Quando Fernanda começou a falar, André precisou reunir qualquer resquício de autocontrole que tinha para não deixar a raiva responder por ele. Queria gritar que ela não merecia chamar a Bianca de filha, tampouco chamar a si mesma de mãe. Felizmente, o loiro conseguiu respirar fundo antes de falar qualquer coisa. Ele sabia que precisava manter a cabeça no lugar para resolver toda aquela confusão, e sabia que seria uma missão difícil, mas estava disposto a tentar. Ainda tinha esperanças de que Fernanda fosse desistir da ideia de voltar e resolvesse ir embora de novo, fazendo daquele episódio só um surto do qual Bianca nunca teria conhecimento. Mas a pior parte era que, lá no fundo, ele sabia que queria que a ex-namorada ficasse em São Paulo e que eles fossem uma família de novo, como se nada tivesse acontecido. “Você quer resolver?” perguntou, cínico. “Tá bom. Pode começar explicando por que foi embora.” pontuou a frase com um olhar desafiante lançado para Fernanda. O menino se esforçava para não demonstrar o nervosismo e a ansiedade que preenchiam os instantes seguintes à sua fala. A resposta da morena acabaria com o mistério que o angustiara por três anos, mas podia muito bem dar origem a uma nova angústia, uma para a qual ele não estava preparado.
As coisas não eram bem como ele desejava, por mais que André estivesse completamente certo, não havia nada que pudesse mudar o fato de que Fernanda era a legitima mãe de Bianca - nem mesmo a tal ausência de três anos, e ainda que a morena não fosse alguém que quisesse se aproveitar daquilo, sabia poderia se manter naquela posição para lutar pelo que queria. Honestamente, se alguém perguntasse à carioca o que ela queria tirar daquela situação, ela não saberia responder ao certo. Se pudesse voltar ao tempo, com certeza nunca teria optado pela coisa mais fácil, até porque foi a causa de ela ter ficado tanto tempo impotente. "Não seja ridículo, André, eu não vim aqui pra brincar contigo." Cruzou os braços, irritada com o cinismo alheio. Ela conhecia muito bem o loiro e perfeitamente que diante de todo o rancor que ele cultivava, não era provável que aquela conversa fosse resultar num tratado de paz. "Eu vou explicar." Seus olhos se cerraram brevemente e Fer suspirou antes de começar a falar. "Você lembra do meu estado depois que a Bianca nasceu, não lembra? O fato é que minha depressão voltou com toda essa situação e eu nunca te contei, mas meus pais dedicaram a vida deles a me infernizar por conta das minhas notas. Você sabe que eles nunca gostaram da gente, de você e que a gota d'água foi eu ter engravidado, certo?" Ao passo que as palavras saíam de sua boca, seus olhos passaram a se encharcar de lágrimas. Ela sabia que seria impossível não se emocionar com ao relembrar de todas as merdas que ouvira dos pais e sobre como havia arruinado a honra daquela família. "Eu fui fraca, André, eu achei que se eu abandonasse tudo seria melhor pra todo mundo. Eu jamais poderia te fazer feliz e tampouco a Bianca, então num surto resolvi ir pro Rio, motivada pelos pais, m-m-mas... Eu juro que me arrependi no momento que peguei o ônibus pra lá, eu ia voltar o mais rápido possível... só que, só que já era tarde demais porque..." Antes que pudesse continuar o choro a calou, fazendo com que ela se sentasse a sua cama pela fraqueza que tomou conta de seu corpo. Lembrar da maneira como sua mãe ordenou os enfermeiros a prende-la numa camisa de força era como se ela ainda pudesse sentir uma facada em seu peito, nada pior do que relembrar dos seus dias naquela clínica. "...Era tudo uma armadilha, André."