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Fim
- Um ano e meio?
- Isso.
Quando ela se inscreveu para essa bolsa de estudos do outro lado do mundo é claro que a apoiei.
E embora quisesse de verdade que ela fosse aprovada nunca me permiti pensar no que aconteceria se ela realmente fosse para a China.
E agora que a situação se materializava precisávamos lidar com ela.
- Parabéns! - Ela sorriu tão feliz que todas as questões e dificuldades futuras sumiram: dezoito meses passam rápido. - E quando você vai?
- No início do próximo semestre.
E desde então todos os dias foram uma tentativa de reter o máximo possível dela comigo para compensar o tempo em que estivesse ausente.
Os primeiros meses foram relativamente fáceis: partilhar mesmo que de longe de sua felicidade, descobertas e sucesso atenuava a saudade absurda, o vazio na casa que parece gigante só para mim, a cama nunca suficientemente quente sem ela.
Ver sua escova ainda no armário, as fitas de cabelo espalhadas pela casa e cada pequeno testamento de que ela vivia aqui e voltaria a viver tornavam tolerável.
Lembro da primeira ligação em que fui um incômodo.
Era difícil conciliar os horários e criamos um calendário para saber quando nos falar. Mas quando atendeu estava com pressa, sua cabeça claramente longe de mim, mais até do que seu corpo.
Na segunda vez que ignorou uma chamada e perguntei se não precisava atender, me explicou.
- É só o pessoal me chamando para o aniversário de um colega de classe.
- E por que não vai? Podemos nos falar outro dia.
- Vai começar semana de prova, vai ser muito difícil encaixar na agenda… Não tem problema.
No momento não soube como me sentir ao notar que tão distante de sua rotina virei apenas um encaixe. Mas o mais difícil foi entender que ela estava construindo toda uma vida da qual não podia fazer parte e que a estava obrigando a escolher, e não queria fazer isso.
Afinal… Só um ano e meio, faltavam poucos meses. Depois ela voltaria inteira para mim, tendo vivido todas as experiências que a bolsa oportunizava. Por isso, fui eu a desligar.
- Pode ir, amor. É uma chance única, aproveita.
Abriu o sorriso que compensava tudo ao se despedir, mas me machucou notar que sua expressão estava mais aliviada que feliz mesmo que tenha sido sincera ao dizer que me amava.
Talvez tenha sido o pior, nunca duvidar disso.
Os contatos se tornaram mais escassos e era fácil entender a razão: a proximidade do prazo para finalizar seu projeto tomava boa parte do seu tempo.
Ao invés das ligações passamos a nos deixar mensagens que passaram a ser insuficientes para suprir a saudade. E quando minha mãe ficou doente e ela não esteve ao meu lado foi devastador de uma forma que nunca imaginei que poderia ser.
Toda a nossa relação passou a se basear na espera do momento em que ela finalmente voltaria.
- Você sumiu.
Petra tinha a melhor das intenções, sempre soube disso. E essa é a razão pela qual passei a fugir dela: não queria que abrisse meus olhos para o que estava acontecendo.
Mas quando bateu na minha porta para ver como eu estava não tive como me esconder mais.
- Tenho andado ocupado.
Qualquer pessoa que me conhecesse perceberia a mentira óbvia, ainda mais ao ver como meu apartamento sempre tão organizado e limpo estava bagunçado, o pó antes inexistente visível, muitas das plantas totalmente secas, mais caixas de congelados e sacolas de fast food do que o saudável.
Petra olhou em volta e sua expressão me comunicou toda a preocupação que sentia. Mas quando verbalizou se limitou a perguntar.
- Quando ela volta?
- Daqui duas semanas.
- Fico feliz de verdade por você.
E eu também estava: dormir se tornou impossível e amanheci no aeroporto no sábado de seu retorno.
- Faz tempo que está aqui?
Seu único irmão e a bem dizer, sua única família desde que seus pais morreram, se aproximou quando me avistou e sentou-se ao meu lado.
- Cheguei faz pouco tempo.
Menti constrangido de admitir que estava há horas ali e felizmente ele iniciou uma conversa leve que ajudou a suportar os minutos até vê-la no desembarque.
E quando a abracei de novo depois de tanto tempo longe meu mundo voltou a fazer sentido.
- Meu Deus, como senti saudade de feijoada!!
Tudo, absolutamente tudo nela me encantava, até mesmo vê-la comer seu prato favorito enquanto contava todas as coisas que fez e aprendeu durante sua estadia na China.
Quando chegamos em casa entrou como se nunca tivesse passado tanto tempo fora; não reparou na bagunça nem em nada além de mim: seu abraço foi sincero; seu beijo, sua entrega. Tudo que eu sentia entre nós era saudade e desejo.
Talvez tenha sido bom não saber que era uma despedida porque nenhum traço de incerteza ou medo manchou nosso reencontro. O último.
Parecia surreal vê-la ao meu lado depois de tanto tempo, acordar sentindo seu cheiro.
Mas quando despertou seu olhar estava totalmente diferente do da noite anterior.
- Me convidaram para estender o projeto.
Sua voz saiu calma mas evitou me olhar quando disse. Tomei mais um pouco do café me permitindo pensar a respeito do que acabei de ouvir.
- Quanto tempo?
- Três anos, inicialmente.
Senti o knockdown na hora: duvido muito que seu salário fosse o suficiente para nos manter até que eu me estabelecesse em um país no qual não sabia nada do idioma, ainda mais tendo uma profissão burocrática e dificilmente atrativa fora daqui.
E o frio na barriga se alastrou pelo corpo todo quando percebi que seus planos não me incluíam mais. Foi difícil colocar para fora a pergunta que selaria nosso destino.
- Aceitou?
Os olhos dela estavam vermelhos e só balançou a cabeça afirmativamente.
Mais para mim do que para ela, repeti uma frase que se tornou um mantra em minha boca desde que foi embora a primeira vez.
- Vai dar tudo certo…
Ela concordou e se aninhou no meu abraço, e não tocamos mais no assunto o resto do dia.
Ela passou duas semanas comigo antes de embarcar de novo; esperamos ainda nove meses de desencontros para nos convencer que precisávamos ter coragem de seguir separados. De formalizar uma separação que já era fato.
- O que faço com suas coisas?
- Pode doar? Ou posso pedir para meu irmão buscar…
Trocamos nosso último adeus.
Desligou a ligação e fiquei segundos inteiros olhando para a tela, tentando entender como reestruturar minha vida fora dessa relação que foi morrendo de forma tão sutil que quando menos percebi já estava apodrecida.
Levantei e fui até o armário do banheiro tirar o pouco dela que ainda restava e jogar no lixo.
No guarda-roupa, dezenas de peças que atestavam nosso cotidiano juntos e agora eram apenas um amontoado de panos; um vestido pendurado junto a uma camisa social minha e que lembrou da noite em que fugimos de uma festa para poder vir para casa fazer nossa própria comemoração, a jaqueta que ela gostava de usar e dizia combinar com meus olhos.
Passei a colocar coisas minhas na caixa: o par de canecas que usávamos para tomar chá nos dias frios; o livro que me deu e se tornaria insuportável ler: a dedicatória tinha um “para sempre” que agora só me machucaria.
O abajur que insistiu em comprar mesmo nunca usando, as plantas já mortas que só ela que cuidava.
Seu perfume foi o mais difícil de me desprender: em muitas das noites mais difíceis dormi sentindo seu cheiro.
Tantas coisas que compunham o nós que já não existia.
Desci do apartamento e coloquei as caixas no carro. Dirigi até o primeiro abrigo onde poderia deixá-las e voltei para casa me sentindo vazio de tantos anos subitamente roubados de mim…
Pedi uma pizza e cerveja e escolhi uma série qualquer para ocupar minha mente e não precisar pensar que ela não fazia mais parte da minha vida.
E então percebi que era exatamente o que vinha fazendo há mais de um ano e todo o peso desse término arrastado que parcelamos em tantos meses dolorosos me atingiu de uma única vez.
E cobrou juros.
A sorte de ter esquecido que escrevi isso skakskaksksksk
Não consigo sentir saudade de forma abstrata. Sinto falta do cheiro dela, da pele dela, do toque, do gosto, do sexo, não consigo esquecer e cada maldito minuto do dia é essa merda.
É difícil te ver pisar no freio em uma história que há tempos quero acelerar. Até entendo do que tanto se preserva, quais são os senões que te tiram da reta, fazem recuar; só que não tenho como aplainar a estrada, tirar os obstáculos, sumir com outros carros, interromper a chuva. No máximo posso ajudar no caminho, dividir a direção e melhorar as placas. Aceito até bem que prefira a distância sempre que precisa parar pra pensar; meu problema é só o motivo, o que tanto falta para confiar que quero mesmo viajar contigo, já estou envolvido, não vou desembarcar. Sempre que está perto é tão simples, você mesma diz que os problemas só aparecem ao se afastar. Então não é mais fácil ficar do meu lado, aceitar de uma vez que não faz sentido teimar? Sua cabeça dura reluta, distorce a lógica, te faz recusar, só que não consegue alinhar outras partes porque acaba sempre voltando pra cá. E é sempre ótimo, a gente combina, faz bem um pro outro, faz bem um com o outro e é o momento onde nunca tem briga. Só quero que volte de vez pra minha vida, reine além do meu quarto, ocupe meu mundo, aceite ficar.
ô saudade de dormir com a infeliz
É surreal a falta que sinto dela e o tesão absurdo resultante disso. Ás vezes até mesmo me pergunto se é normal ou minimamente saudável.
O inferno é que ela grávida mexeu comigo e me fez pensar como seria se fosse meu, se fosse eu.
Philia 5
Tanto fez que trocou a estação,
despertou a atenção que queria,
passou dos limites, é inútil negar
que você virou minha fantasia
e por mais que eu resista invadiu
meu sistema, me fez imaginar
como seria se você fosse minha
se além da amizade eu tomasse
teu corpo, virasse a cabeça e
fizesse pra sempre lembrar
que não foi boa ideia mexer com
o que tinha espaço tão certo,
emoção tão perene e segura.
Começo a odiar o seu jogo, abandono
a partida que no fim nunca quis jogar
E mesmo que nós dois percamos
não consigo lidar com a ideia que no fim
eu perdi muito mais.
Se nutre de minha seiva e sorri ao me ver dominado A boca abandona minha pele, peço "Faz seu show" e ela brilha, espalha as pernas pela cama, abertas.
As rosas contornam sua coxa dentro se abre em pétalas molhadas; rosas? Do deserto, roxa escura; orquídea? Tantas cores, sabores prometidos que desejo.
Seus dedos dançam sob a chuva, brincam se movem ao som dos seus gemidos, lindos; E admiro enquanto orquestra seu prazer.
"Posso?" ela permite; ajoelho, agarro suas coxas bebo toda, sigo a correnteza que ensina para a minha língua até eu aprender a navegar com a boca.
Enraízo em seu corpo, solo fértil de tantos prazeres tantos versos; suas unhas aram minhas costas; Grita? Quero saber tanto, sentir mais...
Geme em meu ouvido uma melodia sussurrada, rouca Imploro: "Monta"; viro palco e minha musa dança em mim até desabrochar.
If love had a song...
Nude Reclining In A Hammock, obra do italiano Antonio Frilli em mármore.
É péssimo como um espaço em que eu gostava tanto de escrever e reunir minhas subjetividades acabou estragado porque cai na besteira de falar com algumas pessoas e agora simplesmente me sinto exposto quando vou escrever e acabo não postando. Que merda.
As vezes me sinto um pouco obsessivo até, escrever é uma forma de canalizar esses impulsos de forma mais produtiva e até mesmo falar dela mesmo que os leitores pensem que estão falando de uma história genérica.
Gabriela
Fantasio com seu cheiro
canela, chocolate?
suas cores, matizes
cravo, anis estrelado
no céu da sua boca
seus sabores molhados
mel, cardamomo incende,
melaço; pensei nisso
mais do que posso contar.