Passei o final de semana na casa dos meus pais e sempre que passo mais de seis horas na casa deles, quinze minutos às vezes, descubro ou lembro, eu lembro na verdade, que, apesar de habitar um lugar confortável, com um bom nível de funcionalidade, uma decoração da qual ostento certo orgulho, incluindo itens garimpados em viagens e objetos que vou recuperando de brechós e feiras de antiguidades, sem falar da minha estante de livros que gosto mais do que de muita gente, casa casa mesmo eu só conheço a dos meus pais.
Passo semanas comemorando o fato de meu filho mastigar o feijão que cozinhei sem perguntar por que o grão de bico está salgado?, mas quando piso na cozinha da minha mãe, prometendo almoçar salada, sou arremessada numa concha com caldo quentinho e cheiro de linguiça e salsinha e em segundos descubro que aquilo que passei a semana servindo era um líquido escuro com brotos comestíveis, mas feijão feijão nunca foi.
Também considero habitar um local bastante limpo noventa e oito por cento do tempo, excetuando-se alguma louça deixada pro dia seguinte, uma tacinha de vinho esquecida ao lado do sofá e o banheiro de um adolescente que às vezes lembra o de uma rodoviária, mas assim que cruzo a Radial Leste e dou três passos na sala da casa da minha mãe me dou conta de que vivo num chiqueiro e o correto seria começar ateando fogo nas cortinas e depois de recolhida todas as cinzas, dos móveis e das roupas, despejar alguns litros de removedor e finalizar com o desinfetante dela que eu pergunto a marca toda semana para ter certeza de que é o mesmo porque na minha casa tem cheiro de qualquer coisa menos do desinfetante da casa da minha mãe.
Com as roupas é a mesma coisa. Se fizessem uma pesquisa com um grupo próximo perguntando sobre as minhas roupas, quero dizer, se alguém tivesse essa ideia absurda de investir num questionário para saber o que meus amigos e as pessoas que convivem comigo acham do aspecto visual das minhas roupas certamente a resposta dos desocupados que responderiam a uma insanidade dessas seria boa, de que são realmente roupas limpas e sempre bem lavadas e perfumadas, mas isso porque eles ainda não tiveram a oportunidade de esquecer uma peça na casa da minha mãe. Da última vez que deixei uma camiseta lá ela me escreveu dizendo que tinha lavado, ela disse assim que tinha aproveitado para lavar, é assim que ela fala. Primeiro eu quis agradecer, mas na sequência tive vontade de chorar pensando em como aquilo seria bem centrifugado depois de receber três ou quatro canecas de água fervendo imerso numa quantidade generosa - para não dizer obscena - de detergente para clarear o tecido sem falar no amaciante que ela deve mandar fazer no bairro e foi isso mesmo que ela me disse assim que me entregou a blusa, que ela nem chamou de camiseta, mas foi me entregando e reforçando que tinha mudado de cor, que a roupa agora parecia nova, deixando claro, literalmente, o trapo que estava antes, e assim que cheguei naquele local lúgubre e imundo que habito pensei em doar todas as peças do meu guarda-roupa para pessoas em situação de rua, me desculpando pela falta de zelo, pelo péssimo estado, pelas canecas de água fervendo que não usei, mas fui dormir enrolada naquele lençol que antes eu achava cheiroso, mas que depois de passar o final de semana na casa dos meus pais sei que está imprestável.
Mas nada envolvendo minha mãe e sua casa é mais humilhante do que sua gaveta de tupperwares. Prometo pra mim mesma toda vez antes de sair de casa, quer dizer, do porão em que gasto meus dias, que vou tentar me lembrar do valor que tem a vida que escolhi pra mim, e de como meu sofá é gostoso e que tenho até odorizador de ambiente, sem falar dos gastos altos com produtos de limpeza e de que essa coisa de ficar comparando, de ficar me balizando pelo selo de qualidade da minha mãe pode ser pouco saudável, mas quem me diz isso na verdade é minha analista, mas tudo - principalmente os dez anos de análise - caem por terra assim que me descuido e abro inadvertidamente sua gaveta de tupperwares. Tinha me convencido ao longo do trajeto que não faria isso dessa vez. É só você ficar longe do armário do canto, não precisa chegar lá, se ela te pedir alguma coisa corre pro banheiro e manda seu irmão buscar, inventa uma febre alta e volta pro seu albergue, qualquer coisa, mas quando vi já tinha puxado o gavetão e me entorpecido com aquela cena que nem Almodóvar em sua melhor estética é capaz de reproduzir, numa organização que coloca a vida no lugar, dá ordem às angústias mais profundas e responde aos questionamentos mais doloridos que me faço desde a tenra idade como o que estou fazendo nesse mundo?, mas quando me deparo com aquelas vasilhas perfeitamente empilhadas, separadas por cores, por tamanhos, por tipo de material, hermeticamente fechadas, capazes de guardar todo o oxigênio do mundo, os segredos mais cruéis, as façanhas mais mundanas, sem riscos ou qualquer sinal de fricção, de atrito, capaz de resolver o Yom Kippur, a crise no Oriente Médio, o problema fiscal do Brasil. Olhando para a gaveta de tupperwares da minha mãe o mundo é belo, o vento bagunça o cabelo de um jeito bom, vacas mugem felizes num pasto distante enquanto crianças de diferentes raças brincam e correm num campo verdinho abraçadas pelo som de um coral de diferentes povos que, em uníssono, reverberam palavras de amor do outro lado do oceano. Uma atmosfera bucólica, quase feliz.
Pega pra mim, filha, por favor, não tá me ouvindo?, ela devia estar falando comigo há um tempo, me pedindo a vasilha para guardar o restante do foundue da noite passada, eu entorpecida naquele mar de tranquilidade e paz, travestida de pirex com tampa, prometendo que daquela vez faria diferente, mas já sabendo que falharia miseravelmente, já deixando a cabeça cair sobre o queixo, assumindo minha derrota, dizendo baixinho em princípio, o que?, ela perguntava, não estou ouvindo, que linda, mãe, o que, minha filha?, me passa o pote, essa tupperware, e, finalmente, depois de frases desconexas e repletas de adjetivos, frases mal-ajambradas, açoitadas de advérbios de intensidade, depois disso finalmente perguntando onde você comprou, mãe?, de novo isso, o link do mercado livre que ela queria me mandar e depois dizendo deixa que eu mesma compro pra você, eu fechando a gaveta, infeliz, com as costas arqueadas, perplexa com mais um desfecho sem esperança, sabendo que não importa, que não muda, que não adianta, mãe.
Porque assim que eles cruzarem esse corredor, assim que esses recipientes deixarem essa casa, esta sim uma casa, se tornarão potes ordinários, vasilhames banais produzidos certamente às custas de trabalho escravo, feitos por crianças chinesas descalças abrigadas no fundo de um quintal sujo e desorganizado tal qual o local que habito, que desperdiço minha vida, e por isso tento me contentar com o fato de que a alguns quilômetros dali, do meu subsolo encardido, reside o mais bonito arsenal de tudo que há nesse mundo, e mais limpo e cheiroso e reciclável e sem manchas por conta das canecas de água fervendo e do detergente e que vou sempre poder chamar de casa.