Plumagem
Quem um dia ousou dizer que a mim seriam dadas asas?
Lá fora, o horizonte me encara com seu olhar laranja, enfeitado com toques de rosa. Em um minuto, os olhos do dia se fecharam, me deixando no breu da existência.
Aqui dentro chovia. Uma chama fraca se mantinha, tentando, quase que sem sucesso, aquecer algo que nem mais tenho certeza de ser. Em pouco tempo, a água transbordava e seu leito encontrava caminho nas cachoeiras de meu rosto. O ar era rarefeito. Ao fundo se ouviam vozes daqueles que, apesar de nunca me olharem, sabiam tanto do que nem eu sabia de mim mesmo.
O sangue crioulo ao fundo me ouvia numa mistura de desconhecimento e compaixão. As quatro patas apoiadas no banco de trás, enquanto o destino era por ele desconhecido. E por mim também.
Aos bons conhecedores de minha pessoa, o nome de Clarice Lispector sempre soará familiar. Como uma eterna retrospectiva, me vejo perdoando Deus. Me vejo mais uma vez aos olhos da mãe, que, por ser mãe, queria cuidar de tudo que era de Deus. Mas, ao me deparar com gente, me sinto afrontado por Ele. É por querer ser mãe de tudo que me esqueço. É por esgotar-me do leite que seco para mim mesmo. Porém, onde me vejo nas águas é onde a cachoeira que de mim mesmo sai me banha, e me lembro que ser mãe não é só cuidar do outro. Eu me lembro que ser mãe é cuidar de mim mesmo, ser mãe.
É por esgotar-me do leite que seco para mim mesmo. Porém, foi recentemente que aprendi que ser mãe é também deixar que esse leite fique para mim, para que só assim eu possa alimentar o outro. Mas foi recentemente que aprendi, também, que ser mãe é, às vezes, se afogar nesse entrar. É chorar. É seguir até uma força que ninguém pode te dar. Ser mãe é encontrar em si mesmo o problema e a solução.
Eu não posso mentir. Eu não me vejo mais aqui, nem lá, ou em lugar algum. Eu tenho me visto em um lugar nenhum. E mesmo olhando para dentro, eu não me vejo de fora. Sempre que eu acho o espelho, eu não vejo nada. E não, não é um nada nada. Não é nada, a ausência de algo. Não é um nada que é a negatividade de alguma coisa que existe. O nada que esvazia. É um nada que não precisa ter algo para se contrapor.
E eu tenho nada, como se um nada fosse possuível. Ou um nada me possui, não sei.
Digressões.
Acredito que, por hora, este texto ou poema não vai se findar. Estranho. Inicio meus textos, minhas teses, minhas digressões, meus poemas pelo título, e são assim discursos. Eu acredito que a síntese me antecede. Botar numa palavra, numa frase, num som. Isso tudo me antecede. Eu preciso sintetizar antes de me abrir.
Mas não entendo que eu parto do pequeno para o grande. Pelo contrário. O todo se encontra dentro. O que se encontra fora é a parte.
E, a partir de um filtro, tal como um prisma, onde o que está dentro transpassa, o prisma sintetiza-se e transforma-se em algo novo quando sai.
Esse sou eu. Isso é o que eu sinto.
Acredito que o propósito deste texto é chegar num ponto de início. De me ver como uma ave.
Plumagem.













