Olá, meu nome é Geovanne Passos, 23 anos, estudante de Engenharia Civil, e, nas horas vagas, leitor assíduo. Católico, devoto da Santíssima Mãe de Deus, São Padre Pio, São Francisco de Assis, São João Bosco e escravo de Jesus pelas mãos puríssimas da...
A ESCADA DO CLAUSTRO
Carta de Dom Guigo, Cartuxo,
ao Ir. Gervásio, sobre a vida contemplativa
I
Ao seu dileto irmão Gervásio, o Ir. Guigo: o Senhor seja o seu deleite.
Amar-te, irmão, é para mim uma dívida, pois foste tu que, primeiro, começaste a me amar. E sou obrigado a te responder, porque, anterior, tua carta me convida a escrever-te.
Proponho-me, assim, a te transmitir certas coisas que pensei sobre o exercício espiritual dos monges, a fim de que possas julgar e corrigir meus pensamentos a propósito de um assunto que tu melhor conheces por experiência, do que eu pela reflexão.
É justo que eu te ofereça, em primeira mão, as primícias do meu trabalho. Pois convém que colhas os primeiros frutos da recente plantação que, em louvável furto, subtraíste à servidão do Faraó e à mole servidão, e colocaste no exército em ordem de batalha, enxertando sabiamente na oliveira o ramo habilmente cortado da oliveira selvagem (cf. 81144,2; Ex 13,14; Ct 6,3.9 e Rm 11,17.24).
II
Os quatro degraus
Um dia, ocupado no trabalho manual, comecei a pensar no exercício espiritual do homem. E eis que, de repente, enquanto refletia, se apresentaram a meu espírito quatro degraus espirituais: a leitura, a meditação, a oração, a contemplação.
Esta é a escada dos monges, que os eleva da terra ao céu. Embora dividida em poucos degraus, ela é de imenso e incrível comprimento, com a ponta inferior apoiada na terra, enquanto a superior penetra as nuvens e perscruta os segredos do céu (cf. Gn 28,12).
Estes degraus, assim como são diversos em nome e em número, também se distinguem pela ordem e o valor.
Se alguém examina diligentemente suas propriedades e funções, o que produz cada um deles para nós, e como diferem e se hierarquizam entre si, achará pequeno e fácil por sua utilidade e doçura todo o trabalho e esforço que lhes dedicar.
A leitura é o estudo assíduo das Escrituras, feito com aplicação do espírito.
A meditação é uma ação deliberada da mente, a investigar com a ajuda da própria razão o conhecimento duma verdade oculta.
A oração é uma religiosa aplicação do coração a Deus, para afastar os males ou obter o bem. A contemplação é uma certa elevação da alma em Deus, suspensa acima dela mesma, e degustando as alegrias da eterna doçura.
Notada, assim, a descrição dos quatro degraus, resta-nos ver a função de cada um em relação a nós.
III
Qual a função de cada um dos citados degraus
A leitura procura a doçura da vida bem-aventurada, a meditação a encontra, a oração a pede, a contemplação a experimenta.
Por isso o Senhor mesmo diz: Buscai e encontrareis, chamai e se vos abrirá. Buscai lendo e encontrareis meditando, chamai orando e abrisse-vos contemplando.2
A leitura, de certo modo, leva à boca o alimento sólido, a meditação o mastiga e tritura, a oração consegue o sabor, a contemplação é a própria doçura que regala e refaz.
A leitura está na casca, a meditação na substância, a oração na petição do desejo, a contemplação no gozo da doçura obtida. Para que se possa ver isto de modo mais expressivo, suponhamos um exemplo entre muitos.
IV
A função da leitura
À leitura, eu escuto: Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus (Mt 5,8).
Eis uma palavra curta, mas cheia de suaves sentidos para o repasto da alma. Ela oferece como que um cacho de uva. A alma, depois de o examinar com cuidado, diz em si mesma: "Pode haver aqui algum bem, voltarei ao meu coração e tentarei, se possível, entender e encontrar esta pureza. Pois é preciosa e desejável tal coisa, cujos possuidores são ditos bem-aventurados, e à qual se promete a visão de Deus, que é a vida eterna, e que é louvada por tantos testemunhos da Sagrada Escritura".
Desejosa de explicar mais plenamente a si mesma esta coisa, começa a mastigar e a triturar essa uva, e a põe no lagar, enquanto excita a razão a procurar o que é e como pode ser adquirida tão preciosa pureza.
V
A função da meditação
Começa, então, diligente meditação. Ela não se detém no exterior, não pára na superfície, apóia o pé mais profundamente, penetra no interior, perscruta cada aspecto.
Considera, atenta, que não se disse: Bem-aventurados os puros de corpo, mas, sim, "os puros de coração". Pois não basta ter as mãos inocentes de más obras, se não estivermos, no espírito, purificados de pensamentos depravados. Isto o profeta confirma por sua autoridade, ao dizer: Quem subirá o monte do Senhor? Ou quem estará de pé no seu santuário? Aquele que for inocente nas mãos e de coração puro (Sl 24,3-4).
Depois ela considera quanto o próprio profeta deseja essa pureza, ao orar: Cria em mim, Ó Deus, um coração puro (Sl 51,12) e ainda: Se olhei a iniqüidade no meu coração, o Senhor não me ouvirá (Sl 66,18).
A meditação pensa em como era o bem-aventurado Jó solícito por essa guarda, pois dizia: Fiz um pacto com os meus olhos para não pensar em nenhuma virgem (Jó 31,1). Eis como se dominava o santo homem . que fechava seus olhos para não ver o que é vão, evitando olhar imprudentemente o que depois desejaria contra a sua vontade.
Depois de ter refletido sobre esses pontos e outros semelhantes no que toca à pureza do coração, a meditação começa a pensar no prêmio:
Como seria glorioso e deleitável ver a face desejada do Senhor, mais bela do que a de todos os homens (Sl 45,3), não mais abjeta e vil (cf. Is 53,2), não mais tendo a aparência com que o revestiu sua mãe, mas envergando a estola da imortalidade, e coroado com o diadema que seu Pai lhe deu no dia da ressurreição e da glória, o dia que o Senhor fez (Sl 118,24).
Ela concebe que nesta visão haverá aquela saciedade esperada pelo profeta, ao dizer: Serei saciado quando aparecer a tua glória (Sl 17,15).
Vês quanto licor emanou daquela pequena uva, quanto fogo nasceu duma centelha, quanto se alargou na bigorna da meditação, este pequeno pedaço de metal: Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus!
Mas, quanto mais poderia alargar-se, se alguém experiente viesse ajudar!
Sinto como "é fundo o poço", mas não passo ainda de um noviço rude, que mal cheguei a tirar poucas gotas.
Inflamada por esses fachos, incitada por tais desejos, a alma começa a pressentir, quebrado o alabastro, a suavidade do ungüento. Não é ainda o gosto, mas é já o cheiro.
Por esse, a alma compreende quão suave seria experimentar essa pureza, cuja meditação a faz saber quanta alegria ela dá. Mas que fará ela?
Ardendo ao desejo de possuí-Ia, não encontra em si como a pode ter.
E quanto mais a procura, mais tem sede.
Enquanto se dá à meditação, sua dor aumenta, porque ainda não sente a doçura que a meditação mostra existir na pureza de coração, mas sem a dar.
Porque não cabe a quem lê nem a quem medita sentir tal doçura, se não recebe do alto (10 19,11) esse dom. Ler e meditar é comum tanto aos bons quanto aos maus, e os próprios filósofos pagãos encontraram, pelo exercício da razão, em que consiste, em suma, o verdadeiro bem.
Mas, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus (Rm 1,21) e, presumindo de suas forças, diziam: Venceremos graças à nossa língua, nossos lábios são nossos (Sl 12,5). Assim, não mereceram receber o que tinham podido ver. Perderam-se em seus pensamentos (Rm 1,21), e a sua sabedoria foi devorada (Sl 107,27)
A sabedoria deles tinha as suas fontes no estudo das ciências humanas, e não no Espírito de sabedoria que é o único a dar a verdadeira sabedoria, isto é, a ciência saborosa que alegra e nutre, com inestimável sabor, a alma que a possui. É dela que foi escrito: A sabedoria não entrará na alma perversa (Sb 1,4).
Esta procede só de Deus. E como o Senhor deu a muitos a missão de batizar, mas guardou só para si o poder e a autoridade de perdoar os pecados pelo batismo, o que levou João a dizer, por antonomásia e de modo preciso: É ele que batiza, assim também podemos dizer: É ele que dá sabor à sabedoria, e faz saborosa a ciência da alma.
A palavra é dada a todos; a sabedoria do espírito, que o Senhor distribui a quem quer e quando quer (cf. 1 Cor 12,11), a poucos é dada.
VI
A função da oração
Vendo, pois, a alma que não pode por si mesma atingir a desejada doçura de conhecimento e da experiência, e que quanto mais se aproxima do fundo do coração (Sl 64,7), tanto mais distante é Deus (cf. Sl 64,8), ela se humilha e se refugia na oração. E diz: Senhor, que não és contemplado senão pelos corações puros, eu procuro, pela leitura e pela meditação, qual é, e como pode ser adquirida a verdadeira doçura do coração, a fim de por ela conhecer-te, ao menos um pouco.
Eu buscava, Senhor, a tua face, a tua face Senhor, eu buscava (cf. Sl 27,8); meditei muito tempo em meu coração, e na minha meditação cresceu um fogo (cf. Sl 39,4) e o desejo de te conhecer ainda mais.
Quando me repartes o pão da Sagrada Escritura, na fração do pão te tomas. conhecido por mim (cf. Lc 24,35). E quanto mais te conheço, tanto mais desejo conhecer-te, não já na casca da leitura, mas no sabor da experiência.
Isto não peço, Senhor, por meus méritos, mas pela tua misericórdia.
Confesso-me indigna pecadora, mas até os cãezinhos comem das migalhas que caem da mesa dos seus donos (Mt 15,27).
Dá-me, pois, Senhor, o penhor da herança futura, uma gota ao menos da chuva celeste, para arrefecer a minha sede, pois ardo de amor (cf. Ct 2,5).
VII
Efeitos da contemplação
Com essas e outras palavras, a alma inflama o seu desejo, mostra assim o que nela se fez, por encantações invoca o seu Esposo.
E o Senhor, cujos olhos são fixos nos justos e cujos ouvidos estão não só atentos às suas preces (cf. Sl 34, 16), mas presentes nelas, não espera a prece acabar. Pois, interrompendo o curso da oração, apressa-se a vir à alma que o deseja, banhado de orvalho da doçura celeste, ungido dos perfumes melhores.
Ele recria a alma fatigada, nutre a que tem fome, sacia a sua aridez, lhe faz esquecer tudo o que é terrestre, vivifica-a, mortificando-a por um admirável esquecimento de si mesma, e embriagando-a, sóbria a torna.
Como em certas funções carnais a alma se deixa a tal ponto vencer pela concupiscência, que perde o próprio uso da razão e o homem se toma todo carnal, assim, ao contrário, nessa contemplação superior, os movimentos carnais são de tal modo vencidos e absorvidos pela alma, que a carne não contradiz em nada ao espírito, e o homem se torna quase todo espiritual.
VIII
Sinais da vinda da graça
Mas, Senhor, como descobrir quando realizas tudo isso, e qual é o sinal da tua vinda?
São, por acaso, os suspiros e as lágrimas os mensageiros e testemunhas da consolação e da alegria? Se assim é, estamos em presença duma nova antinomia e de uma significação inusitada.
Qual é, com efeito, a relação entre consolação e suspiros, alegria e lágrimas? Se é que se podem chamar lágrimas estas lágrimas, e não antes, abundância transbordante do orvalho interior derramado do céu, indício da purificação interior, limpeza do homem exterior.
No batismo de crianças, a purificação do homem interior é figurada e significada pela ablução exterior. Aqui, ao contrário, a purificação exterior procede da ablução interior.
Ó felizes lágrimas, pelas quais são lavadas as manchas interiores, e as labaredas do pecado se apagam! Bem-aventurados os que assim chorais, porque rireis (cf. Mt 5,5).
Nessas lágrimas reconhece, ó alma, o teu Esposo, abraça o Desejado, embriaga-te em torrente de delícias, suga do seio da consolação o leite e o mel. Estes são os maravilhosos presentinhos e consolos que teu Esposo te distribui e concede, isto é, tuas lágrimas e suspiros.
Ele te trouxe nessas lágrimas a poção sob medida, o pão de dia e de noite, aquele pão que confirma o coração do homem e é mais doce do que o favo de mel.
Ó Senhor Jesus, se são tão doces essas lágrimas que brotam da tua lembrança e do teu desejo, quão doce haverá de ser o gozo experimentado em tua visão manifesta!
Se é tão doce chorar por ti, quanto mais doce será gozar de ti?
Mas, por que exprimimos de público tais secretos colóquios? Por que me esforço por revelar em termos comuns essas inefáveis ternuras? Os que não as experimentaram, não as compreenderão. Eles as leriam mais claramente no livro da experiência, onde a unção divina ensina por si mesma (cf. l Jo 2,27).
De qualquer modo, porém, a letra exterior não aproveita ao leitor, pois a leitura da letra exterior é de pouco sabor, a não ser que uma explicação tire do coração o sentido interior.
IX
A graça se esconde
Ó minha alma, prolonguei por muito tempo este discurso. Pois era bom para nós estar ali, e contemplar com Pedro e João a glória do Esposo, e ficar largo tempo com ele, se ele quisesse fazer ali não duas, nem três tendas (cf. Mt 17,4), mas uma só em que estaríamos juntos, e juntos nos deleitássemos.
Mas eis que já diz o Esposo, Deixa-me partir, pois já sobe a aurora (Gn 32,26), já recebeste a luz da graça e a visita que desejavas.
Dada, pois, a bênção e mortificado o nervo da coxa, e mudado o nome de Jacó para Israel (cf. Gn 32,25-32), o Esposo longamente desejado se retira por um pouco de tempo, depressa escapa.
Ele se arreda, tanto em relação à visita de que falei, quanto à doçura da contemplação. Mas permanece sempre presente, quanto à direção, à graça, à união.
X
Como a ocultação da graça coopera para o nosso bem
Mas não temas, esposa, não desespere, não penses que és desprezada, se o Esposo te oculta por algum tempo a sua face. Tudo isso concorre ao teu bem (cf. Rm 8,28), e ganhas com a partida e com a vinda.
Ele veio para ti, e é também para ti que ele se afasta. Vem para a consolação, afasta-se por cautela, a fim de que a grandeza da consolação não te ensoberbeça, evitando que a presença contínua do Esposo, te leve a desprezar as companheiras e atribuas a consolação não à graça, mas à natureza.
Esta graça, o Esposo a concede quando quer e a quem ele quer, e não se possui como direito hereditário. É conhecido o provérbio que diz que a familiaridade excessiva gera o desprezo. Ele se afasta, pois, para não ser desprezado, se é demais assíduo, e para que, ausente, seja mais desejado, e desejado seja procurado com maior ardor, e longamente querido, seja, enfim, achado com maior alegria.
Além disso, se nunca faltasse essa consolação, que em relação à futura glória a revelar-se em nós (cf. Rm 8,18), é enigmática e parcial, talvez julgássemos que temos aqui cidadania permanente e procuraríamos menos a futura.
Assim, para não tomarmos o exílio por pátria, o penhor pelo pleno valor, é que o Esposo vem de tempo em tempo, ora trazendo consolação, ora a substituindo pelo leito de doente (cf. 8141,4).
Ele permite que saboreemos por um pouco de tempo a sua doçura, mas antes que ela seja plenamente sentida, ele se esvai. Assim, voejando sobre nós de asas abertas, ele nos provoca a voar (cf. Dt 32,11), como se dissesse: Experimentastes um pouco da minha suavidade e doçura, mas, se quereis saciar-vos plenamente, correi atrás de mim ao odor dos meus perfumes (cf. Ct 1,3), levantai os corações para o alto onde estou à direita do Pai. Aí me vereis, não mais em figura e em enigma, mas face a face, e então, o vosso coração gozará plenamente, e o vosso gozo ninguém vos tirará (Jo 16,22).
XI
Com que cuidado a alma se deve comportar depois da visita da graça
Mas, acautela-te, ó esposa. Quando o Esposo se ausenta, não vai para longe. Se não o vês, ele sempre te vê. Ele é cheio de olhos à frente e atrás (cf. Ez 1,18). Jamais podes fugir da sua vista. Tem junto de ti seus enviados, espíritos que são como que mensageiros muito sagazes, que vejam como te conduzes na ausência do Esposo, e te acusem diante dele se descobrirem em ti algum sinal de impureza e de leviandade.
Este Esposo é cheio de zelo. Se, acaso, acolheres um outro amante, ou te empenhas em agradar mais a um outro, ele logo se afasta de ti e se une a outras virgens fiéis.
É delicado esse Esposo, é nobre, é o mais belo dos filhos dos homens (Sl 45,3), e assim, não quer ter uma esposa senão perfeitamente bela. Se ele vir em ti uma mancha, ou uma ruga, logo desvia o seu olhar.
Ele não suporta nenhuma impureza. Sê, pois, casta, sê reservada e humilde, para merecer a visita freqüente do teu Esposo.
Temo que este discurso se tenha prolongado demais, mas a matéria abundante me obrigou a isto, assim como a sua doçura. Não prolonguei por minha espontânea vontade, foi o seu encanto que me arrastou sem sentir.
XII
Recapitulação do que foi dito
Para que se possa ver melhor em conjunto o que foi dito em forma mais desenvolvida, vamos recapitulá-lo em resumo.
Assim como foi notado nos exemplos propostos, podes ver como os ditos degraus se ligam uns aos outros entre si. E como um precede a outro, tanto no tempo, como na casualidade.
Qual primeiro fundamento, vem a leitura. Ela fornece a matéria e nos leva à meditação.
A meditação, por sua vez, perscruta com maior diligência o que se deve desejar, e como que cavando, acha e mostra o tesouro. Mas, como não pode por si mesma obtê-lo, leva-nos à oração.
A oração, elevando-se a Deus com todas as suas forças, obtém o tesouro desejável, a suavidade da contemplação.
Sobrevindo a contemplação, ela recompensa o trabalho dos três degraus referidos, embriagando. a alma sedenta com o orvalho da doçura celeste.
A leitura é feita segundo um exercício mais exterior; a meditação, segundo uma inteligência mais interior; a oração, segundo o desejo; a contemplação passa acima de todo sentido.
O primeiro degrau é dos principiantes; o segundo, dos que progridem; o terceiro, dos fervorosos; o quarto, dos bem-aventurados.
XIII
Como os mesmos degraus são ligados uns aos outros
Estes degraus são de tal modo ligados, e de tal forma servem uns aos outros, que os precedentes pouco ou nada aproveitam sem os seguintes, e os seguintes, por sua vez, nunca ou só raramente, podem ser adquiridos sem os precedentes.
Que adianta, com efeito, ocupar o tempo em contínua leitura, percorrer os feitos e os escritos dos santos, se não exprememos o seu suco, mastigando e ruminando, e não o passamos até ao mais íntimo do coração, engolindo, a fim de por eles considerarmos diligentemente o nosso estado, e cuidarmos de praticar as obras daqueles cujos feitos queremos ler freqüentemente?
Mas, como haveremos de cogitar estas coisas, ou como poderemos evitar que, meditando coisas erradas e vãs, se transgridam os limites constituídos pelos santos Pais, a não ser que sejamos antes instruídos a tal respeito pela leitura ou pelo ensino?
O ensino, de certo modo, se relaciona com a leitura, o que nos leva habitualmente a dizer que lemos para nós mesmos ou para os outros, mas também o que ouvimos dos mestres.
Igualmente, que vale ao homem ver pela meditação o que deve praticar, se não pode fazê-lo senão pelo auxilio da oração e pela graça de Deus? Porque todo dom excelente e todo dom perfeito vem de cima e desce do Pai das luzes (Tg 1,17).
Sem ele nada podemos, ao passo que ele faz em nós as obras, mas não sem nós. Pois somos cooperadores de Deus (1Cor 3,9), como diz o Apóstolo. Deus quer que lhe supliquemos, quer que abramos à graça que vem e bate à porta, o seio da nossa vontade, e lhe demos o nosso consentimento.
O Senhor exigia esse consentimento da Samaritana, quando dizia:
Chama o teu marido (Jo 4,16), como se dissesse: Quero te infundir a graça; aplica o teu livre arbítrio.
Dela exigia a oração: Se soubesses o dom de Deus, e quem é que te diz: Dá-me de beber, serias tu que lhe terias pedido a água viva (ib.1 O).
Inflamada, pois, pelo desejo, volta-se para a oração, dizendo:
Senhor, dá-me desta água, a fim de que eu não tenha mais sede. Assim, portanto, a palavra do Senhor que ouvira e depois meditara, a incitou à oração.
Como haveria de tomar-se solícita na súplica, se antes, a meditação não a tivesse feito arder? Ou de que lhe serviria a precedente meditação, se a oração seguinte não obtivesse o que aquela lhe mostrara?
Para que seja, pois, frutuosa a meditação, é preciso que se lhe siga o fervor da oração, da qual é como um efeito a doçura da contemplação.
XIV
Conseqüências do que foi dito
De tudo isso podemos concluir que a leitura sem a meditação é árida, a meditação sem a leitura é errônea, a oração sem meditação é morna, a meditação sem oração é infrutífera.
A oração com fervor obtém a contemplação, mas a aquisição da contemplação é rara ou miraculosa sem a oração.
Deus, com efeito, cujo poder não tem limites, e cuja misericórdia se estende a todas as suas obras, às vezes suscita das pedras filhos de Abraão (cf. Mt 3,9). É o que se dá quando força corações duros e rebeldes a querer. Ele é como o pródigo que, segundo se costuma dizer, "dá o boi com os chifres", quando vem sem ser chamado e se envolve sem ser procurado.
Embora tenha isso acontecido a alguns, como a Paulo e alguns outros, não devemos, no entanto, tentar a Deus presumindo tais dons, mas fazer o que nos compete, isto é, ler e meditar a lei de Deus, e rogar-lhe que ajude a nossa fraqueza, e veja a nossa imperfeição. Ele próprio nos ensina a fazer assim, quando diz: Pedi e recebereis, procurai e achareis, batei e abrir-se-vos-á (Mt 7,7). Pois agora o reino dos céus sofre violência, e são os violentos que dele se apoderam (Mt 11,12).
Eis, pois, que as distinções acima assinaladas permitem perceber as propriedades dos vários degraus, como se concatenam entre si, o que produz em nós cada um deles.
Feliz o homem que, tendo o espírito vazio de outros cuidados, deseja sempre passar e repassar por esses degraus. É aquele que, vendendo tudo que possui, compra o campo em que está escondido o tesouro desejável, que é recolher-se e ver como é suave o Senhor (cf. Sl 34,9).
Feliz, sim, aquele que, exercitado no primeiro degrau, bem atento no segundo, fervente no terceiro, alçado acima de si no quarto, se eleva cada vez mais forte, por essas subidas, até ver o Deus dos deuses em Sião (Sl 84,8).
Bem-aventurado é aquele, a quem é dado permanecer, ainda que por pouco tempo, nesse último degrau, e que pode dizer: Eis que sinto a graça de Deus, eis que contemplo com Pedro e João a sua glória no monte, eis que gozo com Jacó os abraços da bela Raquel.
Mas acautele-se ele depois de tal contemplação, para não cair nos abismos por uma queda desordenada, nem voltar, depois de tão grande visita, aos lascivos atos do mundo e às seduções da carne.
Como não pode a fraca ponta da mente humana sustentar mais longamente o esplendor da verdadeira luz, desça suavemente e com ordem algum dos três degraus pelos quais subira, e assim, alternadamente, ora em um ora em outro, demore segundo a moção do livre arbítrio e as circunstâncias de lugar e de tempo. A meu ver, ele estará tanto mais próximo de Deus, quanto mais longe do primeiro degrau. Como é, infelizmente, frágil e miserável a condição humana!
Vemos, pois, abertamente, com o auxílio da razão e os testemunhos das Escrituras, que a perfeição da vida bem-:-aventurada está contida nestes quatros degraus, e que o homem espiritual deve estar sempre a exercitar-se neles.
Mas, quem é que guarda esse modo de viver, quem é ele, e nós o louvaremos? (Eclo 31,9). Querer, muitos querem, mas fazer é de poucos.
Queira Deus que sejamos desses poucos.
XV
Quatro causas que nos retraem dos referidos degraus
São quatro as causas que, o mais das vezes, nos desviam desses degraus: uma necessidade inevitável, a utilidade duma boa ação, a fraqueza humana, a vaidade mundana.
A primeira é desculpável; a segunda é tolerável; a terceira é miserável; a quarta é culpável. E verdadeiramente culpável. A quem, por essa causa, é desviado do seu propósito, melhor seria não ter conhecido a graça de Deus, do que retroceder depois de conhecê-la. Que escusa terá do seu pecado?
Não lhe poderá, acaso, Deus dizer, com razão: Que mais te devia fazer e não fiz? (cf. Is 5,4). Não existias e te criei. Tornaste-te servo do diabo e do pecado, e te redimi. Corrias com os ímpios ao redor do mundo, e te escolhi. Dei-te graça perante meus olhos e queria fazer em ti a minha habitação, e em verdade me desprezaste. Não jogaste para trás somente as minhas palavras, mas a mim mesmo, e andaste em busca das tuas concupiscências.
Mas, ó Deus bom, suave e manso, doce amigo, conselheiro prudente, ajuda forte, como é desumano e temerário aquele que te rejeita, e repele do seu coração um hóspede tão humilde e clemente!
Ó infeliz e nociva troca, rejeitar o seu Criador e acolher pensamentos maus e prejudiciais, e entregar tão depressa a pensamentos impuros e ao espezinhar dos porcos até mesmo aquela câmara secreta do Espírito Santo, que é o fundo do coração, que pouco antes se dirigia às alegrias celestes!
Ainda estão quentes no coração os vestígios do Esposo, e já ali se intrometem desejos adulterinos.
É inconveniente e indecoroso para ouvidos que acabam de ouvir palavras que não é lícito ao homem falar (cf. 2Cor 12,4), entregar-se tão depressa a fábulas e a ouvir maledicências. E para olhos que acabam de ser batizados pelas lágrimas sagradas, de repente se voltar para ver vaidades. Para a língua que acaba de cantar um doce epitalâmio, e que tinha reconciliado o Esposo com a esposa por suas palavras inflamadas e persuasivas, e a introduzira no celeiro (cf. Ct 2,4), de novo se converter às conversas torpes, às leviandades, à urdi dura de dolos, à maledicência.
Não nos aconteça, Senhor, mas se acaso, por fraqueza humana, recairmos nisso, não desesperemos, mas de novo recorramos ao Médico clemente que levanta do pó o indigente e ergue o pobre do monturo (Sl 113,7). E ele, que não quer a morte do pecador, voltará a nos curar e salvar.
Já é tempo de pôr fim a esta carta. Oremos todos ao Senhor que no presente enfraqueça para nós os impedimentos que nos retraem da sua contemplação; no futuro, nos liberte inteiramente deles, levando-nos, mediante os referidos degraus, cada vez mais fortes, a vermos o Deus dos deuses em Sião (Sl 84,8). Ali, os eleitos não experimentarão mais gota a gota nem intermitentemente a doçura da contemplação. Pois terão, em incessante torrente de gozo, a alegria que ninguém tirará, e a paz imutável, a paz nele.
E tu, Gervásio, meu irmão, se do alto, te for dado um dia ascender ao cume desses degraus, lembra-te de mim e ora por mim, quando for bem para ti.
Assim, o véu puxe o véu (cf. Ex 26,33), e aquele que escuta, diga:
Vem! (Ap 22,17).
SCALA CLAUSTRALIUM, de Guigo II
Tradução de D. Timóteo A. Anastásio, O.S.B, antigo Abade do Mosteiro de São Bento. Bahia (BRASIL).
Olhando retrospectivamente para os meus 29 anos de médico, acho que o ano em que passei no hospital do câncer foi o mais difícil de todos. Toda quarta-feira e fim de semana, sem falta, eu cobria a unidade de terapia intensiva por 24 horas, como médico residente intermediário. Durante todo o tempo em que passei ali, não vi um único paciente sobreviver, embora não fosse por falta de tentativa. Nenhum sequer.
Todos tinham em comum o fato de a sua médula óssea ter sido suprimida pelas sessões de quimioterapia, o que tinha como consequência infecções generalizadas inevitavelmente fatais. UTI, ressuscitação completa com tubos, ventilação, terapia intravenosa, estimulantes cardíacos: era tudo em vão. Eles morrem porque, sem a médula óssea funcionando, perdem a resposta imune do seu organismo. Nenhuma quantidade de antibióticos consegue impedir que seus corpos sejam infestados por microorganismos.
Obviamente, eu atendia apenas os mais doentes de todos. A maior parte dos pacientes de quimioterapia não sofre complicações tão severas. Com a médula recuperada, o seu câncer regride ou é até mesmo curado.
Eu tinha me tornado médico para curar quando desse, dar alívio na maioria das vezes e confortar sempre, mas aquela contínua experiência de fracasso foi começando pouco a pouco a me deixar para baixo.
Comecei a ficar apavorado com o trabalho no hospital do câncer, com medo de aquele bipe tocar. Mesmo tendo me afastado da prática da fé depois da universidade, comecei a rezar, pedindo que os meus pacientes se recuperassem ou que, pelo menos, eu não estivesse de plantão quando eles fossem admitidos. Minhas orações não foram atendidas. As mortes continuaram acontecendo, implacáveis, e um grande sentimento de vazio e de desespero encheu o meu coração.
O fato de eu estar solteiro, sem amigos, morando sozinho e afogando minhas mágoas, toda noite livre, em um bar ao lado do hospital, só piorava a situação. Nunca me faltavam companheiros – da equipe do hospital, principalmente – com quem beber, rir e me divertir na hora do rush, antes de voltar para jantar, TV e cama. Meu coração batia, mas eu não estava vivo.
Espiritualmente, eu era um alegre pagão, um Baco vestido com um imundo jaleco branco e uma falsa auréola na cabeça. Mesmo tendo vivido uma profunda experiência religiosa dois anos antes, minha vida moral continuava pintada com vários tons de preto e minha cabeça estava cheia de ideias sem sentido de sincretismo e "nova era".
Um dia, escrevendo o relatório de um jovem paciente que tinha acabado de falecer, fiquei paralisado ante a espreita do "cachorro negro" da depressão, pronto para me devorar. Eu estava encarando o vazio e meu rosto deve ter feito soar o alarme, porque um dos parentes da vítima veio me perguntar, preocupado: "Está tudo bem, doutor?" Emocionado com a sua gentileza, eu me desculpei: "Perdão, estou lutando para ver algo de bom aqui. Tem morte demais nesse lugar."
Constrangido com minha própria franqueza e morbidez, corri para a sala de plantão, desorientado à procura de uma introspecção e de alguma conversa com Deus. Nada disso me ajudou, na verdade. As enfermeiras devem ter pensado que eu era um desses senhores velhos e desajeitados.
Outra coisa me incomodava em relação à ética do hospital. Havia uma forte ênfase de pesquisa nos efeitos das terapias: tratamento A versus tratamento B. Tudo medido pelo número total de dias de sobrevivência, incluindo os pacientes da seção de terapia intensiva. Meu único papel parecia ser o de prover, a qualquer preço, aquelas últimas desesperadoras horas de vida, estendidas apenas por intervenções médicas extremas e inúteis. Eu não passava de um mero acessório para a confecção isolada de estatísticas. Parecia haver algo de errado naquilo tudo.
Tive um sonho estranho certa noite. Encapuzado, como um ativista pelos direitos dos animais, eu corria dentro do hospital, rasgando prontuários e dizendo a todos os pacientes que eles pelo menos estavam livres. No mínimo, bizarro.
Outra noite, fiquei até mais tarde no bar, bebendo sozinho depois que meus amigos haviam saído. Eu estava meio bêbado e não havia por que ir para casa, quando, de repente, me sobreveio de não sei que lugar um forte sentimento de paranoia, literalmente assustador. Por um momento, aquele aconchegante bar no qual eu tomava alguns driques se tinha transformado em um antro de horrores. Era como se eu estivesse vendo pela primeira vez aquele lugar como ele realmente era: uma caverna suja repleta de alcoólatras caloteiros e derrotados, e ali estava eu, um membro completo do clube. Os que ali bebiam com frequência eram desconhecidos para mim, mas eu comecei a suspeitar más intenções de cada olhadela deles em minha direção. Senti-me tão sozinho. Comecei a ficar gelado e a suar, à procura de uma rota de fuga.
Um terrível sentimento de morte iminente invadiu a minha cabeça. Eu tinha certeza de que estava para conhecer o meu fim, ou por violência, ou por alguma doença repentina. Minha mente saltava de um lugar para outro considerando todas as possibilidades e, então, com grande claridade e certeza, eu sabia que tinha que confessar os meus pecados a um padre sem demora, ou estaria condenado eternamente. Como um jovem "na ativa" em uma grande cidade, o pecado não me era estranho, como se pode ver, mas, até aquele momento, eu nunca havia percebido os seus efeitos de morte sobre a minha alma.
Saí do bar como que perseguido por uma horda de demônios e fiz o caminho até a entrada do hospital, onde havia uma cabine telefônica. Eram cerca de 9 da noite e ainda estava claro. Eu não pertencia a nenhuma paróquia, para quem ligar? As páginas amarelas listavam as igrejas da cidade e um nome saltou diante dos meus olhos. Era uma igreja jesuíta. Lembrei-me de ouvir sobre o seu carisma missionário enquanto estudante de colégio católico. Com certeza eles poderiam me ajudar.
Disquei rapidamente e, em pânico, expliquei minha situação à atenciosa voz do outro lado da linha. Eu sabia que devia estar parecendo um completo desvairado. A voz me disse calmamente para eu ir ao seu encontro.
Pulei para dentro de um táxi e cheguei lá em dois tempos. Da rua principal, avistei a porta da frente e toquei a campainha. A tranquilidade e as sombras do lugar não ajudavam a minha ansiedade. Sentia-me naquela famosa cena de "O Exorcista".
A porta se abriu e a claridade do lado de dentro instantaneamente dissipou a estranha penumbra que me cobria enquanto eu esperava. Fui recebido por um dos irmãos, o mesmo que tinha me atendido ao telefone. Eu devia estar parecendo um monstro alcoolizado, com os meus olhos arregalados, o rosto pálido e um terrível bafo de cerveja.
Enquanto eu esperava na entrada, a porta da frente se abriu de novo e dela saiu um velho sacerdote baixinho, com óculos redondos, uma boina e um longo casaco preto. Ele juntou-se a nós e, "Boa noite, irmão!", disseram alegremente um ao outro, como fazem os irmãos.
Fui apresentado a um quarto de hóspedes fora do hall de entrada. Alguns minutos depois, apareceu um padre de meia idade, com os olhos pesados, vestido em uma roupa clerical já meio desgastada. Obviamente, eu tinha tirado o pobre homem da cama. Ríspido, ele deixou claro que tudo aquilo era muito fora do comum, mas eu implorei tanto que ele escutasse a minha confissão que, vendo o quão perturbado eu me encontrava, ele misericordiosamente assentiu.
Eu estava bem fora de prática. Eram, afinal, dez anos sem me confessar. O padre me ajudou e, com lágrimas, consegui acusar os meus pecados. Recordei o Ato de Contrição da minha infância e, com as palavras finais da absolvição e de olhos fechados, todo meu pavor foi embora, completamente. Nunca tinha ficado tão agradecido como naquele momento. Pedi desculpas pela invasão e deixei aquela casa em paz.
Um coração consideravelmente mais iluminado observava a velha cidade escura, enquanto eu pulava as poças de água para pegar o ônibus para casa. Nada à minha volta tinha mudado, mas eu sim, eu estava reconciliado. Percebi que apenas os meus próprios pecados podiam realmente me fazer mal. Se eu pudesse cortar todas as amarras que me prendiam a eles, perderia também o meu medo da morte, para sempre e de uma vez por todas. Eu estava finalmente de volta ao aprisco e, agora, deveria dar o meu melhor para ficar aqui. Esse empenho continua até o dia de hoje, nesse tortuoso caminho familiar a todos os pecadores arrependidos. Minha paranoia levou-me a umametanoia, a uma completa mudança de mentalidade e de vida.
Tive ainda que encontrar uma paróquia para ser minha casa espiritual e reestabelecer o hábito de ir à Missa regularmente. Levaria alguns anos até que eu novamente me sentisse parte de uma comunidade paroquial, como a que eu tinha em minha juventude. O casamento e os filhos ajudaram a acelerar esse processo.
Voltei à rotina do hospital. Aqueles pobres pacientes continuavam a morrer, mas, agora, eu rezava por suas almas, pedindo que recebessem o presente que eu tinha recebido, que a luz perpétua os iluminasse.
O moderno tratamento médico pode alterar apenas a hora, o lugar e o modo da morte corporal, mas não a sua ocorrência inevitável. Infelizmente, muitos pacientes e familiares não conseguem ver essa limitação ou sequer chegam a considerar a sua vida espiritual. Ninguém deveria "entrar gentilmente naquela boa noite" ("go gentle in that good night") sem alguma preparação para o caminho e uma "luz generosa" ("Kindly Light") para o guiar [2].
Pacientes de câncer estão bem conscientes de que foram invadidos por uma força hostil que intenta a sua aniquilação. Católicos veem os pecados mortais sob essa mesma luz: eles são um tumor letal, uma sentença de morte para a alma, separando-a para sempre de Deus, que é seu único verdadeiro repouso e morada. Todo o Evangelho não trata senão da morte dessa "sentença de morte", alcançada pelo único sacrifício de Cristo por todos na Cruz.
O pior câncer imaginável pode em teoria ser curado por uma dose totalmente ablativa de radiação, enviada a todo o corpo. Isso mata não apenas as células cancerígenas – para onde quer que elas se tenham espalhado –, mas também a médula óssea, fonte vital de imunidade. Sem um transplante de medula, o paciente irá morrer rapidamente mesmo com a mais inofensiva infecção, como uma gripe comum. A médula doada deve ser totalmente compatível, ou há um risco de que ela comece a atacar os próprios tecidos do paciente.
O transplante que Jesus nos dá na Eucaristia é perfeitamente compatível e revivificador para a alma humana, já que Cristo é o doador universal. Mas esse transplante só "funciona" com segurança na alma que foi perdoada do pecado grave pelas terapias ablativas e purificadoras do Batismo e da Reconciliação, que iluminam a alma com a graça santificante.
A dor, a doença, a tristeza a e morte geralmente não nos são tiradas por Jesus. Ao contrário, Ele nos mostra como usá-las santamente, em ordem a unirmos os nossos sofrimentos aos d'Ele. Mesmo sendo um ótimo remédio, a medicina não substitui uma união cada vez mais íntima com Jesus, e a Sua imitação nas coisas mais pequenas, até o sacríficio final – para tanto, serão suficientes, pelo menos a princípio, os sofrimentos ordinários que todos nós temos no dia a dia.
As flechas do nosso desejo de união com Deus, que nós lançamos contra a nuvem do desconhecido (que esconde Deus de nós), retornam para nós, no bom tempo de Deus, como dardos apontados para os nossos corações e envolvidos com o óleo da caritas transformadora. O misterioso é que nossas flechas estão geralmente sendo lançadas para cima sem a nossa plena consciência, enquanto as nossas almas trabalham, balindo no subconsciente por ajuda.
Quanto mais distante as ovelhas, mais aguçados os ouvidos do Bom Pastor. Se algumas vezes parece que as nossas orações não estão sendo atendidas, deve ser porque nosso Senhor está ocupado lidando com aquelas em maior perigo. A paciência é sempre vital para nós, que somos Seus pacientes.
É quando somos levados por nossas escolhas ou pelas circunstâncias ao nosso ponto mais baixo e nos encontramos desamparados, que a graça de Deus pode intervir ao máximo. Quando somos fracos, Ele é o mais forte. Deus é gentil e educado e nunca faz violência contra nós – até mesmo o divino médico exige o nosso consentimento. Mas Ele nunca fracassa em salvar-nos de nossa aflição, se permitirmos que Ele aja.
Mais de 20 anos depois, agora eu posso ver como Deus resgatou minha alma doente e entorpecida de um destino literalmente pior que a morte. Sem a sombria epifania que eu experimentei naquele bar, e aquilo a que ela me levou, só Deus sabe onde eu estaria agora.
"Como mãe do Salvador, nascestes para salvar os pecadores e a mim fostes dada para a minha salvação. Ó Maria, salvai quem a vós recorre. Eu não mereço o vosso amor; mas o desejo que tendes de salvar os perdidos me faz esperá-lo". (Sto. Afonso de Ligório) 13 de maio, Virgem de Fatima, rogai por nós!
Ó Maria, minha libertadora, ó minha esperança, ó Rainha, ó advogada, ó minha Mãe, eu vos amo, eu vos quero muito e sempre vos quero amor. Amém. Assim o espero, assim seja.
Seja bem vindo(a) à maior biblioteca virtual de matriz conservadora em língua portuguesa. Considere que nem todos os autores são ditos conservadores; mas se aqui marcam presença, é em virtude pela ...
Quarta-feira, dia 15 de Abril de 2015 – Evangelho segundo São João 3,16-21.
Naquele tempo, disse Jesus a Nicodemos: «Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Unigénito, para que todo o homem que acredita n’Ele não pereça, mas tenha a vida eterna. Porque Deus não enviou o Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele. Quem acredita n’Ele não é condenado, mas quem não acredita já está condenado, porque não acreditou no nome do Filho Unigénito de Deus. E a causa da condenação é esta: a luz veio ao mundo e os homens amaram mais as trevas do que a luz, porque eram más as suas obras. Todo aquele que pratica más ações odeia a luz e não se aproxima dela, para que as suas obras não sejam denunciadas. Mas quem pratica a verdade aproxima-se da luz, para que as suas obras sejam manifestas, pois são feitas em Deus»
Comentário de São Clemente de Alexandria
No instante em que somos batizados, somos iluminados; iluminados, tornamo-nos filhos; tornando-nos filhos, tornamo-nos perfeitos; e, tornados perfeitos, recebemos a imortalidade. Eu disse, palavra do Senhor: «Vós sois deuses, todos vós sois filhos do Altíssimo» (Sl 82,6; cf Jo 10,34).
A esta ação batismal dão-se diversos nomes: chamamos-lhe graça, iluminação, banho, compleição. Banho, porque somos purificados das nossas faltas; graça, porque o castigo devido pelos nossos pecados foi levantado; iluminação, porque contemplamos a santa luz da nossa salvação na qual vislumbramos as coisas divinas; compleição, pois já não é preciso mais nada. Com efeito, que poderia faltar àquele que conheceu Deus? E como poderíamos chamar «graça de Deus» a uma coisa que não fosse perfeita? Pois, sendo Ele próprio perfeito, Deus só pode dar coisas perfeitas. […]
Logo que alguém é regenerado fica, tal como o nome indica, «iluminado»: ei-lo liberto das trevas e, ao mesmo tempo, cheio de luz. […] Somos desembaraçados dos nossos pecados que, como nuvem, cobriam o Espírito divino, e eis que se liberta o olho do nosso espírito, ficando descoberto e luminoso, esse olho que nos permite contemplar as coisas divinas.
Num interessante inquérito promovido pelas revistas norte-americanas U.S. News and World Report, e publicado com grande destaque pelo O GLOBO, desde os dias 18 e 19 do corrente, vem sendo abordado problema da crise, do malogro ou do futuro da “democracia”. Numerosos intelectuais norte-americanos e ingleses, de alto prestígio, como: Professor Samuel P. Huntington — Cientista Político, Professor Charles Frankel — Filósofo, Professor Robert L. Heilbroner — Economista, Professor Max Beloff — Cientista Político, Professor William H. McNeill — Historiador, Professor Michael J. Crozier — Sociólogo, Professor Friedrich A. Hayek — Economista e Professor René Dubos. Cientistas, trouxeram sua contribuição ao debate que, para esses intelectuais, parece assentado em claros postulados aceitos por todos e motivado por mais uma inquietação do mundo moderno, ou pelo menos, do ocidente moderno.
Em primeiro lugar observo que o termo “democracia” sempre demarcado com o artigo “a” que reforça sua determinação designa um conceito quase tão claro e tão unívoco como o de “quadrado”. Ora, desde aqui me parece que esse inquérito aceita, sem sinais de relutância, todos os movediços equívocos que formam a atmosfera cultural de nosso tempo.
Efetivamente, o termo “democracia”, no tumulto provocado por guerras, revoluções, reformas de coisas irreformáveis e mise en question de todos os princípios morais e religiosos, o termo “democracia”, embora pretenda ter permanecido imóvel no mercado das idéias baratas, sofreu deslocamentos semânticos denunciados pelos adjetivos que lhe são anexados: democracia-liberal, democracia-cristã, democracia-popular etc. Mas também sofreu deslocamentos metafísicos mais profundos e mais perturbadores. Na sua primeira e clássica acepção o termo “democracia” significava forma de governo caracterizada pela mais ampla participação do povo — como “monarquia” significava forma de governo de mais concentrada autoridade. No processo revolucionário que, nos últimos quatro séculos, corre nos subterrâneos da História, o termo “democracia” passou a significar uma filosofia de vida, e não apenas uma especial forma de governo. Seria melhor dizer que passou a ser um humanismo, que pretende marcar os eixos essenciais de uma nova civilização que deixara de ser essencialmente cristã, mas ainda tolera ou respeita o cristianismo subsistente como uma opção individual.
Voltaremos a abordar este provocante problema de nosso tempo. No momento quero apenas assinalar a tranqüila simplicidade com que todos os depoimentos colhidos toma o termo “democracia” no sentido amplo tomado por Jacques Maritain em seu livro Cristianismo e Democracia, e que para nós mesmos, durante a Guerra e em nossa ingênua Resistência Democrática, se transformou em bandeira. Quase em religião.
Uma das vozes gravadas no inquérito da U. S. News resumiu seu pensamento nesse ato de Fé: “Fora da democracia não há salvação”.
Assinalo até aqui apenas este aspecto ingênuo do inquérito, cuja leitura me traz uma curiosa sensação de haver remoçado quarenta anos, da qual sensação, em vez de tirar e saborear as partes positivas como dizem os boletins da CNBB, eu sinto ânsias de vômito. Sim, em lugar de uma indulgente saudade dos “bons tempos”, sinto vergonha e tristeza de tudo o que engoli naquele mundo brutalmente simplificado pela guerra.
Mas, depois de haver sofrido a mais humilhante decepção jamais sentida por um cidadão do Planeta habitado, desde a pré-história, sim, depois de ter sido esbofeteado por Satanás no dia da chamada “vitória das democracias”, e depois de ter sofrido as conseqüências de todos os equívocos da falsa guerra, da falsa vitória, da falsíssima paz, e mais falso reformismo e progressismo religioso, posso admirar, sem nenhuma inveja, a imobilidade dos intelectuais que viraram estátua de sal e tranqüilamente ignoram a existência de vozes que, desde um Donoso Cortês, até um Pio X, e até os mais ardorosos defensores do cristianismo, responsabilizam com justa severidade esse mito de origem maçônica, como um dos principais corrosivos de uma civilização que se desagrega em todas as suas partes.
Não sendo possível alhear-se inteiramente ao espetáculo apocalíptico que até as crianças já começam a perceber, esses professores, economistas e sociólogos do mais fracassado dos mundos descobertos e civilizados por homens de outra têmpera e outra fé, esses capitalizadores de erros se assustam diante do avesso da democracia. Seria o caso de dizer-lhes que, neste himalaia de erros acumulados pelo novo humanismo que se afastou de Deus, esses pobres herdeiros de imposturas e de enganos enganam-se tão perfeitamente, que chegam a fingir que é dor a dor que deveras sentem.
Na verdade, a grande tragédia “desse humanismo do homem-exterior” é aquele vínculo vicioso do amor-próprio que na vida individual prende a alma à mentira com que ela mesma se exalta e se envenena. Em termos de Teologia da História, e de transcurso dos valores de uma civilização que já foi cristã, podemos dizer que a mentira da exaltação do homem-exterior — do homem-autônomo, isto é, do homem que é a sua própria lei, do homem que se declara adulto e que culmina na ascensão de imposturas quando anuncia uma fraternidade nos mesmos dias em que proclama seu desprezo pelo Pai — chegou ao máximo de seu trágico ridículo quando foram badaladas dentro das cúpulas de uma Igreja que reformava, deformava e transformava o cristianismo num exaltado humanismo.
Fiéis poderão ganhar a Indulgência Plenária no Domingo da Divina Misericórdia
REDAÇÃO CENTRAL, 10 Abr. 15 / 02:12 pm (ACI).- Durante as aparições do Senhor da Divina Misericórdia a Santa Faustina, Cristo assegurou várias graças aos que se aproximassem de sua misericórdia. São João Paulo II, mais adiante, instituiu oficialmente a indulgência plenária para esta festa. Neste domingo da misericórdia de 2015 espera-se também o anúncio oficial do Ano Santo da Misericórdia proposto pelo Papa Francisco que terá início no dia 8 de dezembro deste ano.
“Desejo que a Festa da Misericórdia seja refúgio e abrigo para todas as almas, especialmente para os pecadores. (...). Derramo todo um mar de graças sobre as almas que se aproximam da fonte da Minha misericórdia. A alma que se confessar e comungar alcançará o perdão das culpas e das penas. Nesse dia, estão abertas todas as comportas divinas, pelas quais fluem as graças. Que nenhuma alma tenha medo de se aproximar de Mim, ainda que seus pecados sejam como o escarlate”,
disse o Senhor em uma promessa que fez a Santa Faustina Kowalska em uma das aparições místicas que lhe concedeu.
Em 2002, esta promessa de Cristo se fez “oficial” na Igreja quando, por mandato de São João Paulo II, a Santa Sé publicou o “decreto sobre as indulgências recebidas na Festa da Divina Misericórdia”, um dom que também pode ser alcançados aos doentes e os navegantes em alto mar.
No segundo domingo de Páscoa, que este ano se celebra no dia 12 de abril, concede-se a indulgência plenária, com as condições habituais (confissão sacramental, comunhão eucarística e oração pelas intenções do Supremo Pontífice) ao fiel que participe de atos de piedade realizados em honra da Misericórdia divina ou reze, na presença do Santíssimo Sacramento daEucaristia, publicamente exposto ou no Sacrário, o Pai Nossa e o Credo, acrescentando uma invocação piedosa ao Senhor Jesus (por exemplo, ‘Jesus misericordioso, eu confio em Vós)”, diz o texto do decreto.
Deste modo se concede indulgência parcial “ao fiel que, ao menos com coração contrito, eleve ao Senhor Jesus misericordioso uma das invocações piedosas legitimamente aprovadas”.
Também os doentes e as pessoas que os ajudam, os navegantes, os afetados pela guerra, conflitos ou clima severamente adverso “e todos os que por justa causa não podem abandonar sua casa ou desempenham uma atividade inadiável em benefício da comunidade, poderão obter a indulgência plenária”.
Isto sempre e quando, com total rechaço de qualquer pecado e com a intenção de cumprir, assim que seja possível, as três condições habituais rezem “diante de uma piedosa imagem de nosso Senhor Jesus misericordioso, o Pai Nosso e o Credo, acrescentando uma invocação piedosa ao Senhor Jesus da Divina Misericórdia”.
Do mesmo modo, poderão obter a indulgência plenária os que não podem cumprir com as exigências acima “os que se unam com a intenção aos que realizam de modo ordinário a obra prescrita para a indulgência e oferecem a Deus misericordioso uma oração e os sofrimentos de sua enfermidade e as moléstias de sua vida, tendo também eles o propósito de cumprir, assim que seja possível, as três condições prescritas para lucrar a indulgência plenária”.
Jesus Cristo também prometeu a Santa Faustina que quando se rezar o Terço da Divina Misericórdia junto aos moribundos ficará “entre o Pai e a alma agonizante não como o Juiz justo mas como Salvador misericordioso”.
É O QUE AFIRMOU O PREFEITO da Congregação para a Doutrina da Fé, Cardeal Gerhard Mueller, em entrevista ao jornal francês Famille Chrétienne.
A entrevista ocorreu após as declarações do Cardeal Reinhard Marx, presidente da Conferência Episcopal alemã, que afirmou: “Nós não somos uma filial de Roma. Cada conferência episcopal é responsável pelos cuidados pastorais em seu contexto e deve pregar o Evangelho de uma maneira original e própria. Nós não podemos esperar que um Sínodo nos diga como formular os cuidados pastorais pelo matrimônio e a família”.
Para o Cardeal Mueller, a hipótese de que decisões doutrinais ou disciplinares possam ser delegadas às conferências episcopais
“É uma ideia absolutamente anticatólica, que não respeita a catolicidade da Igreja. As conferências episcopais têm uma autoridade sobre alguns assuntos, mas não constituem um magistério ao lado do Magistério, sem o papa e sem a comunhão com todos os bispos.”
Respondendo especificamente aos comentários do Cardeal Marx, Dom Mueller afirmou:
“Uma conferência episcopal não é um concílio particular, e menos ainda um concílio ecumênico. O presidente de uma conferência episcopal não é nada além de um moderador técnico, e ele não tem, a esse título, nenhuma autoridade magisterial particular. Escutar que uma conferência episcopal não é uma ‘filial de Roma’ me dá a ocasião de lembrar que as dioceses também não são filiais do secretariado de uma conferência episcopal, nem da diocese cujo bispo preside a conferência episcopal.”
‘Putin defensor dos valores cristãos’?: elo da corrente de mentiras da nova KGB, diz arcebispo
Em entrevista de imprensa na sede da Rádio Vaticana, segundo informou o site “La Nuova Busssola Quotidiana”, Mons. Sviatoslav Shevchuk, arcebispo-mor do rito greco-católico, disse ter advertido o Papa a respeito de afirmações da Santa Sé que podem ser associadas à propaganda russa.
Mons. Shevchuk esteve em visita ad limina a Roma, juntamente com mais de vinte bispos católicos ucranianos dos ritos latino e bizantino. Os prelados transmitiram a Francisco a dramática situação que vive seu país.
“Para descrever o que acontece na Ucrânia, disse ele no início da entrevista, só se pode usar uma palavra: invasão estrangeira e não conflito civil”.
A expressão “guerra fratricida” havia sido usada pelo Pontífice na audiência do dia 4 de fevereiro com particular infelicidade. Ela suscitou fortes reações nos ambientes católicos ucranianos e verdadeiro entusiasmo entre os seguidores de Vladimir Putin, entre os quais se destacou o Patriarcado de Moscou.
A expressão “guerra fratricida”, explicou o arcebispo de Kiev, feriu a sensibilidade do povo ucraniano, pois ecoa a visualização do conflito ucraniano espalhada pela “propaganda russa”.
“Expliquei pessoalmente ao Santo Padre quais são as vítimas e quais são os agressores”, acrescentou o alto dignitário.
Durante a visita ad limina, o Papa ouviu os pungentes relatórios dos bispos, e fez falar primeiro os bispos da Criméia e das regiões ocupadas por agentes obedientes a Moscou e soldados russos.
As cinco paróquias greco-católicas da Criméia receberam ordem de se recadrastrarem, mas o novo registro lhes foi negado nas três vezes que tentaram.
“Tememos que se trate de um expediente para privar de estatuto legal a nossa Igreja, como já aconteceu em 1946 sob o regime soviético”.
Os postos da Caritas Ucrânia acolhem diariamente por volta de 140 mil pessoas. Dom Sviatoslav explicou: “Apelei a Francisco a fim de que convoque uma iniciativa humanitária internacional”. Até o momento não há notícia a respeito.
Em relação ao Patriarcado de Moscou, que tem adeptos na Ucrânia, o arcebispo explicou que “é difícil colaborar com pastores incapazes de respeitar seus fiéis. Uma hierarquia eclesiástica que se alinha com o poder contra o próprio povo perde credibilidade”.
O chefe do rito greco-católico ucraniano mencionou a angústia e o desconcerto dos ortodoxos ucranianos ligados à Igreja Ortodoxa Russa. Esses seguidores não entendem que o “próprio patriarca possa se ter tornado porta-voz do agressor”.
Para D. Sviatoslav, a Igreja Ortodoxa Russa virou uma poderosa arma de desinformação que está trazendo males aos próprios cidadãos russos.
“Muitos russos de fato não sabem que seus soldados estão sendo mortos. Inclusive pelo bem deles é preciso desmontar esta corrente de mentiras”.
Também faz parte dessa “corrente de mentiras” a imagem falaz, forjada pela propaganda russa, de um Putin defensor dos direitos cristãos.
“Eu sou um filho da Igreja perseguida pela União Soviética – disse o arcebispo – e sei bem que a KGB [N.R.: polícia política comunista na qual se formou Putin] jamais difundiu os valores cristãos, mas se serviu deles com finalidades políticas.
“Eu não acredito que quem sacrifica um milhão de vidas para atingir objetivos geopolíticos possa estar animado por valores cristãos. Não sejamos ingênuos”, concluiu.
Momentos da entrevista de imprensa na Rádio Vaticana:
https://www.youtube.com/watch?v=iznQWnly1C4