Decidi escrever cartas pra você que você jamais irá ler. Já tinha feito isso algumas vezes, mas acabava vez ou outra de mostrando meus textos ou partes deles. Um, me lembro bem, certa vez até te emocionou um pouco. Mas ele eu escrevi quando estava feliz pela sua existência.
Não me entenda mal, sua existência ainda me deixa feliz, mas o teor das cartas agora será outro.
Eu queria até escrever a mão cada uma delas, mas teria a chance de alguém acabar vendo. Então vou fazer do eficaz porém não tão dramático modo digital, através da digitação no meu celular.
Hoje é dia 24 de julho. Importante dizer que é de 2021.
Isso porque 365 dias fazem toda a diferença, e há 365 dias atrás você e eu estávamos em um momento totalmente diferente. Ouso dizer que éramos pessoas diferentes.
Mas estou fugindo do assunto principal.
A primeira coisa que queria dizer sobre o dia de hoje é que é sábado.
Hoje foi um daqueles sábados que eu costumava amar.
A verdade é que, muito antes do que você imagina, eu comecei a gostar de sábados por sua causa.
Por todas as vezes que poderíamos, em um golpe de sorte, almoçar juntos.
(...)
Eu sempre aguardava ansiosamente o momento em que eu te ligava e perguntava se você queria dividir uma pizza. Um Mc. Qualquer coisa.
Mas calma, acredite se quiser, não tinha amor envolvido. Nem atração. Sexo nem fazia parte do meu vocabulário naquela época.
Eu simplesmente ansiava pela sua companhia, que era rara, porém sempre boa.
Eu adorava quando você calhava de almoçar na loja no mesmo horário que eu, porque você sempre tinha alguma história legal pra contar, e sabia sustentar qualquer assunto: de política a um filme de comédia. De economia a shows de rock. De cultura mundial até culinária. Algo em você sempre brilhava, e me fazia brilhar também. Até alguém que não me conhecesse perceberia o quanto eu ficava mais radiante quando estava contigo. Mesmo em silêncio, eu gostava de te ouvir falar sobre tudo e qualquer coisa. É como se mesmo que nossas realidades fossem tão distantes, ainda existia algo que eu me identificava em você. Não sei dizer até hoje o que é, só sei que me trazia alegria.
(...)
Acho que eu nunca disse isso, mas houveram sábados que eu nem tinha tanta coisa pra fazer, mas fingia ter só pra poder ficar perto de você. Ainda que ninguém falasse absolutamente nada. Um sábado em silêncio com você nunca era um sábado perdido. Eles foram a melhor (se não a única) coisa boa em 2020.
Mas acho que, como a maior parte do que nós fomos, isso também ficou em 2020.
E ainda que escrever tudo isso dos bastante, eu pelo menos posso registrar o que está acontecendo dentro de mim e o que eu estou sentindo, para que futuramente, quando eu nem souber mais de você, eu tenha certeza que foi real, e não só coisa da minha imaginação. As vezes você age de uma forma tão distante, impessoal e fria, que eu chego a me questionar se tudo o que aconteceu entre nós realmente aconteceu, ou foi apenas imaginação. Eu não consigo não lembrar de todo nosso passado toda vez que te olho, mas seu olhar nunca parece pousar em mim, ele parece estar sempre em outro planeta.
Eu li hoje que lembranças são como um objeto visto no espelho retrovisor de um carro: quanto mais seguimos, menores eles ficam, até que um dia, desaparecem.
Acho que pra você nunca nem foi tão necessário dirigir muito para esquecer, já que sua memória costuma ser tão curta. Então eu sei que em um futuro não tão distante, eu vou ser um objeto que não será mais visto no seu retrovisor.
Você por outro lado, vai estar guardado no meu porta luvas. E estes sábados, tão caros pra mim, também estarão lá.
Eu sei que você estaria pensando “nossa, que menina dramática”, e esse é um dos motivos pelos quais você nunca vai ler nada disso. Também porque você sempre teve um pouco de preguiça de ler textos muito grandes, mesmo os escritos por mim.
Acho irônico o fato de você conseguir se interessar por coisa ou outra que eu escrevia, e parte disso sempre foi sobre meus textos de superação sobre meu ex.
Quem diria que não muito tempo depois, eles seriam sobre você.
Pior que isso é que eu sei que na sua cabeça nós nem mudamos tanto, só estamos ocupados demais, afastados demais, na correria demais.
Mas tá aí, como disse antes, vivemos em realidades diferentes. Pra eu sentir que você tá na minha vida, eu preciso sentir você na minha vida. Preciso te ver, olhar pra você, sentir seu perfume, ouvir tua risada, saber da tua vida. Hoje eu não sei mais nada. Nada sobre você. Nada sobre mim.
Eu não sei se em algum momento eu já me senti tão perdida.
Hoje eu só estou me sentindo sozinha, desnorteada, tendo que novamente torcer por pequenas interações diárias ou golpes de sorte para que possamos dividir um horário de almoço, um cruzando o caminho do outro ao acaso...
Depois do tanto que já tive, hoje tenho que me contentar com tão pouco.
Isso tá me matando mais do que eu queria admitir.
Mas tudo bem. Essa é só a primeira carta que vai fazer com que eu aprenda a te deixar.
Ainda tem muitos dias pela frente