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Tenho uma mania que também é um defeito: quero acolher e consertar o coração dos outros mas mal consigo manter o meu inteiro. Eu sou da verdade, da intensidade, eu não sei viver ao meio. Meu amor é de cuidar, de aprender e ensinar mas pode ser bastante turbulento - nada que eu não tenha alertado desde o começo. O coração já muito arrebentado, meio ressabiado feito gato escaldado foge só de ouvir o vento - quando encontra algo assim, tão diferente de mim, o taciturno tiquetaque me relembra que eu não mereço. Eu me rendo, mas fui transparente; não foi de repente que tudo desmanchou. Faltou diálogo, faltou consenso, faltou responsabilidade com o sentimento. O doloroso é ver que a amizade que eu ajudei a curar, foi a estaca no peito que me fez desmoronar. (Não me isento de culpa, sei que parece uma fuga, mas se eu tô implodindo eu tento impedir de ferir os outros. Não é uma desculpa, mas agora é tarde demais, se o tempo voltasse lá atrás eu mudaria meu karma, por mais que pareça loucura.) De coração desfeito, eu me afasto em todos os casos sempre pareço ruim. Vou ficando na minha, acostumando sozinha, concluo que essa é minha sina enfim.
(p/ APC, AGB, BSA e tantes outres antes de vcs)
“A writer is a world trapped in a person.”
— Victor Hugo
19º Experimento - Capítulo 1 - Deus Vive em Amsterdamn
A humanidade condenou a si própria, e não foi por falta de aviso. O apocalipse veio arrebatador, mas não como havia sido previsto. No frigir dos ovos, o que todas - ou a maioria - das religiões clamava,foi esquecido. E por essa razão, ninguém conseguiu prever a real causa do fim dos tempos: essencialmente, nada menos que o egoísmo. Isso é o resumo de uma longa história, que sinceramente não convém agora; o cidadão que tem noção e boa memória, admite que não aconteceu tudo isto de uma para outra hora. Em todo conto e parábola, do artigo científico à fábula, têm em comum em diversas palavras as mesmas ideias, desde que a humanidade se entendeu por condenada: que a vida em sociedade voltasse à ser importante; a busca incessante por um equilíbrio constante, por tornar-se um com o divino inalcançável e distante; renovar a face da espécie pecadora relutante, restaurar toda a Terra tal paraíso que era antes.
Mas o mutualismo era impraticável num mundo imperado pelo capitalismo; o culto ao indivíduo como fonte inesgotável, adoradores do ego - perfeição inalcançável. Relações destrutivas, tóxicas desde a família, cadeia alimentar acadêmica-corporativa; até religiões são competitivas. O homem sem emenda encomenda sua sepultura, enrola um baseado com a página dourada da sagrada escritura: Filhos de Saturno regurgitados no colo de Satã, encontraram o velho Yeowah morando em Amsterdamn.
Necessary door hanging for legal purposes.
Ilha
Fica na sua
Ilha, você não m escuta
Já não olha, olha não vê
Uma agulha no palheiro
Em chamas, já não me chama
Um pequeno sopro não apaga
Incêndio consome há semanas essa palha
Pára com essa palhaçada
Essa tempestade em copo d'água
Uma gota no oceano não muda nada
No destino dessa barca
Sem rumo naufragada nessa
Ilha
Greta
Por que às vezes dá vontade de chorar pelas coisas mais cotidianas?
Por que às vezes a gente sabe exatamente o que precisamos deixar partir pra voarmos mas insistimos no apego? O que há de invisível nessas frestas do cotidiano que nos lembra de onde gostaríamos de estar, que talvez estaríamos se tivéssemos coragem de abandonar a velha casca de cigarra, craquelada sobre um corpo ainda tenro e sensível - que precisa livrar-se dessa inútil carapaça para finalmente crescer músculos e tão almejadas asas? O que há nas frestas da realidade que nos lembra que 80% de tanta dolorida luta é por minimamente defender uma sobrevida, uma existência, porque viver em plenitude passou a ser um privilégio - um benefício vendido como mérito, mas uma conta que nunca fecha, e nós sabemos ao ver no espelho a pele enrugar-se cada vez mais pálida por dias a fio cada vez menos exposta ao sol, e mais à luzes artificiais? Os pulmões que contraem forçando uma tosse quando os brônquios irritados pelo ar condicionado clamam por brisa e orvalho. Mas não é isso, isso também é um privilégio, e não é isso que existe para além da janela do carro. Então, o que é? O que é isso inefável mas sufocante que, entre um salto e outro do ponteiro de segundos, quando menos se espera, faz uma angústia queimar a garganta e pesar no estômago; um receio sem nome que faz secar a boca e suar as mãos; um pavor terminal de perder a corrida contra si e sentir o tempo esmagar sem misericórdia o resto de esperança. O céu parece um adesivo velho descolando e a sensação de perda e pânico aumenta: como ter que viajar de casa e ter certeza no caminho que se esqueceu de algo fundamental, como a chave. Como voltar, se não há tempo? O desespero por encontrar a chave lhe faz esquecer o caminho. Não há estrada. Esse nó na garganta, esse caruncho na fresta da realidade, é a vala por onde sua essência vaza e você se pergunta: no meio de tudo isso, onde foi que eu me deixei?
- Myosotis.
O desafio: descrever em 50 caracteres - contando espaços, pontuações e título - um personagem passando por um conflito interno. Tema: Personagem que não se vê como homem, mas como mulher.
O desafio: descrever em 50 caracteres - contando espaços, pontuações e título - um personagem passando por um conflito interno. Tema: Livre (piloto)
De todos os vícios, o pior era de se arrepender.
Adelaide
Lixeira da Menina 1
Várias bolinhas de papel preenchendo a lixeira da menina, folhas pautadas de caderno arrancadas com ensaios de estórias fictícias não-contadas. Na verdade, bem preenchidas as pautas escritas com feia caligrafia da menina que preferia garatuja aos garranchos que pendiam da ponta da sua caneta como cães pernetas se escorando uns nos outros com seus latidos roucos à aguardar o reconhecimento de quem leria tais textos - jamais seriam lidos, que tolice! numa lixeira qualquer, de uma menina qualquer, com um ininteligível garrancho que melhor seria que nunca escrito tivesse sido.
Esse post originalmente era pra ir direto pro Guro Graffias.