yujinlies:
Como consequência da época de menina arteira, o corpo esguio era marcado por diversas cicatrizes, nos mais variados lugares de seu corpo. Algumas eram praticamente invisíveis, tal como o pequeno sinal em um dos pulsos pálidos. Outras a incomodavam um pouco mais, como aquele risco esbranquiçado que ficava localizado no ombro esquerdo. E, algumas mais raras, curiosamente coçavam quando a ponta dos dedos trilhava sua extensão, e sequer eram novas. Ocorria algo parecido com suas lembranças, tal como com os raríssimos laços afetivos que possuiu no passado. Alguns não lhe traziam nada mais do que uma memória, sem sentimentos ou esboços de sorrisos, era como se não fizessem a mínima diferença. Algumas outras memórias lhe deixavam zangada, a maioria dizia respeito aos pais, que mesmo após se tornarem um ferimento cicatrizado, permanecia marcado para sempre. E algumas eram complexas. Cicatrizes que quando tocadas lhe atribuíam sensações esquisitas, não dolorosas mas também não prazerosas, uma mistura confusa dos dois, como cócegas e coceira de uma vez só. Seu namoro com Gabe estava nessa categoria.
Como grande parte das pessoas, Yujin era mais complexa do que aparentava com suas respostas soltas e comportamento incomum; ainda que parecesse calma e inabalável, era impaciente. Gostava de conseguir o que queria sem precisar se esforçar de verdade e o mais rápido possível. Irônico. Porque, dentre todas as pessoas fáceis para seus padrões, havia começado a namorar justo com Gabe. Verdade seja dita, aquela era a primeira vez que havia gostado de alguém o suficiente para escolher persistir do que desistir. A falha empática dificultava tudo, visto que não conseguia entender que toda aquela falta de iniciativa pela parte do rapaz era apenas seu jeito. Precisou de meses para se livrar da ideia de que havia se apaixonando sozinha, mas aprendeu. Ao mesmo tempo que aprendia a lidar com aquela falta de jeito, notava o esforço alheio para mudar, era um incentivo silencioso. Não tinha muita experiência com relacionamentos, mas aquilo parecia o significado de um. Aprender um com o outro, se adaptar e aceitar diferenças. Agora, depois de anos, era estranho recordar-se disso. De um gostar de verdade. Por isso era uma cicatriz e por isso era rara. Diferente das outras, não era algo invisível e insignificante, também não era gigantesco e frustrante. E, até minutos antes daquele reencontro, não havia sido tocada.
Era óbvio que ele não iria abraçá-la de volta. Deixou escapar um riso soprado. Independente da relação (ou falta dela) que possuíam, ainda era seu o trabalho de iniciar certas coisas. Também imaginava que teria uma resposta do tipo, ao menos ele não havia mudado naquela parte. Sendo sincera, não parecia tão mudado assim. — É meu charme especial. — Comentou por cima. Entrelaçou os dedos, juntando-os atrás do corpo e se balançando de leve. Era uma mania antiga, fazia quando estava agitada. Assentiu para a pergunta, em dúvida de como prosseguir com uma explicação. Porque aquela parte era complicada, muito complicada. — Bem, essa é uma longa história. — Preferiu comentar, procurando formar uma maneira resumida de explicar o ocorrido, caso ele insistisse em obter uma resposta a respeito. O que ela fazia por ali. Aquela sim era a pergunta apropriada, e duplamente mais complicada que a primeira, porque envolvia uma rede de mentiras maior ainda do que a anterior. E, se iria realmente mentir, deveria fazê-lo de forma bem calculada, porque Gabe a conhecia. Conhecia a antiga Yujin. E, essa versão atual era ainda pior no que dizia respeito a enganar pessoas, uma verdadeira decepção. Mas, por outro lado, se agora era uma versão melhorada da antiga nesse quesito, não deveria ser tão difícil simplesmente narrar a versão que omitia alguns fatos sobre sua ida à Gwangju. — Eu te pergunto o mesmo! E, ah, essa é uma história mais longa ainda, se você quiser escutar vai precisar de tempo.
"Tempo eu tenho." Respondeu rápido até demais. Não gostava de admitir coisa alguma que lhe colocasse em posição comprometedora, longe de sua zona de conforto anti-emoções, mas ali estava ele, sendo óbvio. Pois estava intrigado. Jamais esperaria encontrá-la novamente, nem mesmo em Seul onde a vira pela última vez, muito menos ali, há tantos quilômetros de distância e aquele "acaso" lhe tiraria a noite de sono se simplesmente adiasse as respostas que precisava obter. Seu relacionamento com Yujin, e o único que tivera em toda sua vida, ainda era uma grande interrogação em sua mente racional. Gabe nunca fora afetivo, simplesmente não tinha isso impresso em seu DNA, e o interesse pelas garotas era puramente... platônico. Devia ser mesmo mal de artista admirar tudo e todos de longe, há uma distância apenas suficiente para deixar a imaginação suprir as lacunas. Sendo assim, não havia nada de extraordinário no passado que compartilhavam e talvez, diferente de si, ele não tivesse a marcado tanto por não ter sido o único em sua vida. Afinal, ela não era como ele. Ela era... normal. Yujin não era a beleza mais chamativa do colégio, tampouco era ele o garoto mais popular. Nunca fora excepcionalmente brilhante mas era conhecido e se destacava desde sempre por seu senso de humor flexível e receptivo mas nunca foi o foco nem chamava muito a atenção das garotas naquele sentido ainda que fosse sabidamente oriundo de família rica. Contudo, era apenas o último herdeiro. Entre quatro. Em seu ponto de vista, Yujin estava no mesmo nível nesse quesito. Aproximaram-se por osmose. Ela também sempre foi bastante espontânea e suas brincadeiras se complementavam. O convívio fê-la crescer ante dele, que passou a sentir falta em sua ausência. Aos poucos, notava o modo como os olhos dela brilhavam ao rir, o formato do sorriso, a mudança de cor na tez durante o cansaço... precisou de muitos desenhos para perceber que passava tempo demais pensando nela. Era ridículo. Ninguém mais sabia, é claro, e Gabe não compreendeu o que sentia até que um de seus colegas manifestou interesse na moça. Aquele incômodo persistente, a ansiedade gerada em torno da curiosidade acerca da resposta que ela daria ao outro, tudo o ajudou a concluir que não queria vê-la com outra pessoa. Mas por quê? O que poderia fazer para impedir aquilo? Não fazia ideia e até hoje se perguntava como conseguiu fazer com que a garota olhasse para ele naquela época. "Eu tenho o resto do dia livre. Quer ir tomar um café? Eu pago."












