Estou lendo o livro dele. Gastei vinte e quatro reais para ler o livro de um homem que nem faz parte mais da minha vida. Curiosidade, saudade, vingança, estudo... todas coisas plausíveis mas indignantes disso tudo. Eu acho que devo acolher essa minha parte que ainda não entende como posso ser tão repelente até das coisas que eu não quero tanto assim. Sempre tenho essa sensação de que os outros tem certezas demais e elas são justamente o que as mantém de pé estruturadas. Eu questiono todas as minhas certezas pelas certezas dos outros. Não foi eu que fiz o mundo, felizmente ou infelizmente. Lembro de que ele até me ouvia e ficava em um silêncio específico quando discordava de mim. Talvez eu fosse muito drástica com coisas pequenas, mas ele também sabia que eu era muito permissiva com coisas enormes. Ele dizia "me fale quando quiser parar". Eu não queria ter nem começado. Acho que me arrependo, ou não. Nem disso eu sei. Nem disse para ele as coisas que realmente queria ter dito. Agora a vida é outra. Eu me vinguei mostrando que ele não era o único, nem o primeiro embora fosse uma novidade extremamente inovadora. Ele comia outra mulher com os olhos, a imaginação e um pouco mais eu ia ao banheiro e enquanto eu fechava os olhos devagarzinho. E eu chamei ele de amigo e disse que nunca iria casar. Ele disse que queria ter filhos um dia. Sabíamos que não seria comigo. Entro em contato com minhas de mim que não são nenhum pouco maduras nesses momentos. Ele também não era, mas ele sabia disfarçar um pouco mais. E o beijo dele era absolutamente maduro. O melhor beijo. E eu me forcei a não me prender a isso. E quando ele disse "me dói perceber que não estou pronto para me relacionar" eu lia que ele gritava para mim "você está aprendendo demais, não serve pra mim. preciso de uma que já saiba". Sei que na verdade ele gostava muito de ensinar, mas sei que ele pouco sabia como me tocar. Eu não culpava um corpo que me conhece menos que eu, eu sabendo tão pouco. Sei tão pouco? Ou finjo que não sei? Porque a resposta podia ser não. Meu corpo é um grande não às vezes. Agora eu leio o livro dele e descubro atrocidades de sim. Muitos sim, aceito, quero, de novo, adoro, sim, nossa, humm, sim! E eu não sei lidar com isso. Eu não sei lidar com essa mulher monstro que me atormenta muitas vezes dizendo que eu não sei viver direito. Sei que dentro dessa mulher , se eu descosturar uma parte das costas colada à axila, que ela é um homem. Mas mesmo assim ela me vem com voz de mulher e zomba de mim, e diz um sim tão grande de gozo. E esse livro é isso. Eu gastei vinte e quatro anos, e outras gastaram cinquenta e outras vão gastar trinta e juntas gastamos mais de mil anos de nossas vidas. vinte e quatro reais. Idiossincrazia