entre as margens 🌷
— daphne bridgerton x eleanor cavendish (leitora)
𝗮𝘃𝗶𝘀𝗼𝘀: está one-shot contém romance entre duas mulheres, amor proibido, melancolia e final em aberto
𝗗𝗮𝗽𝗵𝗻𝗲
As noites em Mayfair pareciam todas iguais.
Bailes luxuosos, música animada, vestidos cintilantes e jovens cavalheiros desfilando como se fossem peças de um tabuleiro, todos dispostos a provar sua elegibilidade.
Para Daphne Bridgerton, entretanto, aquele espetáculo soava mais sufocante do que encantador. Os olhares atentos de sua mãe, as expectativas da sociedade, as conversas superficiais que giravam em torno das mesmas cortesias e promessas de bons dotes. Nada lhe tocava o coração.
Havia aprendido desde cedo que, para uma jovem como ela, o casamento era inevitável. Ainda assim, não conseguia se interessar por nenhum dos pretendentes que lhe eram apresentados. Bonitos, talvez. Gentis, alguns. Mas nenhum lhe despertava aquilo que os romances escondidos em sua cabeceira descreviam.
Naquela tarde, cansada de sorrisos ensaiados e das mesmas perguntas repetitivas, Daphne refugiou-se na biblioteca dos Bridgerton, o único cômodo da casa onde podia respirar sem a pressão das expectativas.
Ela percorreu as estantes altas, os dedos roçando nas lombadas familiares, até que um volume menor, de capa gasta, chamou sua atenção. Não era um título que costumava ver em destaque: “As Reflexões de um Coração Silencioso”. Abriu-o por curiosidade, e logo percebeu algo diferente: nas margens, rabiscos em tinta, respostas afiadas, pequenas confissões escritas por uma mão delicada.
"O autor parece demasiado certo de si. O que ele sabe sobre o coração?" — dizia em uma anotação.
Daphne arqueou as sobrancelhas. Uma leitora atrevida. Sem ao menos perceber, sorriu sozinha.
Puxou sua pena e, hesitante, respondeu logo abaixo:
"Talvez saiba o suficiente para que nos irrite justamente por estar correto."
Fechou o livro com o coração acelerado, sem saber por que uma simples troca silenciosa a fazia sentir-se... desperta.
𝗘𝗹𝗲𝗮𝗻𝗼𝗿
Eleanor Cavendish chegará a Londres naquela mesma temporada, trazida por uma tia que a introduzira à corte como uma jovem de família respeitável, ainda que não excessivamente abastada. Nova demais para as convenções sufocantes e ousada o bastante para não se dobrar com facilidade, ela encontrava pouco prazer nos bailes, ainda que soubesse dançar com graça.
Para ela, a cidade era como um palco, e todos desempenhavam papéis. Mas os seus pensamentos verdadeiros, ah, esses viviam escondidos.
Até que encontrou, certa manhã, um pequeno livro esquecido na biblioteca de uma amiga de sua tia: a residência dos Bridgerton.
Folheou por acaso, até descobrir as margens vazias um tanto convidativas para sua pena.
E ali, sem prever, deixou escapar parte de si: opiniões sobre o amor, anseios que jamais ousaria dizer em voz alta. Nunca imaginara que alguém responderia.
Quando voltou à biblioteca e encontrou uma réplica em tinta fresca — “Talvez saiba o suficiente para que nos irrite justamente por estar correto.”
Eleanor estremeceu. Não estava sozinha.
Sentou-se rapidamente e respondeu:
"Ou irrita apenas porque desejamos que ele esteja errado."
E assim, uma conversa silenciosa começou.
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𝗗𝗮𝗽𝗵𝗻𝗲
Os dias seguintes se tornaram um tormento doce. Daphne inventava desculpas para retornar à biblioteca, abrindo o volume como quem procura ar. Ansiosa, verificava as margens, o coração disparando ao encontrar uma nova resposta.
Era estranho como algumas frases podiam iluminar sua rotina. A mão invisível parecia ler seus pensamentos, contrapor-se a eles, provocar-lhe sorrisos.
E, nos bailes, Daphne passou a reparar numa jovem que lhe era quase desconhecida. Postura elegante, um olhar atento e curioso. Seus olhares se cruzaram uma, duas vezes. Eleanor Cavendish, alguém sussurrou.
Não trocaram mais que cumprimentos formais, mas havia algo ali. Uma estranha familiaridade.
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𝗘𝗹𝗲𝗮𝗻𝗼𝗿
Também ela percebera Daphne Bridgerton. Não apenas porque todos falavam dela como o diamante da temporada, mas porque havia no olhar daquela jovem uma inquietação parecida com a sua.
Nos bailes, ao encontrarem-se em corredores ou no salão, sentia o impulso de dizer algo, mas as palavras se prendiam à garganta. E então, à noite, era nas páginas do livro que se libertavam.
"Sinto que todos usam máscaras, e temo jamais conhecer um rosto verdadeiro." — escrevera ela numa margem.
E a resposta viera, suave:
"Talvez devêssemos buscar as verdades nos silêncios, não nas máscaras."
Eleanor sorriu, reconhecendo naquela caligrafia alguém que, assim como ela, ansiava por algo mais.
As semanas passaram, e a biblioteca tornou-se um santuário secreto. Até que uma tarde, por acaso ou destino, ambas chegaram ao mesmo tempo. Daphne, com o livro contra o peito, Eleanor, abrindo a porta.
Congelaram. O silêncio era pesado, até que o olhar de uma caiu sobre o volume nas mãos da outra.
— Era você… — Eleanor murmurou, a voz quase sem fôlego.
Daphne apertou o livro, surpresa, o coração em disparada. — E era você.
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Com forme o tempo, foram se aproximando.
Mas o mundo, de fato, não lhes pertencia. As convenções eram rígidas, e ambas sabiam. No mesmo livro em que se encontraram, escreveram juntas a última mensagem, tremendo, as lágrimas borrando a tinta:
"Em outra vida, talvez."
Eleanor fechou o volume, levando o som do beijo como lembrança. Daphne o guardou na estante, como um segredo jamais revelado.
Nunca mais se viram como antes. Mas em cada baile, em cada olhar que se cruzava de longe, havia o reconhecimento silencioso do que viveram.
E, ainda que separadas, nenhuma esqueceu.
Porque entre as margens de um livro, haviam escrito a única verdade que ousaram viver.












