[Flashback] Paper skin and ink veins | Barney & Wendy | November 76
O seu novo conto estava fluindo com tanta facilidade, Wendy estava entusiasmada e nem viu as horas passando. Havia se sentado na poltrona azul ao lado da janela de vidro com vista para o lago negro e parte da Floresta Proibida, onde era seu lugar favorito no salão comunal e estava incrivelmente vazio na tarde da noite de quinta-feira. O que a principio deveria ser um conto, começou torna-se os primeiros capítulos de um romance. Nem mesmo quando o salão comunal estava em perfeito silêncio, com os rosnorar das corujas podendo ser escutados, e completamente vazio, pode perceber o horário avançado. A morena adormeceu sobre seu caderno e ficou ali até os primeiros raios solares aparecerem, incomodando-a e consequentemente a despertando. Slinkhard acordou com grande susto e dor no pescoço. Por instinto, fechou seu caderno com pressa e saiu correndo para o dormitório, para fazer sua higiene matinal e passar antes na enfermaria para tomar uma poção que pudesse ajudá-la naquele desconforto antes das aulas de sexta-feira.
O que ela não percebeu é que deixou seu caderno azul com adornos dourados em cima da poltrona.
À principio, não se espantou em não ter encontrado o pequeno objeto dentro de sua mochila, pois poderia estar em seu dormitório devido a pressa na manhã. Porém, durante o almoço, quando foi procurá-lo, não conseguia o encontrar em todos os lugares possíveis dentro do seu dormitório. Tentou a sorte, com bastante nervosismo a essa altura, no salão comunal e novamente nada. Perguntou as pessoas mais próxima se havia o visto no salão comunal, ou no caso de Septima se havia o visto no dormitório pela manhã. Nada. Pelo resto daquela tarde, sua atenção estava bem longe, numa terra quase tão distante quanto Neverland, e estava perdendo todos os conteúdos tratados nas aulas.
Wendy não se sentia confortável com pessoas lendo seus rascunhos e começa a hiperventilar, de um jeito nada bom, só de pensar em alguém tendo vários rascunhos dela em mãos. E o que ela havia escrito na noite anterior estava tão bom, em sua opinião, que não queria perder o que havia escrito. Possivelmente não escrevia mais da mesma maneira. Estava disposta a tentar o feitiço deaccio e ver se funcionava novamente. Se alguém estava com seu caderno nos corredores, poderia conseguir vir em sua direção. Sua concentração foi atrapalhada por Barnabas Cuffe, um grande colega. Ou um amigo não tão próximo. Bom, sentia-se desconfortável em rotular as pessoas quando não sabia como elas se sentiam em relação a ela. “Olá Barney.” Retribuiu o sorriso do corvino mas longe de ter o mesmo entusiasmo que o rapaz. Dava para ver que não estava no melhor dos seus dias. Seus olhos quase saltitaram para fora ao ver seu amado caderno nas mãos do rapaz. Enfim sua saga havia acabado e poderia ir dormir tranquila. “Oh, você não sabe o quanto!” Exclamou com o humor visivelmente mais elevado e abraçou Barney. “Na verdade, eu acabei dormindo na poltrona com o caderno em mãos e na pressa de manhã, tive a impressão que o levei comigo, mas o deixei para trás. Você não sabe o desespero que eu passei. Quase todos meus novos rascunhos e ideias estão anotados aqui. Eu não sei o que seria pior, perder meus escritos ou alguém ler eles.” Declarou sem deixar de sorrir, mas logo uma interrogação surgiu e Wendy olhou receosa para Barney. Sua pergunta não falada foi respondida de prontidão. “Obrigada. Mesmo. Isso significa muito para mim.”
Apesar de ter sido sincero a respeito do que havia dito, confessando a Wendy que não havia sequer tocado nas páginas amareladas, Barney estaria mentindo se dissesse que não estava curioso a respeito do que estava escrito naquele pequeno caderno de capa azul marinho. Carregá-lo durante um dia inteiro serviu como uma pequena tortura cada vez que procurava por alguma coisa dentro da mochila de couro, sempre se lembrando do que trazia ali cada vez que colocava o olho no solitário caderno e ralhando consigo mesmo por só se recordar de entregá-lo a dona justamente quando ela não estava por perto. Cuffe sabia que Slinkhard passava muito tempo com o nariz enfiado dentro dos livros. Ele a havia visto carregá-los de um lado para outro durante todos aqueles anos, lendo-os nos corredores, durante as refeições, numa poltrona do salão comunal e onde quer que estivesse e isso havia despertado nele a vontade de se aproximar da garota para conversar sobre isso quando tivesse a oportunidade, que no fim das contas nunca surgiu. Portanto, quando a ouviu falar que naquele caderno estavam todos os seus rascunhos e ideias, a curiosidade de Barney ressurgiu como uma fogueira remexida que ganhava força.
“Seus rascunhos? Você escreve, Wendy? Sei que você gosta muito de ler porque não me lembro de ter visto você sem a companhia de um livro, mas eu não sabia que você escrevia. Sabia que rabiscava algo no seu caderno, mas não que arriscava escrever de vez em quando.” O interesse do ravenclaw estava evidente, fosse na sua expressão de quem desejava arrancar da garota a sua frente qualquer informação sobre o assunto que ela desejasse lhe dar, fosse em sua postura - os braços cruzados, uma das mãos apoiadas no queixo e o corpo ligeiramente inclinado para frente. “Digo isso porque também escrevo. Contos, poesias, prosa, gosto de tudo um pouco e estou sempre tentando trabalhar em algum projeto pessoal. Poderíamos conversar mais a respeito disso! Posso ler os seus rascunhos se você quiser, e você pode ler os meus…” Tagarelou, gesticulando com empolgação e não conseguindo esconder o sorriso entusiasmado que surgiu em seu rosto. “… se você desejar, é claro.” Acrescentou logo em seguida, porque a expressão de Wendy permanecia indecifrável e ele não fazia ideia se ela acharia aquilo uma boa ideia ou a pior coisa que ele havia dito em todo aquele dia. O próprio Barney sabia o quanto amantes da escrita tendiam a ser críticos e perfeccionistas com seu trabalho, preferindo não mostrar nada a ninguém e guardar o que escreviam para si. Escrever, para ele, era como despir a alma e ninguém colocava isso nas mãos de qualquer um, mas Cuffe não podia deixar de lado o pensamento de que aquela era uma excelente ideia. Afinal, desejava publicar o seu trabalho algum dia e precisava aprender a baixar a guarda quando se tratava de seus escritos. E talvez Wendy também.











