GANNICUS & OPHELIA
❝ We were shattered into pieces and now we are back together. ❞
Dizem que a única situação inevitável na vida de alguém é a morte. Essa espera qualquer mortal, independente de sua religião, no fim de sua vida. Esse final, para alguns, vem antes do esperado. Oitenta, noventa, cem anos de idade? Não. Ela não escolhe se buscará criança ou adulto, simplesmente aproxima-se e toma a vida de seus mortais. Exceto quando outra divindade decide interferir em seus planos, é claro. Como foi exatamente o caso de Ophelia Laelia Saavedra-Dragonova, quando diante do acidente quase perdera a vida, mas em compensação perdera a si mesma.
Voltemos ao início, porém, a anteriori da pseudo-morte de Ophelia.
É um belo dia, ensolarado em terras argentinas. A ida de uma família em uma viagem para Bariloche, longe da capital. As praias e parques de diversão foram o auge para o casal de gêmeos adotado por Cesare e Tomislav. Enérgicos, vibrantes, não paravam um minutos sequer, cada um com seu respectivo daemon: Ophelia, carregava Gannicus enrolado em seu braço, uma jovem cobra cega e Dante segurava Crixus, um gato persa e coloração laranja, enquanto caminhavam para a próxima montanha russa, sem medo algum da altura. Ambos, quando juntos pareciam dividir forças e receios, para que acada um superasse as suas adversidades. No entanto, enquanto as crianças brincavam, nos bastidores Cesare e Tomislav fortemente discutiam por algo que os gêmeos nem ao menos perceberam.
Foi somente ao retornar ao carro após tomar um banho, para retornarem aos seu respectivo lar durante a viagem que iniciou-se algo que ficou claro com a água para Dante e Ophelia. Os gêmeos se entreolharem, suspiraram juntos diante da recorrência das discussões nada saudáveis. As memórias aqui ficam curtas, pois as razões da discussão parecem sem sentido, sem importância alguma ou mesmo relevância. Os daemons das crianças, porém, agem de forma agitada, tanto a cobra cega quanto o jovem gato decidem engalfinhar-se também como Cesare e Tomislav, mas de forma afetuosa, um agarrado ao outro como se jamais desejassem separar-se um do outro. Gannicus, por exemplo, próximo de Ophelia, comentava-lhe o quão irritado estava com toda aquela discussão sem pé nem cabeça e dizia o quanto gostaria de voltar para a casa. Já Crixus praticamente rosnava, apenas não rugia pelo fato de não ser leão, pois sentia-se colérico com a impaciência dos adultos sentados no banco da frente.
Foi então que tudo aconteceu rápido demais. O volante perdeu a direção das mãos de Tomislav, empurrado por Cesare. Tentaram recuperar a mesma, mas o carro dirigiu-se diretamente para um paredão de rochas na estrada, amassando a parte frontal do motorista por completo. O estrago no lado do passageiro foi menor, pois Tomislav iante do impacto transformara-se em um animal de carapaça dura. Dante havia sido poupado do maior impacto na parte traseira, mas Ophelia foi atingida por um pedaço de metal amassado da estrutura do veículo, perfurando sua cavidade torácica e enchendo seus pulmões de sangue. Gannicus emitia um som que era estranho até mesmo para uma cobra, seu corpo transfigurando-se em uma figura que não podia ser discernida por Ophelia naquele momento dada a memória da dor cortante.
No entanto, uma divindade ( ou seria demônio? ) que assistia toda aquela situação se compadeceu pela figura feminina que agonizava, achou injusto que essa perdesse sua vida devido ao fato da irresponsabilidade de dois homens crescidos. Lilith, a mãe dos monstros e dos demônios criava mais uma cria para si, tomando-a como afilhada, deixando o pedaço de metal que cortava as carnes da jovem preso no interior de suas costelas como fonte de sua mágica e da vida que não seria retirada de si, frustrando o trabalho de Azrael, anjo da morte. Gannicus que agora tomava uma forma reptiliana similar a um lagarto ao invés de um ofídio parava de guinchar, mas adquiria uma expressão morta, como a sua scion, desprovida de vida. Beba o sangue, minha querida, faz parte de sua renovação, você será transformada. Uma voz sensual, feminina e materna atravessava o crânio de Ophelia, ela que foi atraída pelo pescoço da pessoa mais perto de si: Dante. O irmão gêmeo parecia ter aceitado o destino quando percebeu Ophelia sugando-lhe seu sangue, mas algo acontecia enquanto o líquido escarlate virava vida para a Dragonova.
Gannicus começava a modificar-se mais uma vez a cada gota de sangue ingerido e Crixus parecia agonizar, chorava o gato do irmão gêmeo, assim como ele próprio derramava lágrimas ao perceber sua vida sendo esvaída. ‘ O que é isso? O que é... ’ Era Gannicus tentando se comunicar, mas ele contorcia-se e Ophelia finalizava o irmão, drenando-o por completo enquanto seus olhos, ah seus olhos: dois buracos negros destituídos de vida que brilhavam com uma crueldade que não pertencia a criança alguma. A memória lhe foi usurpada após a situação, sem nenhum socorro, sem nenhum grito, apenas a voz de Gannicus e Crixus trêmula em seu ouvido.
Quando acordou, estava em um hospital, sozinha. Assustada, foi parada por enfermeiras de retirar todo o aparato médico de seu corpo e foi levada até seu pai, Cesare, ao qual curiosamente tinha a sensação de tê-lo visto morrer. Pediu por Tomislav, mas não teve resposta, tampouco sobre Dante, antes de levarem-na para conversar com o Saadreva. Teve uma explicação infantil dada à sua condição, mas Lilith, em sonho, a contatava para mostrar a verdade sobre suas habilidades e suas dádivas. O sangue era a sua fonte de poder assim como a alma e não havia escapatória.
Ophelia passou muito tempo isolada, tentando lidar com a situação, mas como uma sombra que carregava consigo, o instinto e a ânsia pelo poder eram grandes. Mais uma vítima drenada por completo, mudanças tanto em si como em Gannicus. Uma cabeça de bode era adquirida ao daemon, de maneira curiosa. A quimera, Gannicus tanto quanto Ophelia sofriam com a transformação, encurralando um ao outro ao descobrir as novas personalidades e almas que carregava em uma só pessoa, uma mescla com a sua própria, mas perdia-se. As vezes, sentia como se não fosse a si própria, levada a agir como um outro indivíduo.
E então vieram os vícios. Primeiro álcool, depois o cigarro. O primeiro entorpecia-lhe os sentidos, o segundo alimentava a falta de hormônios prazerosos, alimentando o ciclo. Por último, porém, passou a envolver-se com substâncias de cunho mágico, para ser usurpada da realidade e assim, ter para si um pedaço de paz diante do caos que via dentro de si e que era compartilhado por Gannicus. O daemon, quimera, composto por três almas e fragmentos de muitas outras utilizadas em pouca quantidade para ativar seus poderes, dando-lhe também uma cauda ofídica e pernas traseiras reptilianas. Inconstante, mais até que Ophelia, uma vez que seu problema de fragmentação era equilibrado ao ser muito mais explícito no daemon, poupando-a de um transtorno que poderia ser muito mais grave.
Após o incidente, a relação de Ophelia com Gannicus tornara-se brevemente mais distante. As personalidades, porém, demonstravam as três almas que foram absorvidas por ela: Dante, a sua própria e a alma de uma ex-amante, tomada em um período de fúria e perda de memória. A cabeça draconiana era basicamente reflexo de Gannicus antes de ter sido transfigurado por absorver Dante, responsável, organizado, violento, orgulhoso e sensato, tirando a violência, características que se opõem completamente as da argentina. Por outro lado a cabeça felina, oriunda de Dante e que agora pertencia-lhe, não havendo distinção entre Gannicus e as cabeças, exibia uma personalidade soturna, indiferente e isolada e a memória que sempre tivera do gêmeo era que esse sempre fora um indivíduo extrovertido e emocional, mais um contraste. Já a cabeça de bode possui irresponsabilidade completa, um desejo por caos e loucura inimaginável, sempre instigando Ophelia a continuar com seus vícios e a render-se ao hedonismo, o que era com um reflexo negativo da personalidade da mulher que absorvera.
Os três compõem pedaços do que passa na cabeça da própria Ophelia, seus conflitos internos jamais exteriorizados por completo, deixando óbvio a verdade sobre quem ela mesma o era: ninguém e ao mesmo tempo, todos aqueles que já absorvera em sua vida, transtornada, perdida em si mesma, apenas com a âncora de Dante, o único que permaneceu em espectro fantasmagórico em seu interior, pois fora o primeiro que fora tomado por forças obscuras que originavam de Lilith.
E essa é a verdade que se transcorre sobre a razão de Gannicus ser um daemon inusual, fragmentado, com personalidade inconstante e decisões imprevisíveis. A morte que havia de ter buscado Ophelia foi enganada por Lilith que impediu que mais uma vez outra garota, outra mulher perecesse diante da irresponsabilidade de homens.
Ao mesmo tempo, porém, que agraciava-lhe com uma dádiva, era lhe entregue também uma maldição expressa claramente na forma fixa de seu daemon.










