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Aquele estava longe de ser um bom dia para Mike. Por meses repetira para os executivos da gravadora que ele estava perfeitamente em paz com todas as suas atribuições na banda, que era fácil administrar seu tempo entre composições, reuniões, gravações vocais e de baixo, ensaios, planejamentos e todo o resto que insistia em manter sob o seu controle minucioso. A verdade é que não, não estava perfeitamente em paz com tudo aquilo e a rotina exaustiva unida ao partir repentino de Karen acabara intensificando a relação antes esporádica que tinha com a cocaína. Estava constante e notavelmente sobrecarregado, por isso, depois de alguns meses negando e desviando o assunto, a gravadora lhe mandou escolher entre o controle total e o segundo álbum de estúdio. Ainda assim, não se sentia pronto para abrir mão do baixo; Muito menos para um desconhecido. Por isso, enquanto Petri e Noah protagonizavam mais uma de suas constantes discussões, Mike se mantinha calado no banco da frente, com o rosto apoiado na mão, fitando a janela em silêncio, tentando se concentrar apenas no tremer constante de sua perna. Se arrependia brutalmente de ter colocado o pó branco em sua gengiva antes de sair para a reunião e não ao chegar lá, visto que agora todo o efeito havia passado e o único sentimento que lhe dominava era a paranoia de estar perdendo o seu posto. Geralmente ele era a voz da razão, sempre disposto a parar Petri e Noah. No entanto, dessa vez, desceu do carro calado, com os óculos escuros escondendo o dilatar de suas pupilas, e só se deu ao trabalho de arfar enquanto coçava a barba. Caminhou estúdio adentro sem sequer olhar para trás e procurar seus companheiros de banda. Tudo que mais queria era escutar o que o tal novo baixista tinha para apresentar, e se seria mesmo capaz de tocar suas músicas tão bem quanto ele próprio. A sala da diretoria da Nordskov era gigante, com grandes paredes de vidro e uma mesa imponente. Acomodado numa cadeira preta e alta estava Fred e, de pé ao seu lado, Mia, pontual e responsável como sempre. Mike contorceu os lábios num curto e quase inexistente sorriso, aliviado por ver um rosto amigo. Alguns outros executivos familiares circulavam de um lado para o outro em seus telefones. Foi ao acompanha-los com o olhar que notou um baixo acomodado ao lado do sofá de couro preto, e sentado neste encontravam-se um homem em seus 50 anos e uma adolescente com roupas da moda mexendo no celular. Provavelmente alguma nova contratada aguardando seu momento. Cumprimentou a todos com um breve aceno de cabeça, tirou os óculos do rosto sem fazer a menor questão de mudar seu semblante desgostoso, e suspirou. “Okay, let’s do this… Is the new guy late?” Perguntou, franzindo o cenho por não encontrar nenhum baixista ao redor.
Kat tinha a plena certeza de que sua vida estava arruinada. Parecia que ela seguia uma linha contínua, sempre apontando para baixo, até o fundo do poço. Quando Aaron tinha lhe dito sobre a possibilidade dela ser a nova participante de uma banda já formada, pensou ingenuamente que era apenas uma possibilidade. Algo inalcançável. Improvável. Quase impossível, era o que desejava. Mas ao acordar com a voz dele lhe dizendo “Wake up and get ready. We have a meeting with the band,” ela entrou em um pequeno choque. Foi pior do que ser acordada com um enorme balde d’água congelante. Eles discutiram e brigaram, e Aaron não se importava que ela tinha feito uma promessa de nunca mais tocar nenhum instrumento. Era isso, ou ela estaria sem um lugar para morar, desempregada, e sem ninguém para oferecer ajuda e abrigo. Sua única carta era ameaçar o relacionamento que tinham, mas ele também não se importava. Aquela banda – a maldita banda – era o que ele queria investir naquele momento e, portanto, faria de tudo para isso. Então, ele aceitou o término sem questionamentos, desde que ela fosse fazer parte da banda. Kat considerou seriamente estapeá-lo a fim de colocar o mínimo de juízo na cabeça dele, mas conhecendo-o bem, Aaron era tão teimoso quanto uma porta quando queria algo. Como aceitar a oferta era sua única opção, ela se vestiu e o acompanhou até a gravadora sem dizer uma palavra, alimentando sua raiva, decepção e o fato de depender dos outros a esse ponto. Estúpida, xingava em sua cabeça. Na sala da diretoria, ela se jogou no sofá, ao lado do baixo que tinha sido reservado especificamente para sua demonstração, contendo a vontade de quebrá-lo na parede. Em silêncio ela chegou, e em silêncio ela permaneceu; sequer prestava atenção em quem entrava. Parecia que aquele inferno era seu castigo eterno, até que finalmente viu três silhuetas adentrando e tomando seus lugares na mesa. Ela levantou os olhos para o suposto líder, o que tinha falado primeiro e que também não aparentava estar feliz com a situação. Na verdade, olhando para os outros dois, a única pessoa que parecia estar satisfeito era Aaron, na sua cadeira enorme de CEO, exalando seu poder sob todas aquelas pessoas. Kat suspirou, cansada, e guardou o celular no bolso da calça antes de se levantar. “I’m the new guy,” respondeu, encostando-se na mesa e cruzando os braços, mas não se sentando. Sua voz, como seu semblante, estava fria. “And you’re late.” Ela analisou o homem diante dela, sem esconder seus pré-julgamentos, e em seguida os outros dois. Os três pareciam ter saído de algum livro de romance adolescente, constatou. “Katarina,” disse a voz de Aaron, mais como uma repreensão do que uma apresentação. “Meet your new bandmates. Michael, Noah and Petri. And their manager, Mia.” Ele apontou para cada um que correspondia os nomes. Kat revirou os olhos, sem se mexer. “Nice to meet you.” Ela sorriu falsamente, olhando para cada um dos quatro, deixando claro que não, não era prazer algum conhecê-los.
Michael estava mais calado do que o normal, o que deixava Petri três vezes mais inquieto e insatisfeito com a situação. Não se importava nem um pouco em deixar ele tomar a liderança em toda e qualquer situação, até preferia. Quanto menos precisasse interagir e forçar sorrisos melhor para seu estado de espírito antissocial, mas diante daquilo tudo não podia estar mais estressado por Michael não estar fazendo nada a respeito. Então, tudo o que lhe restava era a boa e velha implicância infantil com Noah para diminuir sua ansiedade. - Sorry gorgeous, I hadn’t realize that I was in the presence of an official fanclub member - respondeu com um sorriso no rosto enquanto segurava a porta do elevador e fazia uma breve reverencia para Noah passar. Quando chegaram a grande sala de vidro Petri já tinha as mãos enfiadas no bolso da jaqueta e uma expressão emburrada no rosto. Passeou os olhos pela sala, ansioso por uma resposta de quem seria o novo integrante. A voz feminina tomou o ambiente e sua expressão não podia ser mais genuína quando os olhos encontraram uma mulher, aliás, uma menina, que em sua breve opinião rapidamente montada, parecia com as adolescentes de dezessete anos que faziam dancinhas no tiktok. Seus lábios abriram numa meia lua e logo a surpresa foi tomada pela confusão em um cenho franzido. - But… - Em sua mente pareciam explodir pequenos fogos de artifício a medida que tentava juntar um mais um. - You are a girl. And are you old enough to walk into a bar? - Por sorte não falou tão alto quanto pensara e só quando um nome surgiu a voz elevou e de seu rosto saiu a pouca cor que tinha. - Wait. You said K.A.T.A.R.I.N.A, right? - Falou o nome pausadamente. - With a big letter A at the end… Right? - Buscou pela resposta de Fred que parecia estranhamente feliz com toda aquela situação. Petri ficou alguns segundos congelado, apenas sentindo o peso que as memórias daquele nome lhe traziam. Correu seus olhos de Fred para Katarina e em seguida para Michael e Noah, como se alguém precisasse resolver aquele caos. E quando viu que não havia solução para aquilo, sentiu a respiração acelerar descontroladamente. - I think I am having a panic attack. I need to sit down. - Deixou o corpo cair largado no sofá branco que tinha atrás de si enquanto com dos dedos na curva do pescoço sentia o acelerar dos batimentos cardíacos. - We sooooo gonna be the next Maroon 5.
Toda vez que Noah imaginava que tolerar Petri estava se tornando gostar de Petri, algo sempre o fazia relutar. Ele não gostava do descaso com que Petri tratava uma das cantoras que mais respeitava na atualidade, e parecia ser mais pessoal do que uma simples brincadeira, na sua concepção. Talvez ele que estivesse vendo de uma forma errada, ou simplesmente exagerando. Se fosse qualquer outro dia, Noah poderia dar mais um segundo de pensamento sobre a situação, mas havia mais coisas acontecendo do que ele poderia assimilar em um estado tão cansado e sonolento. Seu rosto estava imparcial, contrariando o desgosto dos outros dois. Observando rapidamente a sala, Noah tentou julgar quem seria o novo integrante com um único olhar, mas só encontrou pessoas familiares e apenas um rosto desconhecido. Ele cruzou os braços, tentando entender e assimilar a conversa tensa que acontecia em sua frente, e finalmente arqueou as sobrancelhas quando compreendeu o desfecho daquele encontro. “Wait, what?” Ele se virou para Fred, confuso, e em seguida para Mike e Petri. Por fim, passou os olhos para a garota, a nova integrante da banda. Como eles, ela também não parecia estar feliz. Por mais frio que estivesse o seu olhar, Noah sentiu queimar, e ficou levemente acuado com a sensação de que ela guardava muita raiva dentro de si. Não conseguia imaginar o que a tinha levado até ali. “You mean she’s gonna be Mike’s substitute?” perguntou especificamente para Fred, embora seus olhos corressem por entre as pessoas ao seu redor. “Is that even possible?” Ele franziu o cenho, vendo o sorriso de Fred era brilhante, empolgado. “Katarina,” repetiu, olhando para a garota. Noah jamais se sentira tão confuso. Ele abriu e fechou os punhos, tentando conter o nervosismo e a ansiedade de escapar de seu corpo, mas toda a junção o fez soltar um riso; logo, tornou-se uma gargalhada nervosa, demonstrando quão perdido ele de fato se sentia naquele momento. Ele deveria levar em consideração de que ela realmente poderia ser um bom adendo à banda, mas tudo que conseguia pensar era que ninguém seria capaz de chegar aos pés de Mike, qualquer que fosse a justificativa para isso. “Oh, shit.”








