Era muito cedo quando Henri, seu irmão e sua mãe seguiram até a estação de trem, vez que os Lafont viviam em uma mansão que ficava longe o suficiente da cidade para que poucos trouxas por lá passassem e eles precisavam sair de casa antes do sol nascer para chegar a tempo no trem de seu desejo. O carro em que estavam era guiado pelo motorista da família, um homem de confiança e que deveria ter uma expressão quase tão amedrontadora quanto a do segurança particular contratado também pelos Lafont e que seguia no banco do carona com o intuito de acompanhar os três bruxos que ali estavam até a estação de trem.
A mãe de Henri, chamada Georgine Lafont, observava atentamente a paisagem que corria junto do carro enquanto seu filho mais velho e irmão de Henri, conhecido pelo nome Maurice, implicava irritantemente com o irmão mais novo, afirmando que Henri certamente seria selecionado para a Lufa-lufa naquele ano e insistindo que seria “a vergonha da família” sem sombra de dúvidas. Georgine não havia dado muitos limites ao filho mais velho e as características do rapaz eram tão grotescas para um ser humano que era estranho que realmente fosse parente tanto de sua mãe como de Henri, pessoas gentis e tranquilas por natureza.
De toda forma, o silêncio sepulcral do menino de apenas onze anos foi o suficiente para que Maurice desistisse de suas implicâncias para se concentrar em um livro de Artes das Trevas que havia recebido do pai havia poucos dias. O patriarca dos Lafont estava ocupado demais fosse com seu trabalho no Ministério ou com o Mercado Negro Bruxo para dar atenção aos filhos no início daquele ano letivo, situação esta que alegrava Henri, pois jamais havia tido uma relação suficientemente boa com seu pai para desejá-lo ali ao seu lado e lembrando-lhe a importância que existia no fato de ser selecionado para a Sonserina como os demais familiares.
Os irmãos desceram do carro e receberam seus carrinhos de metal com as malas e respectivas corujas, atravessando em seguida a parede que levava para a plataforma em questão e sendo terminantemente seguidos pelo segurança da família e pela mãe, que acenava para algumas conhecidas suas com um sorriso simpático no rosto de porcelana. Quando chegaram à estação de trem, todo o aparato mecânico da locomotiva parecia até mesmo entediar um pouco Henri, vez que, com exceção de algumas crianças de sua idade, não via nada que fosse tão diferente naquela estação de trem que da última vez que havia ido no mesmo lugar para inutilmente acompanhar o irmão mais velho em seu primeiro trem para Hogwarts.
Precisou ver o irmão fazer uma careta de nojo quando abraçou sua mãe e ela lhe desejou boa sorte naquele ano, deixando claro para Henri que todos sentiriam muita falta dele. As palavras carinhosas da mãe o fizeram sorrir antes de subir no trem e escolher uma cabine calmamente, vez que havia chegado bem cedo na estação e demoraria um pouco para que começassem a viagem para Hogwarts.
Vez ou outra passavam alguns alunos pela cabine de Henri, mas ninguém se atreveu a entrar, ate porque ali não parecia o lugar de maior entusiasmo do mundo. Alguns poderiam dizer que o menino de cabelos claros se parecia com um anjo, mas era certo que algo em suas feições de tristeza lutava em dizer o contrário. Sua pele era pálida demais e tinha olheiras abaixo dos olhos, fazendo com que a figura angelical parecesse definhar. Talvez fosse o fato de não ter se alimentado bem nos últimos dias, principalmente por ter que se despedir da prima querida, temendo que, naquele ano em que passariam separados, a relação de amizade dos dois fosse destruída.
Um ano na companhia de pessoas puristas e terminantemente fúteis e vaidosas poderia ser o suficiente para transformar Nina também em um ser humano totalmente desprezível, ele pensava, agora observando o trem se mexer e sua mãe ficar cada vez menor em sua visão. Henri sentia uma fadiga estranha, provavelmente por não ter dormindo tão bem quanto deveria nas últimas noites. Ele já estava com saudades. Tanta saudade que demorou a ver o rapaz que agora colocava a cabeça para dentro de sua cabine.
- Claro. – Disse um pouco seco, agora saindo daquela loucura de infelicidade para uma realidade bem mais calorosa e colorida. Afinal, ele tinha somente onze anos e estava a caminho de um lugar tão mágico que até mesmo ele, bruxo desde que se entendia por gente, ficaria boquiaberto com tamanha beleza e encantamento. – Sou Henri. – Continuou com menos secura, agora se levantando para apertar a mão do outro rapaz, que julgou ter possivelmente a mesma idade que ele. O trem sacolejava um pouco e ele ajudou Barney com a gaiola de sua coruja, colocando-a em cima do banco, porém longe da sua própria, vez que a coruja de Henri era insuportavelmente agressiva. – Qual o nome da sua? – Perguntou talvez por mera educação, apesar de que, no fundo, fazer uma amizade seria muito bom para começar seu ano longe de Nina.