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📸 Alex Scolca
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ALICE IN CHAINS
August 10th 1990
📸: Alex Solca
um poema para meu amigo chelis
desde tempos imemoriais o homem corre, é certo, atrás do rabo (o próprio rabo) insistindo, ao certo, em fonemas (poemas) calculadamente além das certezas -- claro, cabo a rabo desprovidas de afeto --, incerto todo o amor que afinal buscamos; desviando, quem sabe, do acerto certamente, para lá do razoável.
e, dentre tantos acasos, -- pois os casos contamos nos dedos -- que nos trazem aquela alegria louca, são os casos em que casam os destinos;
não é prova pouca que o que provoca a dor é o que invoca relação pertinente (ou não) ao coração.
e, nessa prosa esquizofrênica, a que comprova a disposição torta e evoca aquele mesmo sentimento de quando nos deparamos com algo surreal.
memórias que vem para ficar; eventos a se desenrolar; que enrolam os fios de diferentes vidas; momento em que sabemos que, ao final de tudo, lembraremos
de um olhar; um toque; a vida: toda contida num limiar de sorte; um momento -- o vento -- que sopra aqueles familiares dizeres:
coisas vão, pessoas vem para ficar; nada é muito, e tudo é pouco, praquele que sabe enxergar.
porto das águas
etéreas nuvens cruzaram o céu enquanto eu cruzei universos e os trilhos que percorri, frios e perversos, como faca cortaram minha carne e deixaram, pra ti, apenas o melhor de mim.
e mesmo que eu não soubesse ainda onde exatamente te encontrar, o vento me levou até você
e mesmo que eu não soubesse ainda com quais olhos te olhar sua voz me levou ao lugar
e quando te vi como ao virar a esquina e todos os quilômetros de jornada e todos os meses intermináveis concluíram-se assim, e eu finalmente vi
e quando te ouvi como uma música antiga e todas as vozes incaláveis dentro e fora da minha cabeça calaram-se assim, e eu finalmente ouvi
e quando te senti como um anjo em vida e todos os tremores cessaram e todos os futuros convergiram restou-me apenas você, garota, apenas você;
e em instantes, tudo fez sentido; meu mundo fez sentido, a neblina se esvaiu, e sobrou-me apenas o orvalho a escorrer do rosto; pois eu quero, amor, mas não posso agora levar-te para casa.
eldorado
Um anjo é um caminho e uma porta, e a dor é a sombra da escuridão que reflete parte da luz contrária à que tanto se perdura a sofrer, sem antes regurgitar, é claro, entranhas suscetíveis ao afeto, amanheceres emaranhados entre os caminhos das aves que indicam o norte-sul, e a procissão de pontos cardeais que rodopiam na mente da menina que se fez bússola, mas que perdeu seu norte magnético, a inspiração ou o vento da manhã.
Sombra é a dor, mas não é escura, pois escuro é o desconhecido, e a dor conhecemos muito bem.
Recedemos ao mesmo, andamos a ermo, ventres ao léu e não percebemos, que vendemos nosso âmago a preço de barganha em cada breve esquina que cruzamos, sem nem saber a quem.
E vinte-mil anos, tudo: cada passo, uma floresta; rica, densa floresta, esconde mistérios, segredos; e entre montanhas e vales, através de quedas d'água, rios tortuosos, mangues - o singelo brilho dourado é mais do que suficiente para atrair do espírito do tempo essa solitária alma num caminho que se esqueceu; antiga lenda; profundeza; tesouro imensurável - imensidão.
a esperança
que a graça esteja / com quem estiver
e onde for que esteja / que seja
tudo o que acolhe / sombra que escolhe
a cor da roupa / corte, querer
sempre que seja, então / eu, zelador?
que eu olhe adiante / seja qual cor,
que eu seja constante / não sem me opor
ao pólo adiante / seja qual for
desentenda, meu bem / seja o que for
chuva
nem me lembro da última vez que choveu e minha alma parece tão fina prestes a despedaçar mas as nuvens avançam nervosas pelo ar seco e as silhuetas das árvores que sombreiam as luzes laranja da cidade me escrevem o seu nome e eu sei que é você a me salvar.
e um trisco de umidade nesse ar me acende a nostalgia e eu me sinto vivo e, humildemente, esperançoso, por esse mundo cruel.
e parece que sim, a chuva virá, implacável; e encharcará cada alma que vive aqui nesse deserto seco.
e molhará assim meu rosto, e limpará a sujeira da minha pele, e mais uma vez eu vou estar limpo e a primeira coisa que farei será sentir você mais uma vez.
olhos
é noite, então com tremor, eu me despeço dos raios do bom sol. nossos passos são um só e o que há em minhas mãos são as marcas dos teus dedos que tão firme e com amor seguraram os meus.
eu armo meus olhos pra lutar pois eu sei que é preciso; eu abro meus olhos pra você poder voltar a onde você pertence, que é dentro de mim.
e não há nada, mas nada, que impeça o meu caminho quando você me tem nas mãos.
então abre seus olhos primavera, e olha pra mim é tudo nosso, meu bem. vamos embora vamos viver além.
nuvem
eu vivi a manhã e tomei o café; eu corri contra o vento que sopra gelado na face; eu torci o nariz ao sentir o cheiro de carniça enquanto passava pelos que não tiveram a mesma sorte que eu.
eu roubei os mapas que ninguém deveria ter e naveguei; eu remei o que remariam quinhentas pessoas, e descobri que pra descobrir, eu não precisaria nem ter saído.
e a surpresa minha ao chegar onde eu achei que queria estar foi que ali não se encontrava, afinal, nada do que eu realmente queria.
eu vivi a noite e traguei o cigarro; eu corri dos meus medos que sempre me perseguiram; eu tomei da bebida junto ao diabo; me aventurei longe do raso; passei noites inteiras em claro.
e descobri que é verdade o que eles dizem sobre o sol: às vezes é preciso um pouco de calor pra não congelar; mas às vezes eu preciso que uma nuvem brava me dê a sombra que eu preciso pra poder pensar.
black
eu te amo como as estrelas amam o sol,
mesmo que você ofusque o meu brilho
e, no dia, o céu seja um só azul.
eu te amo como a areia ama as ondas do mar,
mesmo que me revirando e me triturando,
pois sou pleno seja à sua margem ou dentro de ti.
eu te amo como o escuro ama a luz,
e mesmo que eu só exista sem você,
na penumbra entre nós é onde acontece toda a magia.
eu te amo como o lobo ama a lua,
e mesmo que você se esconda atrás do planeta,
eu sempre irei cantar pra você.
eu te amo como o homem ama o tempo,
mesmo que você vá algum dia me destruir
e que eu nunca entenda completamente você.
você é um ponto de luz,
uma criatura de inspiração
você é um enigma insolúvel
que se resolve sozinho
e se reorganiza de novo,
em outro estado superior
em complexidade
e em beleza.
você tem o rosto que
domina minha memória
e sempre dominou;
você tem a alma
que completa a minha
e a gente nem começou;
e se você veio me buscar
me leva logo embora
que eu não aguento mais viver aqui.
é tudo preto e branco sem você
e se você quiser dar uma volta
pelas bordas do planeta
faça sua vida, você é livre;
só se lembre de acenar
quando eu passar por ti,
cometa.
vômito 2
imerso em futilidades eu busco sentidos que eu sei que não vou achar respostas que eu sei que não vão me dar caminhos que eu sei que não vou andar
sem motivo eu corto meus lábios, brusco as cores que eu sei que eu nunca vou ter os dias que eu sei que não vão morrer em momentos sinistros, não vistos
discorro no papel o que sinto mas nunca me acho no padrão quanto mais escrevo, mais perco a fração que me faltava de noção de fazer o que deve ser feito ou dizer o que devia dizer coagir com a massa que transborda, perdida na montanha-russa do cotidiano e há tantas palavras dentro de mim e eu me perco com tanta coisa que há a descrever e estrofes que nunca se acabarão
eventualmente algo há de quebrar a linha ou pelo menos fazer algum tipo de sentido nesse calor goiano
e há tantas palavras e tão pouco significado nesse vômito e que puta inspiração que eu não estou tendo talvez um certo despreparo ou ódio particular ou então a dose errada de desprezo por parte dos outros mas tudo bem, afinal só não precisava ser assim disgraça
home
só, eu não sustento mais a energia de criação de universos, a sinergia pra comunicação que não faz sentido, a exposição aos raios solares que vai me fazer rachar, a longa jornada que nem começou e eu só quero terminar.
porém eu não sou mais e não novamente serei um andarilho das ruas da solidão; ente perdido entre os quinze estados ou sete pecados que me separam do lugar do qual vim; ou forma amorfa atrás do muro sempre com os olhos a fechar.
a perdição é inércia; a salvação, movimento. e se o meu passo por ora fica lento, você corre à minha frente, e eu sempre irei atrás de você.
mas se você me dá a mão, e você sempre a estende até mim, por mais longe que eu esteja, afundado em mágoa ou qualquer outra bobagem, meus pés lentamente descolam do chão, flutuam brevemente pelo ar, e me deixam levemente me afogar, respirar você inteira como ar, me mudar pro seu abraço e lá morar.
canção primavera
antes de tudo, meu bem, olha pra lá, que a minha carne já treme por ti, e a energia estática de todo nosso atrito pode ser a faísca a incendiar meu coração.
quero que venhas a mim como se fosse o último dos dias de verão, a última onda de iemanjá a lamber os calcanhares ou a mão;
quero que fales comigo com a dor de quem passou tempo distante, de quem sabe tudo o que há, de quem achou sua alma gêmea e a perdeu em solidão;
quero que olhes pra mim como se eu for aquele beija-flor em seu deserto, um cobertor numa noite de inverno, a cobra que matou, de certo, aquele seu pior inimigo.
me mostra seus olhos, primavera; que eu sou o verão; me conta os seus sonhos, ou as aventuras nas noites sombrias que passamos juntos numa dimensão além.
me mostra seus olhos, primavera; eu sou o deserto; e eu preciso de todo, ou pelo menos de um pouco, do teu deslumbrante verde pra raiar.
poesia sem fim
não há nada a dizer nesse ciclo sem fim que acabou aqui só há silêncio, tão alto, tão forte, que silencia qualquer ruído que possa ter sobrado das oscilações das gargantas de qualquer um que à minha frente se colocou.
e o sol fervente não toca a minha pele, apesar do suor mas pelo menos o vento me resfria. a comoção que me sai é passageira, assim como minhas ideias, e logo que sai, termina. e eu acho que sou só mais um a passar por aqui.
nesse mundo alheio, falso-virtual eu sinto a abstinência de impulsos e as vibrações que carrego decaem em pulsos deficientes de amor ou compreensão.
e eu não sei mais o que dizer.
poderia alguém me mandar um sinal para que eu saiba a que lado projetar meus esforços de sinapse social nessa dimensão escura e sem graça.
e esse poema não terá final.
overdose
no auge da seca, deserto sombrio o tempo nublado vem junto do vento que é frio e me sopra saudade de onde um dia eu pertenci; espirais de fumaça penetram o tempo enquanto meus sonhos me lembram como é contigo; orações a deuses menores cotidianos, um uivo cantante, lamento psicografado em grafia ruim. hoje por um dia só chove molhando a estrada que percorro e minhas bochechas cansadas de sorrisos falsos, hipocrisia em meio a rastros de ontem à noite: meus olhos deserto seco, os seus primavera. hoje em dia a chuva passou e resta o céu azul e o calor àqui eu pertenço, eu sei nas minhas galáxias, manhã de ressaca órbitas redundantes, cometa constante. escalada errante à torre de babel um canto sozinho à folha de papel o espaço que você me deixou encanto em mim que você largou energia líquida que evaporou, das trilhas distantes que ao meu reino vem, tudo o que eu quero é você, meu bem.
choro
eu acordo sozinho nessa manhã fria e os atos de ontem são nada mais que traços na minha pele que variam de cor, mas não profundidade e o que eu fizera pro amanhã chegar mais cedo na verdade me afogou. cada dia que eu perco assim entoa mais uma canção de berço, mais uma torção do beiço, mais uma gota de água e sal a escorrer quente pela pele; lágrima que eventualmente chega ao chão do calabouço ao meu redor e discretamente preenche as lacunas antes ocupadas pela poeira e pelo pó; lentamente se acumula a suas irmãs, inunda a cela de meus irmãos sem culpa, mata afogado o mundo todo no oceano que ele mesmo criou.