha à diretora ao menos duas vezes por semana. Criaturas que os olhos humanos nunca haviam visto, e outras figuras, que pareceriam muito humanas se não fossem as asas e as expressões nas faces, dançavam nas páginas dos meus cadernos de desenho. O fato era que nunca tive amigos por causa disso. As crianças tinham medo de mim e os adultos me direcionavam olhares de nojo sempre que me viam. Era como se eu fosse uma doença, e qualquer aproximação contaminaria o mundo. Eu cresci e nada mudou. As pessoas continuavam olhando para mim com desprezo. Então, numa segunda-feira qualquer, algumas semanas após ter completado meus 16 anos, cansada de tudo aquilo, corri para fora do prédio da escola durante o almoço, sem rumo.
Neste dia, conheci um garoto enquanto eu estava perdida em algum lugar da cidade. Ele estava sentado na entrada de um beco escuro. Estava encolhido em um canto, as mãos cobrindo o rosto. Trajava uma calça jeans escura com furos no joelho, uma camiseta branca e estava descalço. Lembro-me de ter me aproximado contra minha vontade, com os olhos inchados, rosto vermelho e nariz escorrendo de tanto chorar, segurando um papel com um desenho que eu havia rabiscado de manhã com tanta força, que era como se a folha fosse a minha vida, e ao soltar, tudo se perderia. Quando comecei a falar com ele, colocando a mão em seu ombro, o garoto olhou para mim incrédulo, não acreditando no olhos. Minha reação não era a que eu esperava que teria. Parei de falar imediatamente e coloquei a mão sobre minha boca, o ar fugindo de meus pulmões.
Ele era pálido, tão branco quanto a neve; tinha olhos grandes e escuros, quase pretos, nos quais a íris se misturava com a pupila. Os cabelos eram lisos, tão escuros quanto os olhos, e era fácil perceber que ele precisava de um corte de cabelo, pois fios já caiam sobre seus olhos. A boca era delicada, e o nariz era pequeno e levemente arrebitado. Lindo... e familiar. Quando percebi, ele estava olhando para meu desenho, assustado, mas ao mesmo tempo, encantado. Foi então que entendi. Mesmo a lápis, meu desenho era exatamente como o menino, com uma pequena diferença: no meu desenho o garoto tinha asas.
Me apressei a falar, atrapalhada, para tentar desviar a atenção dele do papel.
― Por que você está descalço? – pronto, se ele não pensava que eu era louca ao ver o desenho, agora pensa.
― Não sei, – e pude perceber a confusão na voz dele – talvez... Espera, eu te conheço?
Comecei a gaguejar e acho que ruborizei, pois sua expressão suavizou.
― Perdão. Estou apenas assustado. É estranho que consiga me ver.
― Conseguir te ver? Claro que consigo te ver! Está sozinho em um beco, num lugar vazio, e ainda por cima é... – mordi a língua, quase falei o quão bonito ele era.
― Sou...?
― Nada, deixa pra lá. Por que está aqui?
― Estou descansando, acabei de fugir de casa. E você, por que está aqui?
― Também acabei de fugir... da escola. – Só então me lembrei do meu desenho, e o escondi atrás das costas num movimento nada discreto.
― Quem é esse no desenho? – Perguntou com a voz tensa.
Eu estava começando a me desesperar. O que eu iria responder? “Não sei”? E foi exatamente isso que eu disse.
― Eu não tenho asas – brincou ele.
Então ele tinha reparado... Ótimo.
― Meu nome é Luke. Qual é o seu? – Então, abriu um sorriso que me deixou sem ar.
― Lea. É, sou Lea. –Respondi após um tempo. – E não sei voltar para casa.
Ele sorriu novamente, me ofereceu o braço e começou a andar. No caminho me mostrou diversas construções, nas quais eu nunca havia reparado. Prédios com anjos entalhados nas paredes, casas com cenas de guerra entre anjos e demônios desenhadas nos muros. Desenhos exatamente iguais aos meus; mesmos traços, mesmo estilo. Meu queixo caiu e abri a boca para falar algo, mas o som não saiu. Como nunca havia reparado em tudo isso?
― Um dia você vai entender, Lea. – Sua voz era calma, mas sua expressão, preocupada.
Depois de mais ou menos uma hora, estávamos em frente ao sobrado onde eu morava. Dois andares, estrutura antiga, mas forte. E os mesmos desenhos que eu havia visto nas outras construções. Figuras que eu nunca tinha reparado, que eu jurava que não estavam ali naquela manhã.
― Está entregue, Lea.
Se virou, e saiu, acenando sem olhar para trás. Luke.










