Somos as poesias que os poetas não tiveram tempo de escrever. Somos o calendário que não saiu da gráfica. Somos a palavra escandida. Somos sílabas, apóstrofos, linhas, traços tortos. Somos os vestígios das palavras depois que a borracha nos apagou e reescreveu. Somos o inteligível e, por enquanto, imaginamos o inimaginável. Não vou me prolongar. Basta saber que somos. O que somos? Podemos pensar e pensar. Um dia descobriremos que não estamos respirando, escrevendo, mudando o mundo só por escrever, respirar e mudar. Vai além do que somos, se bem que o que somos já é além de qualquer coisa. Não precisa pensar. A gente gasta muito tempo nos semáforos. E somos carros, e agora somos empregos, e também casas, IPTU, IPI, e FGTs, e concreto. Esquecemos da carne, somos feitos do concreto das casas, do metal dos carros, das rodas de liga leve. Sinal verde. Não passamos. Os pedestres não atravessam. Fomos poesia. Apontem para o céu, procurem silhuetas de animais nas nuvens. Aquela parece um coelho, a outra um gato, um rinoceronte, um leão. Ninguém leva as crianças no zoológico. E esquecemos das crianças. E esquecemos que fomos crianças. E que fomos a mais pura e inocente poesia. Crescemos, fomos domesticados. Nossos pensamentos não são mais fruto da liberdade. Somos as poesias que os poetas, piedosos, não quiserem jogar no mundo. Um dia seremos plenos de versos, de rimas, de estrofes e de sentido.
Theu Souza.


















