𝐒𝐭𝐞𝐚𝐥𝐢𝐧𝐠 𝐟𝐢𝐫𝐞 𝐟𝐫𝐨𝐦 𝐭𝐡𝐞 𝐠𝐨𝐝𝐬.| 𝙆 & 𝘼
——— 𝐅𝐋𝐀𝐒𝐇𝐁𝐀𝐂𝐊.
pitcnisa:
O corpo de Ayla queria reagir. Queria se debater, tentar chutar o desconhecido, fazer mais força. Mas não conseguia. Estar longe de Eren, de sua alma, a esgotava completamente, então, embora mandasse o sinal de seu cérebro para fazer tais movimentos, eles não aconteciam. Só conseguia chorar e mal respirava, sentido que logo iria desmaiar, porém tinha que ficar acordada, e uma maneira de fazer isso foi tentar procurar o seu daemon que havia sido levado para longe. Se apenas o visse, talvez… talvez recuperasse um pouco de sua força. Infelizmente não foi o que aconteceu. Antes que percebesse, haviam adentrado em outro local, vazio dessa vez, e Ayla sentiu só sentiu seu corpo colidir contra a parede. Suas pernas queriam desabar, porém fora impedida pelo rapaz, que ficou próximo demais e a segurou por seu queixo. Tentou desviar o rosto, não queria olhar para ele… e ainda sim o medo que sentia não a deixava.
Acabou prendendo a respiração aos escutar as palavras dele. Não que fosse necessário dizer novamente, mas lágrimas ainda rolavam por suas bochechas, e aumentaram pela ameaça feita ao daemon. Pensamentos do que poderia acontecer com ela, do que ele poderia fazer com ela, atormentavam sua mente. Sentia que não iria escapar de qualquer fosse o futuro que estava reservado à ela, mesmo que não o pudesse ver pela dádiva dos deuses. Os olhos embaçados pelas lágrimas agora embaçavam sua visão, e, embora bom por não ver o desconhecido, também não havia visto quando o mesmo tirara sua gravata apenas para dar um jeito de silenciar a pitonisa — não que ela tivesse força para gritar, de qualquer maneira.
Após isso, sentiu o seu pulso ser puxado com enorme força, tanta a qual que quase fizera Ayla se desequilibrar. Não tinha nem mais o ânimo para tentar ficar de pé aquele ponto, apenas queria Eren de volta ao seu lado, era tudo. Algo gelado envolveu seus pulsos e, quando algumas lágrimas caíram e desembaçaram, percebeu que eram correntes… como ele havia conseguido correntes? No meio daquelas ruínas? Todavia, a pitonisa levou um susto quando as portas foram abertas e a daemon do rapaz adentrou o local… com Eren! Os olhos de Ayla se arregalaram de felicidade ao ver o gato, mesmo que a condição do mesmo não fosse a melhor, assim como a da garota. Queria abraçá-lo, mas as correntes a impediam de ir para longe do outro, que de modo algum a deixaria chegar perto do daemon.
Ayla não via nem para onde ia, pois estava concentrada em Eren, e como machucava o ver assim. Sua vontade era de gritar para ele, mas a ligação de ambos estava fraca e a gravata em sua boca a impossibilitava de fazer qualquer barulho. Seus passos foram cegos até chegarem em um lugar que — a pitonisa tomou um breve momento para identificar — parecia uma garagem. Entretanto, não pode ver muito sobre o local, pois uma dor esmagadora preencheu todos seus sentidos. Não era surpresa, visto que a harpia do rapaz estava sentada em cima de Eren. A garota tentou se apoiar em algo, mas não havia nada para o fazer, e talvez fora por isso que o desconhecido a pegou no colo para colocar em um carro aleatório. O corpo de Ayla já estava cansado, bem como sua mente, nem reagindo quando o outro teve passar por cima de si para chegar ao banco do motorista.
E ainda sim, Ayla chorava. Seus poderes eram passivos e ela não conseguia usar em si mesma, então de que adiantava tentar? Brigid também parecia tê-la abandonado, junto com os outros deuses. Então, realmente, a única coisa que podia fazer era chorar.
Sair da garagem não foi uma tarefa tão complicada quanto encontrar caminho pelas ruas destruídas de Shangri-la. Por sorte haviam seguido a estratégia da mente brilhante do alemão e usaram um carro pequeno, este que facilmente conseguia deslizar por entre os resquícios de asfalto do caminho. Não encontraram muitos pessoas em seu caminho, e aquelas que viram nem se quer lhes deram muita atenção, preocupados como estavam todos em fugir para salvar as próprias peles. Karl preferiu que tivesse sido assim mesmo, afinal no meio da fuga a última coisa que ele queria era ter que torrar potenciais testemunhas do seu crime.
Minutos se passaram com todos em silêncio dentro do veículo, exceto pelos ruídos abafados do choro da pitonisa. “Ela vai desidratar e murchar igual a uma fruta com todo esse choro.” reclamou Heike, confortavelmente sentada sobre o daemon-gato e ao mesmo tempo tentando não sufocá-lo e o levar a morte. Era um tentação e tanto. Melhor chorando do que gritando, retorquiu Karl com uma rápida bisbilhotada de soslaio na mulher. Era revoltante pensar que os deuses teriam escolhido uma criatura insignificantemente frágil como aquela para ser sua representante na terra. Realmente estavam no fim dos tempos, não é? Já era passada a hora dos fracos deuses e, portanto, a era dos homens tomaria logo seu lugar. Com ele no topo, isso iria garantir.
Karl sabia exatamente para onde levá-la, então não demorou mais tempo do que o suficiente para despistar qualquer curioso que por ventura os tivessem seguido. Logo eles estavam nos arredores extremos de Shangri-la e estacionando o carro nos fundos do que um dia havia sido uma padaria, mas que agora jazia abandona há tempos. O Rosenberg abriu a porta e mais uma vez lançou o corpo sobre o da mulher para que pudesse sair do veículo, e só então puxá-la também para fora. Manteve a porta aberta para que Heike saísse com o outro daemon firme e seguro em suas garras. Karl então, após verificar que não tinha nenhuma outra alma viva ao redor, levou a todos para dentro do prédio. Lá não demorou muito para localizar uma abertura escondida entre os pisos encardidos do chão que, depois de usar um pouco de sua energia para abrir o portal, os levaria ao porão. — Eu vou na frente e depois você pula, entendeu? Se demorar muito te puxo pelos pulsos. — mostrou a corrente que os unia, só para dar ênfase naquilo que dizia e que não estava blefando para a mulher.
Ele pulou no buraco negro e desconhecido. Lá embaixo cheirou o ar e só depois invocou uma chama arroxeada na palma de sua mão livre. Sem paciência, puxou a pitonisa para baixo, mas a segurou para impedir que caísse contra o chão poeirento. Depois esperou pelos daemons e fechou o portal. “Eles precisam dar uma limpada nisso aqui de vez enquanto.” resmungou a harpia toda nojenta e insatisfeita pelo teto baixo que a impedia de voar. Karl fez sinal para que seguissem em frente. Havia visto várias plantas dos esconderijos rebeldes espalhados pelo mundo. O grupo certamente estava preparado para tudo, até mesmo para uma guerra nuclear.
Em meio a chama bruxuleante na sua palma, uma porta arredondada surgiu entre a escuridão na parede extremamente oposta. Era pequena e grossa como a de um submarino. Karl aumentou mentalmente o comprimento da corrente para ter liberdade de girar a maçaneta circular e finalmente abrir o segundo portal. Novamente esperou todo mundo entrar no recém descoberto cômodo antes de trancá-los lá dentro. O alemão procurou alguns segundos pelo interruptor e quando a luz amarelada finalmente iluminou o local, eles podiam ver o recinto por completo. Era um lugar simples, porém extremamente confortável. Tinha alguns sofás, cadeiras, prateleiras com ferramentas e armários com comidas enlatadas.
— Nada de gritar, sacerdotisa. Primeiro porque ninguém vai conseguir te ouvir e também porque não quero ficar com dor de cabeça. — informou enquanto retirava a gravata da boca da mulher, finalmente deixando-a livre para falar. Ele só esperava que ela não visse tal liberdade como algo a ser aproveitado. — Seu trono a espera. — apontou uma poltrona grande e confortável em um dos cantos, indicando que ela fosse ali se sentar. Conforme aumentava ainda mais sua esfera para que permitisse ambos de se distanciar, Karl foi atrás de alguns metros de corda. Achou-os em uma parte inferior das prateleiras, pegando-os para si e voltando para amarrar a pitonisa no assento. Heike guinchou alto para chamar sua atenção e apontar o gato com o bico de ferro. “O que vamos fazer com esse aqui?” — Quem sabe sem o daemon ela finalmente entenda como a humanidade se sente a respeito da presença dos deuses. Eles nunca estão lá e só deixam um vazio. — comentou enquanto dava voltas com a corda ao redor da pitonisa na poltrona, certificando-se de que ela estava justa o suficiente, só que não a ponto de machucar.













