DON´T LET ME GO
Rodrigo
Realmente eu precisava jogar conversa fora com meus amigos. Não que eu fosse voltar a viver sem limites, isso já tinha ficado para trás, mas de vez em quando um homem sério precisa de uma válvula de escape do “mundo dos negócios”.
Aos vinte e sete anos eu já me sentia um velho com tanta responsabilidade que me foi atribuída depois do acidente vascular sofrido pelo meu pai há mais ou menos dois anos. Joguei-me de cabeça naquela empresa, porque sabia que devia isso a ele e de certa forma a mim também. Precisava provar que eu era capaz de manter o império da família Simas intacto e é isso que venho fazendo da minha vida.
Meus amigos chegaram até a fazer apostas sobre o tempo que duraria a minha nova fase executivo. Soube por Diego que Giovana foi a única que lucrou nessa loucura. Talvez por ser minha melhor amiga e a mais perto de conhecer o meu EU verdadeiro.
Conhecemos-nos desde nossas primeiras palavras desconexas. Quando seus pais resolveram voltar ao Brasil depois de anos morando em Londres e se tornaram nossos vizinhos eu ganhei uma amiga para a vida toda.
Foi para mim que ela ligou quando um trágico acidente aéreo vitimou sua cunhada. Foi em meu ombro que ela despejou sua angustia pela sobrinha que tinha ficado órfã. Eu devia esse apoio a ela e não iria falhar. Iria estar ao seu lado naquele final de semana e finalmente iria conhecer a sua pequena.
Era assim que ela se referia a sua sobrinha de dezenove anos. Segundo Giovana, depois do acidente algo tinha se perdido para sempre naquela garota. Pelas conversas que me lembro, Juliana, como se chamava, era uma garota doce e amável. Amava dançar e para Giovana era a pessoa mais pura do mundo, mas agora parecia passar um inferno e toda a sua bondade tinha se transformado em rebeldia e ódio do mundo. Algo nisso me fazia querer conhecê-la. Algo me puxava para aquela praia muito mais do que a minha lealdade a Giovana. Isso me perturbava por dias, mas logo eu iria descobrir o porquê.
Estava levando minha pequena bagagem para o elevador quando meu celular vibrou em meu bolso. Sorri já imaginando do que se tratava. Só podia ser a única pessoa que mesmo contra o tempo ainda insistia em me achar um bebê, minha mãe.
- Fala dona Ana. – era impossível não sorrir
- Filho desculpa – podia ver mesmo que a quilômetros de distância que ela devia estar corada de vergonha por saber que eu ria – Mas é que como você não vai vir almoçar aqui amanhã, eu queria ouvir sua voz e pedir que você me prometa que vai se cuidar.
- Claro que vou. Na verdade estou pensando em pedir para alguma nativa gostosa tomar esse cuidado por mim. Cuidar de mim direitinho e quem sabe até me dá leitinho.
- Me respeita moleque! – por mais que tentasse parecer séria eu sabia que estava morrendo de vontade de rir.
- Vamos combinar uma coisa? – deixei a brincadeira de lado – Ligo a cada duas horas para que seu coração fique em paz.
- Obrigada meu amor. – senti o alívio em sua voz. – Amo você.
- Amo você.
(...)
A casa parecia estar do mesmo jeito de quando éramos criança. Olhei para cada canto minúsculo e as lembranças de minha infância invadiam meus pensamentos me fazendo sorrir feito um bobo. O cheiro de mar e o vento que gelava meu rosto eram o que mais eu senti falta. Depois que crescemos outras coisas passaram a ser prioridade em nossas vidas e aquela casa foi ficando no nosso esquecimento, mas agora aqui eu via o quanto tudo isso tinha me feito falta sem ao menos eu perceber.
Agora ali parado enquanto os outros corriam para escolher o melhor quarto eu me perguntava como mesmo sendo tão próximo de Giovana nunca tinha conhecido sua sobrinha. Lembro-me de Maurício, o filho do primeiro casamento do pai de minha amiga. Lembro que nas poucas vezes que ele veio visitar o Sr. Otto sempre fez questão de se manter longe dos pirralhos, como ele costumava nos chamar somente por sermos bem mais novos do que ele. Na época eu nem entendia, mas agora era visível que estava certo, porque não tinha uma linha tênue entre um jovem de vinte e quatro anos e duas crianças de cinco. A imagem daquele rapaz sempre decidido me veio à memória e eu me peguei imaginando como ele estaria agora. Soube por Giovana que a vida dele parecia ter findado naquele acidente também. Segundo ela o seu refúgio tinha sido o álcool e a distância que estava mantendo da única filha e essa última parte eu não conseguia entender. Na época que meu pai estava entre a vida e a morte naquele hospital eu descobri que o amor que sentia pela minha família era ainda maior. Não consigo me imaginar longe deles e se meu pai não tivesse vencido a tragédia.
- Um centavo por seus pensamentos. – ouvi a voz de Gio e me virei.
- Eles não valem tão pouco, docinho. – adorava irritá-la
- Docinho é a puta que... – bingo! A fúria estava estampada em seus olhos.
- Dona Ana não merece isso. Poxa! Ela gosta tanto de você e nem te achou parecia com o Curupira depois que um balde de tinta vermelha caiu em seus cabelos e te deixou assim.
- Seu idiota! Isso aqui é quente. – falava pegando em algumas mechas que caiam em seu rosto
- Claro que é quente. – ri – Parece que está pegando fogo! Espero que sua sobrinha tenha pelo menos os cabelos normais. Não quero me deparar com uma pirralha parecida com um avatar.
- Ela está bem pior do que isso. – Giovana falou com tristeza
- Ei! O que foi? – a puxei para um abraço. – Estou aqui com você.
- E quem está com ela? – vi seus olhos marejados. – Ela parece tão perdida na dor, mas por mais que eu queira me aproximar, ela fica mais distante. Hoje quando ela chegou eu senti um alívio. De longe tudo parecia normal como sempre foi. Juliana parece um anjo de tão linda, mas foi só eu ver a profundeza em seu olhar para saber que tudo de melhor que havia dentro dela havia sido destroçado.
- Onde ela está? – não sei oque me deu, mas senti uma enorme necessidade de vê-la.
- No quarto e suspeito que ali será seu espaço por todos esses dias. Só o silêncio Rod. Só o silêncio que obtive dela.
- Vem, vamos entrar.
Quando entramos a bagunça essa visível. Nossos amigos já preparavam bebidas e pareciam alheios ao sofrimento explanado em Giovana. Parecia que aquele final de semana iria ser muito longo e que algo estava prestes a mudar em minha vida.
Depois de alguns minutos, Giovana resolveu tentar mais uma vez e subiu para convencer a sobrinha a participar da festa que já havia sido montada lá embaixo.
Tentei tirar meu pensamento da garota que nem conhecia e entrei na bagunça também. Estávamos rindo das piadas de Carlos quando gritos começaram a se sobressair diante da música que tocava. Podíamos ouvir nitidamente as palavras duras que eram gritadas. Meu coração se apertou e o estranho que não foi por Giovana. Foi pela estranha que rondava minha mente.
Apressei indo para as escadas, mas antes que meus pés tocassem o primeiro degrau eu a vi. Eu vi um anjo caído. Um anjo que parecia mais perdido do que qualquer um ali. Eu vi a dor estampada e a fúria dando vazão ao sofrimento e isso doeu.
- Volta aqui Juliana! – Giovana berrava transtornada.
- Me deixa em paz!
- Você não pode sair assim, está de camisola! – Giovana tentava colocar um pouco de sensatez na conversa. – Você parece louca. Seu pai me disse que você estava um caos, mas não pensei que era pra tanto.
- Estou louca sim! Se o problema é essa porra de camisola. – ela parou bem na minha frente e me deu as costas olhando para Giovana que descia as escadas. – Me livro dela rapidinho.
E foi isso que ela fez. Sem nenhuma hesitação e vergonha eu vi a camisola sair de seu corpo expondo marcas roxas por toda a suas costas e barriga. Vi um corpo frágil marcado de forma cruel e isso me fez odiar quem quer que tenha cometido àquela atrocidade.
- Meu Deus! – vi o horror tomar conta de Giovana. – Quem fez isso?
- Seu querido irmão. Acho que ele pensou que castigando meu corpo me puniria pelo mal que causei com a minha existência. Ah! Não se preocupe. – ela ria sem vontade – Isso não causou dor maior do que a que eu já sinto. E mesmo depois que ele saiu me deixando sozinha que o seu sócio eu ainda estava de pé. Tão de pé que fui capaz de mesmo aos prantos deixar um velho imundo excitado o bastante para me estuprar. Viu? Eu sou forte. Ainda estou viva não estou?
Nunca eu havia me sentido tão impotente na vida. Mesmo que eu não a conhecesse quando sua vida foi devastada daquela maneira vil, eu me sentia culpado por não ter estado lá para protegê-la.
Vi Juliana sair e logo Giovana passou por todos tentado detê-la. Olhei ao redor e vi Magda chorando nos braços de Diego. Vi meus amigos sentindo também a dor daquela garota. Mesmo todo sofrimento que eu imagino que ela estava passando não foi capaz de deter sua força e isso me fazia querer estar perto dela e ser seu ouvinte para o que ela estivesse disposta a contar.
- Me solta Rodrigo! – Giovana falou quando a detive antes que ela saísse. – Eu preciso ir atrás dela. Ai meu Deus! Ela pode fazer uma besteira!
- Ela não vai te ouvir. Ver você só vai fazer com que ela sinta mais raiva, meu amor.
- E você quer que eu a deixe por aí sozinha? – ela gritava
- Deixa que eu vou. – ela me olhou espantada – Acredita em mim. Vai ser bem melhor assim. Eu sou um estranho para ela. Uma pessoa que esteve distante de tudo de bom e ruim que ela viveu. É disso que ela precisa ficar longe um pouco de tudo que fez e faz parte da dor dela. – Giovana concordou me abraçando e suplicando para que eu a trouxesse de volta em segurança. Era isso que eu iria fazer. Disso eu tinha certeza.
A praia estava escura e o frio me deu calafrios. Olhei para os lados e nem sinal dela. Já estava ficando desesperado com medo que o pior tivesse acontecido quando bem a minha frente eu a vi entrando no mar. Corri. Corri como se a minha vida dependesse disso. Eu sentia que dependia.
Antes que eu pudesse alcança-la ouvi sua voz e isso me fez parar de súbito.
- Não vou me matar. Sou muito covarde para esse ato que talvez me fizesse ser digna aos olhos de meu pai e aos meus também. Por mais que eu queira, não consigo.
- Acho que covardia não se aplica aqui. – tentei acalmar minha respiração que acompanhava as batidas loucas do meu coração. – Para alguém que ficou na frente de meus amigos tarados só de calcinha e sutiã e nem ao menos tremeu por isso eu daria um adjetivo bem melhor.
- E qual seria? – ela ainda tinha os olhos fixos na agitação do mar. – Louca? Assassina? Egoísta?
MÚSICA
- Forte. – dei um passo – Pura – mais um – Destemida – mais perto eu estava – Linda.Um anjo.
- Você diz isso porque não foi a sua vida que eu destruí. – senti uma vontade enorme de tê-la em meus braços, mas me contive.
- A não ser que esteja diante de uma terrorista, não imagino como possa ter causado aquele acidente.
- O meu egoísmo causou. – ela se virou e vi seu rosto molhado pela dor. – A minha prepotência em achar que eu era especial causou tudo isso. Arrancou do meu pai o seu amor. Deixou-me vazia e hoje eu só o que você vê uma casca podre.
- O que vejo diante de mim é alguém que sente a dor e perda do outro mesmo esse outro tendo sido tão desumano ao ponto de te deixar com essas marcas. – foi mais forte do que eu as toque e diferente dos livros não foi uma eletricidade que me tomou. Foi uma paz que quase me fez engasgar. – O que eu veio é um anjo que está perdida na dor, mas que mesmo assim luta para se encontrar.
- Seus olhos estão te enganando, fazendo você ver algo que não existe mais. Algo que mesmo que eu não queira se foi naquele acidente. Mesmo que você se engane, eu sei que é isso que eu sou.
- Vem cá. – a puxei vendo seu corpo tremer de frio e tristeza. Desconfio que precisasse daquele abraço muito mais do que ela. Quando seu cheiro doce invadiu minhas narinas eu respirei vida. A vida que eu queria para mim agora mais do que nunca. – Deixa tudo que está aqui dentro sair? Dividi comigo essa dor. Não consigo te explicar, mas eu sinto que ela é minha também. De alguma maneira estranha eu preciso te ouvir.
E foi isso que ela fez. Quando sentamos naquela areia eu fui o seu ouvinte. Fui seu cúmplice na dor. Seu amigo mais próximo. Aquele que a cada palavra sentia por ela. Aquele que estava ali somente por ela.
Juliana falou de como a culpa lhe dominava. Expos a tristeza que a matava pela falta da mãe. A culpa pela ausência e sofrimento do pai. Ela contava como estava feliz naquele dia. Contava como queria que sua mãe estivesse com ela em sua primeira apresentação solo. Falava de como a dança era importante na vida das duas e de como se dedicou para que sua mãe se realizasse através dela.
- Você entende agora que se eu não tivesse insistido tanto para que ela fosse me ver minha mãe ainda estaria aqui? Não era para ela estar naquele avião. Foi tudo um capricho de uma menina mimada que se achava a melhor bailarina.
- Não foi o capricho de uma menina que a fez pegar aquele voo. – eu a olhei firme. – Foi o amor de uma mãe orgulhosa que queria estar presente no momento importante da filha. E sabe o que eu aprendi esses anos na vida? – ela me olhou curiosa – Estamos aqui cumprindo missões. Estamos aqui para fazer a diferença na vida de alguém. Sua mãe cumpriu a dela e fez de você esse anjo lindo para fazer a diferença na minha vida. Hoje eu vim conhecer uma pirralha e me deparei com uma mulher que mesmo tendo sido tão machucada ainda encontrou desculpas para quem a feriu tão brutalmente.
E já não sufocando mais o que me tomava eu renasci. Renasci quando meus lábios tocaram os dela. Renasci quando vi um anjo descendo aquela escada. Renasci quando ela me olhou. Renasci quando naquela praia tendo a lua como testemunha eu fiz amor pela primeira vez.
Três anos depois...
Hoje além do amor que nos uniu desde aquela noite, um papel vai reafirmar que somos um do outro. O caminho até aqui foi traçado pela certeza de que éramos um do outro. Todos os dias Juliana reconstruí um pouco mais os destroços em que um dia sua vida foi reduzida. Não foi fácil perdoar, mas ela conseguiu e eu sempre estive lá para lhe afirmar que ela nunca estaria sozinha.
Vi uma filha mesmo machucada ajudar o pai a ver que a vida segue mesmo que a dor seja intensa. Que o que ainda ficou vale a pena a nossa dedicação. Vi uma mulher forte lutar por justiça. Não somente por ela, mas por todas as Julianas que têm sua inocência arrancada de maneira vil. Vi uma garota ensinar a um homem como eu o que sempre podemos ser melhores. E acima de tudo vi um anjo renascer e espalhar amor aos demais.
Giovana, que se sente como uma mãe para Juliana, agora age como uma sogra. Para seu completo desespero eu sou muito sacana para acatar suas ordens e consigo irritá-la ainda mais do que quando éramos criança. Sei que mesmo que não diga, ela sempre foi a que mais torceu pela gente.
Enquanto vejo meu anjo ser conduzida até mim por aquele que um dia eu não passei de um pirralho, eu tenho a certeza de que já nascemos amando os nossos anjos. Apenas esperamos que eles desçam à terra a nosso encontro.
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BEIJOS BEIJOS BEIJOS BEIJOS BEIJOS BEIJOS BEIJOS BEIJOS BEIJOS BEIJOS BEIJOS
Vivianne








