Crônica pro não amor - da natureza
Insiste o questionamento sobre o que as pessoas normais fazem nas noites de sexta. - Ou do porquê elas fazem o que fazem. Que júbilo maior do que a própria solitude? De onde vem o anseio pelos inóspitos apelos a companhias. - Elas vão para culturais. Cultos da sociedade, essa coisa de convivência por conviniência. A crédula convicção de que a felicidade é externa, e mais, que ela existe. Tremulam os céticos cada vez que escapa por entre os dentes a chance perdida de não pronunciar atrocidades.
Os pés apoiados no piso gelado pioravam a garganta, já inflamada, que inalava mais fumaça. O ar, o fumo, a imposição de papéis sociais para sustentar uma identidade a qual esconhecia. A persistente indagação sobre os vestígios e os rótulos, muitos recém descobertos, do que distingue as pessoas normais das não/anti/contra normativas. Havia uma certa intolerância por ambos lados, num aspecto não dualista, mas mais amplo e, de certo modo, praticamente inrrestringível, que domina todo e qualquer grupo estabelecido. Há um hábitus quo que determina as relações de poder, o qual se da naturalmente, sem imposições. As relações estabelecidas obedecem regras implícitas e ditadas pelo caráter dos personagens.
Incrédulos pelo mistério que é ter a alma perdida no meio do nada e o torpor que a inércia causa, resolvemos fazer da espera uma ponte de lembrança, dos restos que nos desobrigam do afazeres cotidianos. Os dias de labuta são placebo para passar as horas. E as sextas-feiras?
Viu passar o reflexo no espelho e não reconheceu. Quem é você? Que tipo de ideia você faz de si? Oh, você não faz. Você não se enxerga porque é invisível. E se haviam coisas que passavam desapercebidas, aquela era uma das quais não se pode ignorar. Chegou mais perto, se viu por dentro. Achou no fundo do olho uma mancha na íris - aquela mesma que é flagelada pela pupila que trepida ao te ver. Viu mais perto, foi mais dentro. Teve medo do universo. Quis desviar o olhar e não consiguiu, manteve-se afixionada pela pupila trepidante. Ela via você. No fundo do olho, bem dentro de tudo. Transmutava-se a imagem de um corpo no espaço demarcado por luzes numa silhueta miraculosamente perfeita. Num desvio não se encontrava mais ali. Perdida do outro lado do globo, movia-se dentro do instante do sempre: você.
Num atropelamento de erros, trouxe alguém que não conhecia e coloquei sentada na mesa das deusas. Agora, tem uma pupila que dilata ao te ver. E de que forma seria, se não a expandir, o universo quando acende?
Tenho uma pupila que dilata ao te ver e uma iris tímida, que se retrai e me engrandece. Tem uma pupila que dilata ao te ver, um universo que expande, você em desencontro. Eu em desencanto. Não fosse o mundo uma grande mentira de cada indivíduo, que poderia eu fazer?
Te ignorar no universo, te abandonar dentro dele.
Por que você insiste em sair?
-Do universo ou nas sextas a noite?
Sair e não chegar perto. Existe, afinal, uma identidade em zelo que não pode ser colocada a prova. É um despautério se restringir por um rótulo. Mas esse despautério tem um rosto lindo, e sorri. Não há inverdades, apenas muitos limites. Uma libélula quando adentra o esquadro atraída pela luz sabe que se deixou levar e que esse encantamento não tem mais volta: uma vez dentro do cerco, ela está morta. Porque talvez, por descuido, alguém feche a janela; porque fique trancada atrás de um móvel sujo e empoeirado, presa nas teias; porque algum gato ali jáz, esperando uma vida inteira para brincar de ciranda de unhas e arranhões com ela; ou porque a matem - o que não seria o meu caso, seria? - e se debatendo contra o vidro, se corte nas avenidas.
Passa ligeira e agitada, faz um barulho tremendo toda vez que se joga contra as coisas. Contra a janela, contra a luz, contra si. Contra a permissão de ter se deixado entrar, ela zune como quem grita.
Mas as portas estão abertas e a TV desligada. Por que veio? Por que ficas? Porque se atraiu pela luz; apenas porque não consegue sair - e a máxima é que uma vez dentro, perdeu-se o caminho de volta. O clarão no meio do ar de terror que anuncia a bruma densa, é cortado por um flash incandenscente. Não há nada de especial nessa luz, ela é como todas as outras do seu tipo. Mas é essa a lâmpada que está ali, só mais uma como qualquer outra, sem se afetar pelas pancadas indelicadas da libélula, que suplica ao prantos em silêncio para ser desativada. Mais um dia que se vai e toda noite é a mesma coisa, a luz ascende e a luz apaga. Sempre vem insetos, os mais microscópios e insignificantes, mas naquela noite veio ela: imponente e vestida de negro, com suas quatro asas independentes em si. Porém, de nada adianta a crueldade de que a libélula dispõem para com suas presas contra uma lâmpada de luz. O bulbo não se altera.
O laço que se cria é de necessidade e coodependência, de modo que, a libélula se encontra ali hipnotizada pela luz, e a luz precisa afirmar sua posição de clareza, ser adorada e incesantemente perturbada por algo. A dinâmica que se desenvolve é bem simples: o inseto entra absorto pelo ponto mágico, se debate contra ele, depois ao redor dele e das coisas que circunscrevem o seu reflexo, na busca da saída. Mas quantas saem? A maioria morre cutucando vidros freneticamente até que caem extasiadas de cansaço. O fato de que a luz não tem vida, apenas reflexo de algo exterior, que começa num lugar muito distante e cria o elo entre seres distintos: a energia, comprova a atração entre corpos difusos e improváveis.
Sobre ser terrível figurar um aprisionamento, penso que nem sempre há escapatória ou intenção de. Nos retemos ali, presas na sensação de não ser se não ouvintes. Voyeres da arritmia descompasada do momento presente que nos enclausura dentro de um show de máscaras. Essa circo grotesco que hora nos protege, hora nos faz ter uma imagem alterada da vida e suas contradições. Seriam as esferas da vida elas mesmas significativas não fossem as inconstâncias? Temo apenas o que não acontece, já que para isso não tenho parâmetros para lidar. Os hiatos suspendem as decisões e postergam resoluções simples, transformando o existente em complexo emaranhado de vários nadas.
Só o silêncio da noite e as ultimas tentativas de vida da libélula para resgatar ela do sonho dentro do olho. Libéluas são capazes de calcular a velocidade com que matam a vítima, mas será que elas também sabem prever quando vão morrer? Não é tanto arrependimento, é mais como algo que não deveria ter acontecido.... poderia ter sido evitado?
Eu não me lembro o que eu ia… Por que eu parei aqui?
As paredes gelo do corredor, a cabeça apoiada na moldura da porta angulada para o chão e pensando… "não sei".
-Refaz o caminho! E volte a si.
Tem um prisma que se forma e um poder que incendeia. Ela brilha como quem canta uma típica canção de ninar às velozes lebres do tempo. E a fixação por ela me inebria, tento dançar e não consigo. Travo só de pensar que ela existe. É algo tão vago e turvo, ao mesmo tempo que parece óbvio. Em semanas isso não vai mais existir e seremos apenas vergonha na memória. Passado dum tempo que não foi e um momento pulsante na história não contada.
Brilhando de cima, iluminando só côncavos e cavacos. Os cantinhos do todo que é ser livre e potencialmente desejada. A lâmpada amarela a meia luz e um ar de quem não soube porque ficar e foi versejar em outros lares. Te vi como quem passa num sonho, e mais tosco que isso, não haveria outra forma de comprovar. As pessoas nas sextas à noite são barulhentas e inoportunas. Queria poder mutar os falantes e passar algumas músicas da banda. Talvez seja crônico. E se esta fora de controle (deveria?) torna-se preocupante. Continuam os gritos e os tormentos dos indivíduos me excluem de qualquer possibilidade de interação. Mas coisas vem e vão, surgem outras possibilidades. Não existem libélulas, apenas lâmpadas em tormento. A cervical curvada anuncia dores morais e físicas, de mensagens (não?) enviados e um corpo torpe sobre a mesa do bar. Anuncia-se também, a possibilidade de mais uma noite frustada e prenúncios do que não foi. A lombar fixa-se na parede, mas a cervical mantém-se tombada.
De tontura já não se sabe mais o que é realidade e o que foi criado num lapso de febre incontrolável e pequenas artimanhas do destino, que poderiam ser apenas coincidências. A maneira como os outros olham pra ela é incontestavelmente incômoda. Tem algo de errado com isso. São como transformadores de outra voltagem. Os outros são outra coisa que ela não sabe explicar. E as interações estranhas se perdem no meio da indiferença que todos aqueles corpos fazem, uns perantes os outros. Cada um administra as suas ações. É tão cedo e causa arrepio a insegurança e ansiedade do momento, e nada que faça passar a repulsa maior do presente.
A chuva veio naquela madrugada de 8 de abril, por volta das 2:30 a.m. e perdurou todo o longo dia que seguiu. Os dias de trabalhos abscentes tem um dilúvio de glorias envolvidas, primeiro porque se tem prazer no ócio e planos cancelados são sempre bem vindos, segundo porque chovia. Poderia elencar terceiros e quartos, como a satisfação em se fazer o que se prefere, podendo ser isso nada ou até mesmo limpar a casa para os mais obssessivos. E as noites dos dias de trabalhos abscentes? São sempre sexta-feira.
Tem um - vários - motivos pelo qual aniversários são inesquecíveis: eles não prestam. Que nem leite azedo e abacate intumecido. Azia e má digestão. Algumas lâmpadas ao fundo e um enjôo tão grande de todas as contradições nas quais entramos. E um pesar constante de quem não veio porque não soube como. Ou por que não quisesse? Sinto a pressão dela ser impelida a algo pesando na inclinação que meu pescoço faz em direção ao chão. Talvez ali encontre respostas. Talvez mais tarde possa explicar pela borra do piso da festa os acontecimentos recentes de um bulbo - ou seria lampião? - incandescente e miserável.
-Misericórdia! Dizei, não. Tenho medo até de lembrar.
Prazer interrompido pelo teu clamo de amor a outras vozes em semi-tons. E o tempo espaço dilascerado por um cortejo de ventos.
-Estaríamos na grama, não fosse a chuva dos teus 25 anos. Ademais, não há porque pestanejar. Reclamo porque de costume não poderia ser diferente, e o que me apetece sempre foi duvidar dos atos fortuitos do destino.