Kiss me hard before you go { summertime sadness } i just wanted you to know that, BABY, you’re the best i got my red dress on tonight dancing in the dark in the pale moonlight done my hair up real big beauty queen style high heels off, i’m feeling alive
Apesar de já ter visto a professora algumas outras vezes pelo campus, vê-la no seu dia a dia usual, fazendo compras e lhe pedindo para chamá-la pelo nome era algo um tanto… Perturbador. Mas Nambyul sempre preferiu ser educada e tratar todos bem do que deixar-se levar pelo constrangimento que aquele momento parecia ser para ambas. “Ah… WeiLing-ssi. Acho que posso me acostumar com isso.” Ela ofereceu um sorriso para a mais velha, apesar de tudo.
Decidiu acompanhar a mais velha em suas compras, pescando alguns produtos que ela mesma precisava levar e ajudando WeiLing com os dela, procurando manter sempre um assunto confortável. “Sabe quanto tempo vai precisar usá-la? E está ficando sozinha em casa? Eu posso te encontrar uma ajudante, eu acho…” Comentou por alto, pensando em quantos empregados já haviam passado pela casa de seus pais. “Aniyo, eonni. Eu faço questão. Não tenho nada para fazer de qualquer forma” Sorriu, já se encaminhando para o caixa para pagar suas compras e pegando a cesta de compras da professora em mãos também.
Alguns alunos realmente sentiam-se incomodados com a presença dos professores em seu meio fora da universidade. E WeiLing em seus plenos trinta e dois anos te vida se perguntava o motivo disso. Afinal, professores eram tão normais quanto os seus alunos. Percebendo um pouco de incomodo e constrangimento da mais nova, apenas assentiu com a forma qual lhe tratara. Iria respeitar caso ela preferisse manter a formalidade.
A lista de compra da chinesa não era das maiores e muito menos saudável, mas com a companhia de Nambyul, preferiu aumenta-la mais um pouquinho. O que não queria era murmúrios sobre quão péssima era a situação da professora de fotografia. Ela conhecia a fama que os alunos daquela universidade tinham por serem maldosos quando bem entendiam. – Se eu não estou enganada, acho que por mais uns três meses. Isso se eu não teimar e não cuidar direito desse pé... Ah, não precisa, eu contratei uma empregada pra me ajudar com a casa enquanto eu estou com o gesso. – por ter sido criada aprendendo as tarefas domesticas desde muito pequena, a chinesa nunca sentiu a necessidade de ter uma ajuda em casa, mesmo depois de ter conseguido alcançar uma estabilidade financeira suficiente para viver bem com a irmã mais nova. Mas ela não tivera escapatória, apesar de odiar ter que ver alguém se matando no seu lugar para manter sua casa limpa. – Então tudo bem... Acho que não daria mesmo muito certo ir pegar o metrô com essas sacolas e as muletas nas mãos. – soltou uma risada ao constatar que se não fosse pela mais alta, ela ficaria com a maior cara de tola na porta do mercado sem ter a menor ideia de como voltaria para casa. Ajudou a passar as compras e separar nas sacolas o que pertencia há quem.
Antes da mais velha abrir a porta, Mi questionou-se se fora uma boa ideia ter aparecido no local sem avisar a outra, mesmo tendo um presente em mãos, sabia que muitas pessoas podiam se irritar com visitas inesperadas.- Eu mesma - Falou rindo, mesmo sabendo que fora uma pergunta retórica. Observou a perna engessada da mais velha, descobrira a situação da mulher por meio de uma colega de sua sororidade que falara da “professora que havia quebrado a perna” e quando entrara em sua rede social confirmou o que lhe disseram. - É sim! Não precisa agradecer, sunbaenim - Falou sorrindo.
- Com licença - Disse antes de entrar no apartamento da mulher e quase gritou de fofura ao ver o cachorrinho da mais velha - Aigoo! Ele é tão fofo, qual o nome? - Disse acariciando o cão, apaixonada por animais como era, deveria tomar cuidado para não se distrair enquanto conversava com a professora, afinal, filhotes a desconcentravam. Tirou os sapatos antes de entrar por completo e assim que já estava dentro do local, virou-se para a mulher - Como está sua perna? -Perguntou com certa preocupação.
A sua isolação do mundo se devia ao seu estado deplorável que se sucedeu devida à depressão. A mulher chinesa que era considerada muito bonita agora tinha constantemente olheiras profundas graças as noites em claro e os cabelos desgrenhados e ela não tinha a menor vontade de arruma-lo somente para ficar em seu sofá na companhia de seus animais, uma garrafa de soju e o maior balde de frango frito da loja que ficava no bairro de casa. Mas era claro que uma visita inesperada lhe deixou feliz. Preocupação. Foi aquilo que moveu a mais nova de ir lhe visitar e isso aqueceu o coração escuro e murcho da professora, que o que mais precisava no momento era uma companhia saudável como a de Yang Mi.
Não conseguiu conter uma breve risada ao observar a interação da filhote de beagle que corria em volta das pernas da recém chegada. – Ela é uma gracinha mesmo, o nome é Guanhua, é chinês então pode ser complicado de você pronunciar. – riu levemente ao tentar ensinar a pronuncia do nome da cachorrinha que tinha o nome de tangerina em chinês. WeiLing nunca foi muito boa na hora de dar nomes ao animais e coisas. Seu casal de gatos se chamavam Mulan e Shang. E ela não fazia a menor ideia e onde estes estariam. – Eu tenho gatos também, mas devem ter saído por aí. – dizia se arrastando de volta até o sofá largo de frente à mesinha de centro e a tv, dando uns tapinhas ao seu lado para que a garota lhe acompanhasse. – Ela tá indo... Vou ter que ficar usando essa porcaria ainda por alguns meses. – suspirou ao encarar a perna engessada. Talvez se ela não estivesse com aquele gesso a sua situação não seria tão ruim, ela poderia voltar à sair para fotografar no parque ou ir dar uma volta para respirar um pouco de ar puro. Mas mesmo com o elevador, ainda era complicado se locomover com uma perna quebrada.
Yujia podia contar nos dedos de uma mão só as vezes em que realmente se sentiu irritada ao ponto de cortar contato com alguém, porém quando tal raridade acontecia ela realmente se esforçava para não acabar cedendo e ir pedir desculpas. Esse foi o caso com Weiling. Por semanas se proibiu de conferir qualquer rede social da irmã ou até mesmo perguntar sobre ela para alguém do campus, acreditando que essa quem deveria ir vê-la para quem sabe pedir desculpas. Se tivesse se permitido a ficar preocupada e pelo menos conferido uma postagem talvez as coisas não tivessem chegado a esse extremo, mas como poderia adivinhar? — Espera, você e a Chae estão separadas? — Arregalou os olhos surpresa. Mesmo que se tratasse de um relacionamento escondido e todos do campus pensassem que a Delta realmente namorava um rapaz, a chinesa pensava que as duas tinham futuro e logo poderiam se assumir. — Aigoo, parece que tudo caiu no seu colo de uma vez só. — Suspirou chateada.
Se sentia mais uma vez completa ao abraça-la e por alguns minutos preferiu ficar em silêncio se apertando ali cada vez mais enquanto a mão secava as lágrimas da irmã. Era bom que não tivessem mais vergonha uma da outra para esconder as falhas e fraquezas, parecia que a discussão havia servido para acabar com o laço mãe e filha que tinham para se tornarem verdadeiras amigas como deveria ter sido desde o início se não tivessem passado por tantos obstaculos que fizeram Weiling se tornar mulher ainda muito jovem. — Não tem que melhorar em nada. — Puxou ar pelo nariz e então fez uma careta. — Quer dizer, talvez um banho ajude. — Imaginava o quanto Ling estava fumando para chegar a aquele estado. — Uhum, mas dessa vez eu ajudei ela então talvez esteja melhor que o normal. — Sorriu mesmo que as duas soubessem que Yujia era uma cozinheira mediana. As vezes seus pratos saiam melhores do que esperava, outras um desastre total. Dessa vez estava mais para a primeira opção.
Levantou e deixou as muletas eretas para que a mais velha pudesse pega-las, logo a ajudando a descer degrau por degrau. Os dois pares do lado de fora sorriram ao verem as irmãs juntas, as convidando para sentarem na mesa de piquenique repleta de comida. Agora sim começariam a comemorar.
A forte teimosia e o orgulho quase que inquebrável infelizmente eram duas das características muito fortes e presentes nas duas irmãs. Fazer-se de forte desde muito pequena fez com que a chinesa mais velha acabasse se tornando assim. Difícil de confiar realmente e de dar o braço a torcer quando mais precisava. E se não fosse por aquilo, ela já teria se aproximado novamente da irmã muito antes. Muito antes de sua culpa tomar conta de si por inteira e ter entrado naquela depressão. - Estamos sim... Na verdade, nunca fui um relacionamento de verdade, né? - deixou uma risada fraca escapar de seus lábios seguido de um suspiro pesado. Desde o começo ela sempre soube que aquela relação nunca daria certo, mas ela se esforçou para aproveitar dela o máximo que podia. Somente pelo fato de ser professora e a loira uma das alunas da universidade já era um problema e tanto, se alguém da diretoria tivesse conhecimento delas, ela já estaria bem longe daquele emprego além de ter sua vida profissional manchada. WeiLing nunca foi do tipo que gostava de esconder as coisas, tirando o passado de sua família; então se manter em um relacionamento que deveria ser restrido o máximo que podia lhe deixa péssima. - No meu colo? Não, caiu tudinho de vez na minha casa.
As dores internas que lhe corriam durante todo esse tempo já não eram mais tão fortes naquele momento. Ter conseguido recuperar a sua irmã, que era literalmente a sua vida, havia sido tão revigorante que ela conseguia sentir a felicidade novamente. Aqueles simples abraço e as mãos da mais nova em seu rosto levando as suas lágrimas para bem longe só fazia sentir mais vontade de chorar. Porém, lágrimas de felicidade por acreditar que agora sim ela estava pronta para se recuperar devidamente. - Yay! Eu não estou tão fedida assim! - exclamou imitando a careta da irmã antes de cheirar os braços e o cabelo, mas ela não sentia nada de diferente. Desde pequena via o pai fumando charutos, então a fumaça e o cheiro de tabaco ou nicotina nunca foi algo que lhe incomodou mesmo quando havia parado com os cigarros. - Você fazendo jiaozi!? Essa eu tenho que provar! E muito! - se antes ela já estava animada para comer, quando soube que a irmã que havia ajudado sua animação somente aumentou. Das duas a que cozinhava melhor sempre foi WeiLing, por ter aprendido a cozinhar e cuidar de casa ainda bem pequena. Então sempre quis paparicar a irmã na cozinha o máximo que podia e nunca dava uma chance da mesma se soltar em frente ao fogão.
Como no prédio que morava tinha elevador, subir e descer escadas com a perna naquela bota ortopédica junto com as muletas era um sacrifício tremendo. Os olhares dos tios e avós quando a mesma desceu ao lado da irmã foi algo que lhe atingiu em cheio bem no coração, como se lhe dissesse que não havia mais problemas. A comilança se seguiu um por um bom tempo, parando somente os avôs se levantaram e entregaram às netas os típicos envelopes vermelhos chineses com uma quantia de dinheiro dentro representando a boa sorte para o ano que começava. Além da pequena troca de presentes, que a Fa mais velha acabou ficando de fora por não ter preparado nada para aquela noite que acreditava que seria mais uma solitária em casa.
Mesmo quando foi deixada, mesmo quando precisou segurar as pontas pela irmã mais nova enquanto se adaptavam a um país diferente com uma família nova, Yujia jamais havia visto a irmã beber se não fosse por diversão com os amigos ou socialmente enquanto assistia qualquer coisa na televisão de casa. Isso a preocupava mais do que podia expressar.
Como Weiling podia ser teimosa ao ponto de ser atropelada e não contar para ninguém? Era assustador pensar que se não tivessem ido busca-la a qualquer momento apareceria alguém lhe dando uma notícia muito pior que um pé quebrado. Talvez aquela fosse a hora certa para ser a responsável que se mostra mais forte e cuidar da que obviamente mais precisava.
Observava o avô que sempre foi tão compreensível com as duas e acabou se tornando um bom ouvinte para os problemas alheios. Ainda assim, parecia que agora era hora das Fa serem adultas e lidarem com seus fantasmas juntas, ou até mesmo sozinhas se fosse o melhor. Só precisavam seguir em frente e crescerem.
— E quais são eles, jiejie? — Ela finalmente havia admitido o que a mais nova esperava ser confirmado a anos. Ninguém era frio a ponto de passar bem por todos aqueles problemas durante a vida, e os problemas da irmã com certeza não eram facéis. A propria não sabia se conseguiria lidar caso estivesse do outro lado do jogo, não sendo a protegida durante toda a vida. — Você só precisa de mim. — Tentou brincar se jogando na cama junto e logo abraçando a morena, passando a perna por cima do quadril de forma com que seu vestido cobrisse as coxas a mostra. Não era exatamente mentira o que dizia. Com certeza procuraria por ajuda e a acompanharia para onde precisasse, quem sabe não passaria mais tempo no apartamento? Pelo menos por alguns meses.
Com a bochecha encostada no ombro ergueu os olhos para que pudesse observar o rosto da que sentia tanta falta, o acariciando mesmo que o cheiro vindo do cabelo negro não fosse agradável. — Feliz ano novo. — Disse baixinho. — Prometo fazer com que as coisas melhorem a partir de agora. — Não precisava prometer de verdade para que soubesse que falava sério, mas não desistiria da mulher. Secou mais uma vez as lágrimas e ergueu a parte de cima do corpo. — Você precisa comer, huh? Tem jiaozi.
Seria uma mentira se dissesse que não gostava de beber, pelo contrário, nunca faltou soju ou cerveja na geladeira de casa. Mas nunca ao ponto que estava, como semanas atrás que secou uma garrafa de vodka em noite junto com um maço de cigarros todinho. Ela havia parado de fumar socialmente cerca de três anos atrás, mas pelo que parecia ela não estava totalmente livre daquele mal.
A verdade era que a mais velha assustou-se pela irmã não ter tido conhecimento de sua perna quebrada já que a mesma havia atualizado seu instagram com uma frase totalmente tediosa e reclamando dos próximos meses que teria de usar aquele gesso. Ela era teimosa, sempre foi, mas se não fosse por sua teimosia não teria conseguido muita coisa na vida. Mas daquela vez ela admitia que passara do ponto. Poderia ter acontecido algo grave consigo, visto que lhe fora receitado antidepressivos mas não tomava por conta do álcool que poderia ter um efeito colateral muito ruim.
WeiLing era mais do que grata por ter aquela família, os avos sempre se mostraram muito atenciosos e compreensivos desde o primeiro dia que pôs os pés naquela casa com Yujia em seu colo. Sabia que mais do que nunca ela precisaria aceitar a ajuda tanto da psicologa que lhe atendia e da família. Principalmente de Yujia. - Ah, Shizi... Eles são muitos... Monstros do passado, a briga que tivemos, eu e a Chae estamos separadas, esse pé quebrado... - de olhos fechados ela tentava puxar de sua mente cada coisa que lhe afligia, listando apenas os mais "importantes". Já estava mais do que cansada de ser uma muralha durante toda a vida apenas para proteger a irmã e a si mesma, era difícil de admitir isso mas ela já era grandinha e sabia cuidar de si mesma.
Foi surpreendida pelo abraço desengonçado da irmã e naquele momento ela deu-se conta de que já não havia mais dores e magoas entre elas, e aquele abraço era o que ela mais vinha precisando. Não controlou as pequenas lágrimas que escorriam pelo seu rosto enquanto apertava aquele abraço com toda a força que tinha. Manteve os olhos fechados por alguns minutos, apenas aproveitando do carinho que lhe era feito no rosto. Estava um pouco pálida e mais magra, mesmo que sua dieta ultimamente estivesse sendo composta de frango frito e ramyun picante. - Feliz ano novo Shizi... E eu prometo ser uma irmã melhor. - respondeu baixinho, tentando controlar os olhos querendo pesar. Ultimamente vinha estando em um sono constante, o que não era muito comum para ela. - Jiaozi? O que a vovó faz? - automaticamente o tom de voz da mais velha mudou, tornando-se animado e a barriga da mesma parecia gritar em saudades da comida da idosa. Deu uns tapinhas na traseira da irmã com uma risada, para que ela se levantasse e alcançasse as muletas para ela e então levantar-se rapidamente para seguir aquele cheiro maravilhoso da comida caseira que tanto sentia falta.
Sequer podia acreditar no que estava vendo. Esperava ver uma Weiling tão bela quanto antes, chateada, mas não mil vezes pior do que o último encontro. Estava aérea, fumando e com certeza bebendo, conhecia bem aqueles vícios e sabia o motivo deles aparecerem. Por alguns segundos se sentiu culpada, mesmo com os avós Yujia era a única pessoa que a mulher podia confiar de verdade para qualquer coisa, mas mesmo que o sentimento fosse reciproco ela não se deixou afogar tão fundo. Deveria ter arrastado a irmã para a superfície junto mesmo que de forma discreta. — Como pode mentir pra mim? — A pergunta pareceu irônica pensando no motivo da distância entre as duas. — Está bêbada. — Sussurrou para que os avós não escutassem, era triste vê-la daquela forma.
Seguiu o avô pelas escadas mesmo que não tivesse sido chamada, mas também não impedida. — O que aconteceu com a sua perna? — Geralmente a preocupação de Yujia vinha de forma doce em meio a uma conversa intima entre as duas em meio a doces e refrigerantes, mas pelo o que via daquela vez seria diferente, seria um sermão. — O que fez durante esse tempo? — Esperava ouvir todos os detalhes já que mal a reconhecia naquele momento.
— Você não tem dado noticias, precisaram ir te buscar no ano novo e quando aparece está com esse cheiro horrível de cigarro e bebida. — O avô ficava cada vez mais vermelho enquanto falava. — Eu sei que vocês duas brigaram mas minha neta, o que diabos é isso? — Apontou para o gesso envolvendo aquela parte do corpo e suspirou, passando as mãos pelos poucos fios de cabelo que lhe restaram. — Yu, converse com a sua irmã. — Em passos duros deixou o local talvez esperando que a mais nova resolvesse a situação.
A chinesa sentou na cama pedindo que a outra fizesse o mesmo com dois tapinhas no colchão. Passou algum tempo em silêncio a procura das palavras certas e suspirou.
— As coisas parecem difíceis pra você agora e pra mim também está sendo, por isso não fui te visitar antes mas.. N-não da pra ver você assim e continuar aborrecida. — Afastou as lágrimas do rosto com uma mão. — Ling não faça isso com você mesma, sabe que eu te amo mais do qualquer coisa. Doí. Doí te ver desse jeito e pensar que poderia ter evitado não sendo tão orgulhosa por que pensava em você todos os dias. — Suspirou. — Agora nossos avós estão aborrecidos e.. Como posso te defender disso?
Quando perguntada em relação ao ser pega mentindo descaradamente quando era mais do que evidente, apenas soltou um dos braços da muleta e o levantou em rendição por alguns segundos. Ela não era um bom momento para equilibrar-se na perna boa e não poderia nem sonhar em por o pé quebrado no chão. - Eu não estou bêbada, eu só... - parou por uns instantes para fechar os olhos e suspirar profundamente, organizando os pensamentos em sua mente confusa. Abriu os olhos e passou a mão livre pelos cabelos. - Eu só estava voando, só bebi duas garrafas pequenas em casa. - com aquela crise e a alta quantidade de álcool que ela vinha ingerindo diariamente acabou fortalecendo o seu fígado e sua tolerância ao álcool.
- Eu fui atropelada no ano novo. - apenas respondeu diretamente, não queria prolongar aquela resposta e confessar que estava bêbada naquele dia. Mas para ela, a culpa foi do motorista pois ela se lembrava bem do semáforo estar indicando a passagem dos pedestres. A cada degrau que subia era como se estivesse cada vez mais próxima do inferno, que seria os sermões do avô. Mas ela jamais protestava, mesmo sendo uma adulta, ela abaixava a cabeça e ouvia atentamente o que o mais velho lhe dizia e perguntava com firmeza demonstrando o devido respeito que ela tinha pelo mesmo. - Eu peço desculpas por não ter dado nenhuma notícia ao senhor, mas eu não queria preocupa-los. - respondeu, dando-se conta da contrariedade de suas palavras acabando por soltar uma fraca risada de si mesma. - Mas acabei fazendo tudo ao contrário... Eu só não estava bem. Quer dizer, ainda não estou, mas eu decidi que estava na hora de dar uma satisfação. - concluiu voltando o olhar para os mais velhos, com expressões impossíveis de destingir se eram de preocupação ou de desapontamento. Naquele momento Fa WeiLing dava mais do que graças aos céus por eles não terem visto ela semanas atrás, quando estava em um estado deplorável que nem ela mesma se reconhecia.
Quando o avô deixou-as sozinhas, já imaginou que viria por ai um novo sermão. Com passos lentos arrastou-se até o espaço livre da cama ao lado da mais nova. WeiLing sempre se mostrou uma mulher mais do que forte, desde muito nova quando tomava a frente de sua mãe para defende-la do pai agressivo, ou anos mais tarde quando a irmã chegava em casa com reclamações sobre os colegas preconceituosos e até mesmo quando se tratava dela. Mas tanta força era como se fosse uma espécie de armadura para proteger a si mesma e aos que amava e ela finalmente havia se quebrado. - Os meus problemas são maiores do que eu posso aguentar. - confessou após minutos quieta, ainda encarando o chão e o pé engessado. Por algum motivo ela adquiriu a mania de olhar para os pés. - E mais uma vez eu fui fraca. - sussurrou encostando as muletas ao lado da cama e praticamente desabando o corpo sobre a cama para encarar o teto. Aquele quarto era o seu quando mais nova, ele estava um pouco mudado mas as estrelas que brilhavam no escuro ainda estavam no teto. Ficar observando-as vez seus sentimentos aflorarem novamente, formando um nó em sua garganta quando ouviu a última frase e pergunta da irmã. Ela se lembrava dela, foi um dos dias mais angustiantes dentro de si, ter a irmã chamada de vira-lata foi como cortar o seu coração.
Já havia passado da meia noite, a família não estava comemorando mas pelo menos ela estava no melhor lugar que poderia estar.
Ano novo chinês. As sete da manhã encarava sua face cansada no espelho das Zeta pensando se estava realmente disposta a encarar tal data comemorativa que envolvia algumas tradições entre os Huang e as Fa. Desde a briga com Weiling sentia como se houvesse um grande buraco em seu peito e sabia que aquela data apenas o deixaria mais fundo sem a mais velha ao lado. Diversas vezes pegou o celular conferindo se a outra estava online e até mesmo discou o número, mas não teve coragem de concluir a ação. Todas as garotas haviam saído, os amigos estavam com suas respectivas famílias e ela não tinha para onde fugir a não ser o conforto da casa dos avós.
As duas da tarde ligou perguntando quem iria, discretamente, como quem não queria nada. Mas o nome que esperava não foi citado. Andou pra lá e pra cá, quase abrindo uma cratera no chão de madeira do dormitório, decidindo no fim das contas que aproveitaria a festividade do jeito que estava lhe sendo oferecido. Sem Weiling. Com o hanfu cor de rosa, pijamas e outras peças confortáveis na mochila, a chinesa seguiu com sua scooter azul até Seul, entrando no bairro tão familiar.
— Como a Wei está? — A avó parecia inocente com sua pergunta já que era a que sempre dava as noticias mais recentes. Mas dessa vez não tinha nada.
— Ela está bem. — Apertou os lábios obviamente desconfortável, não queria preocupar a senhora por uma briga. A mesma pareceu convencida por sua resposta, mas o senhor do outro lado da mesa não.
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Aqueles instantes que passara entre o carro dos tios Huang e a porta de madeira dos avos pareciam mais um eternidade. O que era algo muito ruim para WeiLing, que nos últimos tempos não conseguia passar mais de um minuto sem perder-se em seus pensamentos. Mas dessa vez, ela já estava se concentrando para o exato momento em que os avos vissem o seu estado e começassem com a torrente de perguntar e sermões que ela já conhecia bem. Além de ter de controlar o seu corpo e coração em relação à irmã que não tinha um ano sequer que não passasse o ano novo naquela casa. Assim como ela... Tal lembrança lhe fez soltar um suspiro profundo ao lembrar-se que naquele ano estaria quebrando a tradição das irmãs com seus amados hanfus, enquanto ela, a vó e tia vestiam os típicos qipaos vermelhos. Mas ela não tivera tempo de procurar a caixa bem conservada com seus trajes típicos.
Naquela noite estava criando um habito chato e descontrolado de olhar as horas a cada minuto e quando olhou novamente, ouviu a porta ser aberta e claramente a comemoração dos idosos em rever o filho e a nora. Já fazia um tempo desde que eles visitaram os avôs, a mulher tinha um pouco de medo de avião então eles preferiam não fazer tantas viagens além da idade que chegava para eles. Mas eram tão felizes e animados que a idade não era nada para eles. WeiLing apenas via toda a cena do degrau mais baixo, com um sorriso feliz nos lábios por aquela visita tão inesperada. Ela até mesmo cogitou a ideia de dar meia volta e voltar para casa, devagar com as muletas até chegar na estação de trem. A felicidade no momento era grande, e ela não queria ser um motivo para atrair estresses e vergonha.
O nervosismo estava começando a deixar-lhe agoniada e as mãos começavam a coçar em vontade de pegar novamente o maço de cigarros do bolso do casaco por cima do qipao que ia até a altura das coxas; para não atrapalhar na hora de movimentar-se com o pé engessado. Até ver a irmã na porta e novamente a dor voltou ao seu peito. Sim, ela estava naquele estado em parte graças a discussão que tivera com a Fa mais nova. Ambos os lados estavam errados, mas o orgulho das mesmas era maior que a culpa e somente causava dor. Mas talvez a dor tivesse batido em cheio para a mais velha.
- Eu? Fumando? - tentou desconversar aquela pergunta no exato momento em que a mais nova aproximou-se, mas era impossível manter aquela mentira quando se tinha os cabelos longos cheirando a nicotina e havia um resto de cigarro escondido embaixo dos seus pés. Os papeis estavam invertidos naquele momento, ela só não sabia se era bom ou ruim. Suspirou e virou o rosto para a rua a sua frente, olhando cada detalhe das iluminações das casas ao redor. Aquela casa era a mais decorada da rua, o ano novo chinês sempre foi assim, muito vermelho, dourado e luminoso. Coisa que WeiLing gostava naquela data. - Eu não estou fazendo nada... Realmente não entendi. - tombou um pouco a cabeça para o lado em confusão com a pergunta da irmã. Ela realmente não havia entendido o sentido daquela pergunta, talvez por já ter bebido umas duas garrafas pequenas de soju em casa.
"Quem é aquela ali?" era possível ouvir ao fundo a voz da vovó Huang, ajeitando os óculos em seu nariz e cutucando o marido ao seu lado. Ninguém na casa sabia do momento ruim que a mulher estava passando, quando eles ligavam ela apenas dizia que estava bem e que estava trabalhando muito. Nunca gostou de mentir para os avos e tios, mas naqueles últimos tempos ela não via outra saída por mais que instantes depois ela fosse tomada pelo remorso da mentira. Afinal, eles eram sua família e estavam preocupados por seu sumiço. "WeiLing? Venha já aqui mocinha!" o tom sério do mais velho Huang fez com que a Fa mais velha murchasse em seu lugar, como uma criança pronta para levar uma bronca daquelas. Em passos devagar aproximou-se da porta e subiu lentamente os degraus da casa que para sua infelicidade eram mais altos que os normais. Agora de perto estava evidente a preocupação dos demais, além da cara que fizeram ao sentir o cheiro forte do cigarro.
Parecia que finalmente algo começava a melhorar na vida conturbada de WeiLing. Aquele momento intenso de nostalgia e sofrimento minutos antes da virada do ano fez com que uma faisca dentro de si tentasse à todo custo voltar a acender seu coração. Estava à alguns dias indo ao psicólogo, então a sua melhora lenta já começava a ser reparada. Até mesmo a vizinha da frente havia parado de lhe chamar de louca a cada vez que a via.
Secou as lágrimas sem se importar se iria manchar a maquiagem leve que tinha no rosto e suspirou, buscando forças para levantar-se e fazer o que sua mente manda as vezes. Mais uma olhada no relógio e o orgulho parecia lhe prender naquele sofá, deixando-a confusa sobre o que deveria escolher. Quando ouviu a campainha alta ecoar pela casa, assustando a si mesma e ao cachorrinho ao seu lado no sofá que estava um pouco assustado com a festa do lado de fora do prédio. "Visita uma hora dessas não!" gritava em sua mente ao se se levantar com dificuldade para a perna engessada não sair chutando tudo da mesinha e ir até a porta. Para levar um dos maiores sustos e surpresas de sua vida.
- Ti-tios? - perguntou aos senhores na porta. Senhores que conheciam mais do que bem e que devia inteiramente a sua vida à eles. Foi impossível conter novamente as lágrimas de saudades quando os abraçou com força e cuidado, afinal, aqueles que cuidaram de si e sua irmãzinha ainda na China já estavam com seus sessenta anos e não queria que bituca do cigarro acesso entre seus dedos encostasse neles. Sentia vergonha de si mesma em reencontra-los depois de tantos anos sem vê-los. Dezesseis anos desde que saíra da China com a ajuda deles, se não fosse por eles ela poderia ter morrido na mão do pai ainda criança. Mas preferiu afastar tais pensamentos e se focar nos chineses com um sorriso feliz em seu rosto. Sorriso que parecia estar escondido à um bom tempo.
Mais uma olhada no relógio e faltava meia hora para a meia noite. "O que aconteceu com você? Você sumiu WeiLing! Viemos te buscar!" o tom sério dos Huang matavam-na de vergonha pelo que se tornara. Sabia que não era sua culpa, mas sabia que ela ao menos procurou ajuda antes. Talvez suas preces tivessem sido atendidas, como se eles fossem um anjos prontos para lhe resgatar daquele poço que se enfiara. Quando informada que eles iriam para a casa dos avos, não pensou duas vezes em aceitar e ir juntos dos mais velhos sem protestar. Ela estava se sentindo uma garota de quinze anos que aprontava e precisava de boas broncas dos pais (ou melhor, segundos pais) e dos avos.
Sua aparência não estava das melhores, mas também não estava mais tão desleixada quanto semanas atrás. Mas eles não tinham tempo para espera-la trocar-se e ela nem queria, pois queria passar a virada do ano novo lunar com aqueles que amava e tanto precisava. Pelo caminho eles perguntavam o que estava acontecendo com a mulher e ela não sabia mentir para eles. Todos os detalhes foram soltos, desde a discussão que tivera com a irmã e as consultas no psicólogo. A conversa somente parou quando chegaram em frente à casa grande e pintada de branco, igualzinha as demais da rua com somente o telhado de estrutura chinesa como diferença entre elas. Lembranças e mais lembranças era o que estava movendo WeiLing nos últimos tempos, deixando-a sensível e deveras chorona.
Sete minutos para o ano novo e a campainha fora tocada apressada mente pelos Huang à sua frente, deixando-a atrás enquanto apagada o cigarro no degrau que dava à porta de madeira com o pé bom.
Se havia um feriado que WeiLing realmente amava, este era o ano novo. O ano novo ocidental e claro, o chinês. Por ter nascido na China, a mulher havia crescido arraigada às tradições de sau pais natal. E não havia perdido tal amor por sua cultura nem mesmo quando ela e sua irmã se mudaram para a Coreia e boa parte daquela conservação cultural era graças aos avôs Huang, como ela e Yujia costumavam chama-los.
Mas naquele dia o ano novo não iria ser feliz para ela. Sentada no sofá de casa com o pé sobre a mesinha de centro para descansa-lo, ela olhava toda a sua sala ao seu redor. Esta devidamente decorada (na medida do possível) tradicionalmente em tons de vermelho e dourado. Lanternas chinesas, as laranja e as moedas de ouro junto com os envelopes vermelhos, e claro, a comida típica chinesa somente para ela.
A televisão ligada em um canal aleatório não chamava mais a sua atenção, e sim um porta retrato sobre o rack da sala. Como fotografa que era, era impossível não ter uma forte ligação com aquele meio de guardar lembranças e ultimamente elas não estavam sendo das melhores.
South Korea - Itaewon; 18.02.2006
De acordo com a astrologia chinesa, aquele ano seria o ano do cachorro, cinco anos depois de terem chegado à Coreia e ainda não haviam se acostumado com o fato de não poderem mais apreciar o ano novo chinês da melhor forma possível. Com a dança do dragão vermelho e o leão no meio da rua, assar o carneiro e as demais brincadeiras típicas que eram feias na rua durante a enorme festa que era pinta de azul e dourado. Mas aquele ano em Itaewon, os moradores chineses e os demais estrangeiros se juntaram e conseguiram organizar uma festa pequena, mas o suficiente para sanar a saudades de casa que boa parte daqueles imigrantes sentiam. E com as Fa não era diferente, pelo menos para a mais velha.
Ela e a irmã eram as diferentonas entre a multidão. Enquanto a maioria dos chineses ali presentes usavam trajes típicos do ano novo principalmente o qipao, as irmãs chinesas vestiam hanfus coloridos, WeiLing de vermelho e branco e Yujia de azul e branco. Os avôs havia tomado forças para saírem de casa e foram apreciar a cerimônia das netas adotivas e se divertiam como nunca antes, além de reclamarem a cada hora que as netas não estavam parecendo que estavam em um ano novo e sim que saíram da dinastia Tang.
"Jiejie! Me carrega, eu não consigo ver nada!" A garotinha de cerca de oito anos vivia dizendo aquilo, a cada vez que alguém maior que ela ficava em sua frente, causando risadas na irmã e nos avos bem ao seu lado. Por ser doze anos mais velha e a mãe de ambas sempre ter trabalhado o máximo que podia, era WeiLing quem muitas vezes exercia o papel de mãe para a garota e mesmo depois de alguns anos ainda continuava a mesma coisa. Quando perguntavam à chinesa mais velha o que ela mais amava na vida a resposta vinha em menos de um segundo: A minha irmãzinha, a Yujia. E ver a felicidade da criança admirada no momento em que um começou a dança do leão e do dragão, ambas com uma fantasia improvisada que no fundo não deixava de ser bonita.
Saboreavam as mais diversas comidas típicas, além de dançarem juntas com pequenos tamborzinhos de mão. Durante os anos na China, muitas vezes durante o ano novo lunar WeiLing dava uma escapada de casa para ver de perto da festa no centro da cidade. Ela sentia falta do ano novo chinês legítimo, mas aquele dia conseguia sentir-se em casa novamente com a irmã que nunca pôde ter a chance de aproveita-lo bem. E no final da festa havia pedido para um senhor que passara boa parte da festa ao lado da família mista, Fa e Huang. Foto aquela que ficaria durante anos no porta retratos da sala da irmã mais velha.
South Korea; 27.01.2017
E mais uma vez gotas como se fossem de chuvas escorriam pelas bochechas da Fa, com o coração tão apertado que sentia uma pontada forte. Passava os dedos pela foto de onze anos atrás, na companhia da irmã em seu colo e com os cabelos com presilhas de flores prateadas. Além dos avos sorridentes abraçando as netas que ganharam com o tempo.
O tempo. O tempo poderia ser muito bom, pois em sua maioria ele curava e melhorava a vida das pessoas, mas para a Fa ele não estava sendo um bom amigo. Os anos se passaram e a relação que tinha com a irmã já não era mais a mesma até mesmo antes da discussão feia que tiveram. Ela sabia que era bem mais velha e que uma hora ou outra na adolescência da irmã as coisas mudariam, mas ela de fato não queria aquilo.
Amor demais. Talvez amar demais tenha sido o maior erro de sua vida, pois se não fosse pela proteção excessiva que ela sempre teve com a irmã e o medo dela saber toda a verdade sobre a família que tinham, ela jamais estaria naquela situação. Esconder coisas e guardar todo o sofrimento de trinta e dois anos resultou naquela depressão que lhe tomou conta. Isolada dos poucos amigos que tinha, da segunda família e o pior... de sua irmã. Aquilo era de longe a pior dor de toda a sua vida, nem mesmo as dores após as sessões de violência em sua casa em Beijing eram de tal magnitude.
Os olhos pesados e vermelhos da chinesa percorrem pela sala até encontrar o relógio digital na parede, marcando exatamente 23:17 do dia anterior ao ano novo chinês. Faltava pouco tempo para um novo ano e um novo começo. Ela queria poder vencer aquele orgulho que lhe arrastava cada vez mais ao fundo do poço junto com aquela doença, mas não era fácil. Religiosa? Não, mas crente que existia algo superior à ela e aos demais na terra então fechou os olhos e suspirou tomando a devida força para vencer a dor por conta do pé quebrado e a em seu coração. Ainda havia tempo para mudar.
Mi sempre se preocupou muito com seus amigos, era algo de si sentir a necessidade de ajuda-los e cuidar deles, fora essa necessidade que sentiu quando soube que sua sunbaenim preferida havia quebrado a perna. Apesar da grande diferença de idade, a mais nova pegara um carinho especial pela professora de fotografia, isso acontecera quando Mi ofereceu-se para ajuda-la com o básico do violão e após algumas aulas, lá estavam elas, conversando descontraidamente, como se a diferença de idades não existisse.
A coreana não sabia muito bem o que fazer para anima-la, imaginava o quão difícil e chato devia ser ficar com uma perna quebrada. Não demorou muito para uma ideia surgir em sua mente, se até tarefas simples ficavam complicadas com uma perna quebrada, por que não levar um almoço para mulher? Por sorte ainda estava cedo e daria tempo de fazer algo. Após comprar os ingredientes necessários, começara a cozinhar. O prato escolhido fora algo que a mais velha gostava, frango frito e de bônus também fizera alguns biscoitos de chocolate.
Após terminar de fazer as coisas, chamara um táxi e entregara o endereço da mais velha para o motorista, sabia aonde a mulher morava pois a mesma lhe passara a localização uma vez. Quando chegou no apartamento, logo informou sua presença para o porteiro e após liberada fora para o andar indicado e bateu na porta da moça. Quando ela atendera, Mi começara a sorrir - Me desculpe aparecer do nada, mas te trouxe uma coisa - Disse mostrando uma sacola, dentro dela haviam dois potes com os alimentos.
O pior de toda monotonia que girava em torto de si graças à perna quebrada, era que pouco tempo antes de sofrer o acidente havia planejado uma viagem breve por Jeonju. Sabia que precisaria se afastar um pouco da cidade e deixar a mente se esvair de seus problemas, mas infelizmente não saiu como queria e a viagem teve de ser cancelada. Sabia que tinha uma grande parcela de culpa por sua perna quebrada, afinal, se não tivesse ficado tão bêbada naquele dia com certeza não estaria naquele estado.
O apartamento estaria em um total silêncio se não fosse pelo barulho das unhas pintadas de preto de WeiLing, batendo rápido nas teclas do notebook ao responder mais um e-mail de recusa de trabalho. Maldita perna. Xingava o pobre membro quebrado estirado pelo sofá cama, suspirando e irritando-se mais uma vez. Havia recebido diversas ofertas como fotografa em casamentos e outros eventos, mas na situação que estava seria impossível fazer um trabalho direito apoiada nas muletas. No final de tudo, ela já nem cogitava mais a ideia de calcular o tanto de dinheiro perdido.
"Quem poderia ser?" Se perguntava ao ouvir a campainha ser tocada e quase gritar para a empregada temporária ir abrir a porta, mas lembrou-se que era folga da mulher e então teve de se arrastar até a porta com seu cachorrinho em seu encalço. - Mi? - perguntou mais para si mesma do que para a garota, um tanto quanto surpresa por sua visita inesperada. Não havia contado diretamente para Mi sobre o pé quebrado, provavelmente havia visto em uma de suas redes sociais lamentando e reclamando da vida. Saiu de seus pensamentos quando sentiu o cheirinho gostoso de frango frito, fazendo sua barriga dar um grito e de agitar em animação. - Isso é pra mim? Muito obrigada, minha querida... - agradeceu com um sorriso agradecido ao tomar a sacola de suas mãos e dar espaço para ela pudesse entrar. Naquele momento agradecia aos céus por há alguns dias a organização e limpeza da casa estava nas mãos de outra pessoa, ou naquele momento Yang Mi iria chegar ali e pensar que havia passado um furacão.
“Aniyo. Não precisa agradecer de forma alguma, seonsaengnim. Eu estou aqui para ajudar, é claro.” Disse um pouco sem jeito, reverenciando a mais velha mais uma vez, enquanto sacudia uma das mãos em negação. Era sempre muito estranho e um pouco desconfortável encontrar com professores fora do ambiente estudantil, principalmente quando se tratava de uma professora do qual ela nunca tivera aula antes. Mas de forma alguma, uma pessoa tão educada e que viveu com doses cavalares de aulas de etiqueta a vida toda ia deixar de ajudar uma pessoa como a professora.
“Espero que se recupere logo, imagino que esteja difícil lidar com a perna assim. Precisa de ajuda com as compras? Posso te ajudar a levá-las se precisar… Eu estou de carro de qualquer forma” Sorriu de forma educada, torcendo pra que em algum momento aquele clima esquisito entre aluno e professor passasse logo.
Encontrar outros de seu meio profissional nunca foi um problema pra a chinesa, por mais que soubesse bem como era vergonhoso e constrangedor para boa parte dos discentes. WeiLing sempre prezou pela boa relação entre ela e seus alunos, até menos os que não eram de fato seus alunos. Pois apesar da diferença de idade que sempre havia entre eles, a chinesa sentia-se jovem e gostava de aprender com os mesmos. Sorriu para a mais nova e assentiu a cabeça em negação no momento em que ela lhe reverenciou. Formalidades demais realmente não era para a Fa mais velha. - Que isso, não precisa disso tudo. Estamos fora da universidade, aqui eu sou apenas WeiLing, está bem?
- Nem me fale, é um inferno usar isso aqui... Até pra fazer as coisas simples de casa eu preciso de ajuda. - bufou e olhou mais uma vez para os pés. O pé direito com um tênis um tanto quanto surrado, daqueles que pareciam estar entocados no porta sapatos à quase uma década e o esquerdo com a bota ortopédica que ia até perto do joelho. Teria de ficar alguns meses usando aquilo, além de sessões constantes de fisioterapia. A situação estava tão feia que a chinesa preferiu contratar uma empregada temporariamente só para não correr o risco. - Ajuda? Eu... Eu agradeço, de verdade, mas eu não quero tomar o seu tempo. - um sorriso sincero apareceu em seus lábios devido à preocupação da mais nova, mesmo que ter se oferecido possa ter sido apenas por educação.
segunda-feira, 30 de janeiro; àquela tarde @ campus / starter open for all!
Naquela tarde, Risa estava determinada. Depois de todos os problemas que enfrentou na semana por conta do ex-namorado, decidiu, produzir seus flyers para finalmente conseguir erguer sua banda novamente. Com o bando de papel colorido em mãos, Risa foi para o meio do campus - talvez mais próximo do prédio do curso de Música - para distribuir os flyers. Apesar da desvantagem do campus estar muito mais vazio por conta do feriado, nada ia impedi-la de sair de lá. “Participe da banda Charlotte, não importa o instrumento que você toca! Audições esta quarta!” Era seu discurso à cada flyer entregue às pessoas.
A vontade da chinesa de atravessar os bairros que separava sua residência da universidade era baixíssima, ainda mais se tratando de feriado. Mas como ela não poderia se opor à um chamado da direção da unidade, ela não teve outra escolha. Ao menos estava menos estressada que os dias anteriores. Quando terminada breve reunião que tivera com outros professores, se arrastava pela calçada com a ajuda de suas agora inseparáveis muletas quando ouviu uma gritaria vindo de poucos metros a sua frente. - Banda Charlotte? - perguntou ao se aproximar da garota loira e receber um flyer. - É uma pena que eu não saiba tocar nada... Bem, eu estou tentando tocar violão, mas só tentando.
Não queria admitir que estava sendo afetada por sua própria TPM. Nambyul nunca era afetada por nada - pelo menos nada que pudesse acabar com sua reputação -, não podia acreditar que andava tão bipolar naqueles últimos dias! Sem contar que inchada e com uma necessidade de chocolate forte demais para sua própria sanidade. Teria que quebrar sua dieta que a mantinha com o corpo perfeito para dançar, mas era a vida. Nada ia fazer a menina desistir de comprar chocolate. Nem a preguiça de ir até o mercado.
Sua própria cesta já estava cheia de barras de chocolate diferentes e soju. Tentava não sentir a menor vergonha do mundo, mas era bem difícil. Pelo menos até algo - ou alguém muito familiar, diga-se de passagem - arrancar sua atenção. Reconheceu a professora Weiling, apoiada em suas muletas, esticando-se ao máximo para alcançar a mercadoria na prateleira do mercado. Educadamente, Nambyul se aproximou, mordendo o lábio inferior em hesitação. Provida de seus saltos que nunca a abandonavam, a menina colocou-se na ponta dos pés e então alcançou o tal produto tão desejado pela professora, entregando-o em sua mão.
Com isso, Nambyul sorriu e a reverenciou educadamente. “Aqui, seonsaengnim. A senhora está bem?”
WeiLing somente conseguiu passar das escadas do prédio que residia somente por força divina, já que vontade de sair de casa era quase nula. Mas como nada era do jeito que queria e a geladeira estava a cada mais vazia, a sua única opção foi ir até o mercado mesmo. O carrinho da chinesa era basicamente composto de comidas semi prontas, chocolates e álcool. Ela estava pouco se importando com a maravilha que iria se formar em seu estômago depois de tudo aquilo.
"Ah não" Esse pensamento gritava na mente da chinesa no exato momento que reconheceu uma garota da universidade. Por mais que sempre se desse bem com a maioria dos alunos, sendo de seu curso ou não, estava em um momento em que preferia evitar qualquer encontro inesperado com outras pessoas de seu meio profissional para não acabar gerando comentários desnecessários sobre o seu estado. Enquanto ela se aproximava, olhou para a própria roupa discretamente e pode notar que estava com um aparência normal, e não parecendo uma louca como uma de suas vizinhas rabugentas não parava de lhe chamar a cada vez que colocava os pés para fora do apartamento.
- Oh, muito obrigada! Você acabou de salvar uma pessoa de quase quebrar a perna novamente. - riu baixinho tentando esconder o nervosismo, olhando para a perna engessada. - Eu estou sim, só tive um pequeno acidente e espero me recuperar logo. - lhe direcionou um pequeno sorriso, agradecida por sua preocupação mesmo que não fosse uma aluna que tivesse certa aproximação. Já havia tirado fotos dos alunos e algumas delas haviam sido de Nambyul.