Capítulo 8 - Parte I
Cledivan sentiu os dedos serem lambidos.
— Cadmus! — repreendeu, com voz de sono, voltando-se para cima e enfiando as mãos sob as cobertas.
— Não… Sou eu, meu senhor… — Cledivan abriu os olhos para, ver Joelma ao lado da cama, já usando aquele soturno vestido de lã escura, com o qual chegara ao castelo.
Seus belos cabelos estavam cobertos por um cachecol que amarrava no queixo.
Mesmo assim, pensou ele, com apenas o rosto à mostra, ela era linda.
— Você me lambeu? — estranhou, mesmo acreditando que sua esposa seria capaz de fazer algo tão… diferente, excitante e diferente.
— Não. Eu beijei sua mão. — Havia um sorriso puro e temo nos lábios dela.
Cledivan passou a mão por sua nuca e trouxe-a para um beijo ardente.
— Volte para a cama — disse em seguida.
Ela, porém, se afastou.
— Mas o dia já vai amanhecer, meu senhor!
Ele olhou para a janela, percebendo, contrariado, que ela tinha razão.
— Acordei há pouco — Joelma explicou.
Ele ergueu as sobrancelhas, sem, entender, ouvindo a explicação:
— Na verdade, acordei antes da madrugada terminar e… bem, como o senhor
observou-me enquanto eu dormia ontem, achei que hoje poderia ficar observando-o também… Sabe que parece ser muito mais jovem quando está adormecido?
Mais jovem e mais vulnerável, Cledivan pensou com amargura. Mas Joelma era diferente de Luciana e, como ele próprio dissera na noite anterior, ela nada fizera para levantar suas suspeitas: No entanto, Luciana também não o fizera. Não até que sentisse aquela fina tira de couro apertando-lhe a garganta mais e mais…
— Eu disse algo errado? — ela preocupou-se, notando sua expressão séria e
pensativa. — Eu não quis dizer que há algo de ruim no modo como o senhor dorme e muito menos que, ao estar acordado não tem tão boa aparência…
Tais palavras fizeram-no sorrir.
— Está dolorida ainda? — quis saber.
— Não muito.
De repente, uma onda de desejo passou-lhe pelo corpo, poderosa e primitiva.
Entretanto, como prometera na noite anterior, seria paciente. Queria muito que
o corpo de Joelma se acostumasse ao seu.
Levantou-se, iniciando sua higiene matinal, enquanto, ela o seguia com o olhar.
— Zoraida disse-me que o senhor não tem um valete — ela comentou, vendo-o
vestir-se. Cledivan apenas assentiu. Joelma sentou-se na cama, as mãos postas no colo, os olhos seguindo cada movimento que ele fazia.
— Acho que sua vida deve ser muito movimentada, com tantas coisas a fazer no castelo e na vila, tendo de cuidar de tudo sozinho… — passou a falar, já que, absolutamente, não conseguia ficar calada. — Imagino que alguém tão poderoso como o senhor devesse ter auxiliares para cuidar de suas propriedades. Não os tem para tomar conta de suas outras terras?
— Não tenho outras terras, nem outras propriedades.
— Não?
— Não.
— Mas meu tio disse que… — Joelma interrompeu-se, pensativa. Na verdade, seu tio nada dissera propriamente, apenas a fizera acreditar, na riqueza imensa de seu futuro marido…
Cledivan terminava de colocar a túnica. Esperava que Joelma não lhe
perguntasse sobre seu dinheiro.
— Bem, uma vasta propriedade é bem melhor do que várias pequenas. — ouviu-a observar, como se fosse perita no assunto, e sorriu de leve. Ela prosseguia: — Já pensou como seria terrível termos que ficar
viajando o tempo todo, de uma para à outra. Qual é a extensão de sua
propriedade, senhor?
— É grande o suficiente. — Maior do que a de Biaggio, pelo menos, pensou ele
satisfeito.
— Sabe, não quero ser intrometida.
Cledivan nada disse, afivelando o cinto da espada.
— Vai sair a cavalo hoje, meu senhor?
Ele tornou a assentir.
— Costuma patrulhar a propriedade porque teme problemas maiores? Está á espera de algum ataque? Porque devo dizer que duvido que alguém tentasse atacá-lo.
Ele tornou a sorrir e, dessa vez, respondeu:
— Mas, poderiam tentar, se achassem que teriam alguma chance.
Joelma levantou-se e, caminhando devagar, veio em sua direção. Cledivan
continuou a falar, subitamente receoso de que se não o fizesse, a beleza que
ela irradiava pudesse deixa-lo à sua mercê.
— Também procuramos ladrões de caça e ladrões comuns. Verificamos o estado das estradas e dos bosques, bem como o das pontes. São muitas coisas que precisam estar em ordem.
— Se, algum homem tentasse atacá-lo, ou a seu
castelo, seria um grande tolo — Joelma murmurou, tocando-lhe o peito com mãos suaves.
Procurando manter o controle, ele as tomou e afastou-as avisando:
— Pare, ou poderá não sarar…
Com um sorriso misto de ternura e timidez, Joelma baixou a cabeça e passou os braços pela cintura do marido, apoiando a cabeça em seu peito.
— É uma pena… — sussurrou. — Quero tanto ter um filho seu, meu senhor!
— Quer um filho, ou um filho meu?
Ela ergueu os olhos para vê-lo. Sorria, sincera.
— Seu, meu lorde Farias. Seu!
Cledivan baixou a cabeça e beijou-a, incapaz de controlar-se por mais tempo.
Abraçava-a com força, querendo esquecer as recordações amargas de seu passado e a suspeita terrível que sempre o assombrara depois da morte da primeira esposa.
Queria poder enterrar o que passara, renascer, ser capaz de amar de novo e, em especial, de confiar. Talvez um dia…
Cadmus choramingou junto à porta e Cledivan teve
de interromper o beijo, relutante.
— Acho que ele quer sair — ela concluiu. — Acho que eu também. Estou com fome. E preciso manter minhas forças… — acrescentou, com um sorriso malicioso.
Lorde Farias foi até a porta e deixou o cachorro sair, depois esperou que
Joelma tomasse seu braço para, juntos, seguirem até a capela, para a missa
matinal.
— Posso seguir com o senhor em sua ronda de hoje? ¬— ela perguntou, quando já estavam no corredor.
Cledibvan parou de andar e olhou-a, sem entender aquele pedido. Mas os olhos
dela brilhavam, inocentes e doces, desarmando-o, enquanto dizia:
— Cadmus não é o único que tem estado dentro de casa por muito tempo, meu
senhor. A viagem até aqui foi a primeira oportunidade que tive, em treze anos
dentro dos muros do convento, para sair e ver o mundo. E ontem foi a primeira
chance de liberdade que pude apreciar. Gostaria tanto de conhecer sua
propriedade, se for possível… O dia promete ser muito bom e acho que não estou tão dolorida assim que não possa cavalgar…
Ele pensava, Por que não? Por que não deixar que
Joelma o acompanhasse. No entanto, se permitisse tal coisa, que tipo de
precedente estaria abrindo?
— Lembro-me de ter prometido que não iria pedir nada… — tentou barganhar.
— Oh… — Joelma baixou os olhos humildes — esqueci mais uma vez… Sinto muito, meu senhor.
Continuaram seguindo. O que ela pedira era um quase nada e custaria tão pouco!
Cledivan considerava. Não precisava deixá-la assim tão triste. Além do mais,
os moradores de sua propriedade, seus vassalos mais distantes deveriam vê-la, como os habitantes da vila já tinham feito. Eles tinham que conhecer sua valiosa, ousada e bela esposa.
Sentiu orgulho novamente, como quando vira a expressão surpresa de Biaggio
diante de Joelma.
— Pode vir comigo — concordou, por fim, vendo que ela tornava a erguer a
cabeça.
No entanto, sua expressão não parecia feliz.
— Talvez fosse melhor para mim permanecer aqui.
— Mais eu disse que pode vir comigo.
— E isso é uma ordem, meu senhor?
Confuso, Cledivan meneou a cabeça.
— Não… Eu… gostaria que me acompanhasse.
Joelma tornou a baixar a cabeça, passou a mão pelo rosto… Estaria disfarçando a presença de lágrimas?
Cledivan tornou a interromper os passos, tomando-a pelos ombros e encarando-a. Mas ela teimava em manter o rosto baixo.
— Se eu o embaraço, senhor, ficarei feliz em permanecer no castelo — insistiu.
Embaraçá-lo… E como isso poderia acontecer?!, Cledivan imaginou. Sendo a
mais bela e apaixonada esposa que poderia esperar encontrar?
— Não, você não me embaraça, Joelma.
Mas, ela continuava a olhar para o chão. Ou talvez fossem suas roupas. Devia
ser isso! Ela tinha vergonha das roupas que usava! Iria comprar-lhe roupas
novas com um pouco do dinheiro do dote.
— Joelma, não me envergonho de você — repetiu, querendo vê-la mais animada.
Ela ergueu os olhos, os esplêndidos olhos que brilhavam de modo incrível e que
o conquistavam mais e mais a cada momento. Havia esperança e de vida neles.
— Não se envergonha de mim? — indagou ela em voz extremamente suave.
— Mas é claro que não!
— Então… ficarei muito feliz em acompanhá-lo na ronda pela propriedade. Desde que disponha de uma, égua boazinha, e não pretenda seguir com muita pressa. Deve lembrar-se senhor, que embora não muito, ainda estou um pouco dolorida…
— Estou feliz por ver que tem um bosque tão grande,
meu senhor! — Joelma comentou, cavalgando ao lado do marido numa égua
excepcionalmente mansa.
A temperatura estava um tanto baixa, mas, acima deles, o céu estava magnífico, de um azul profundo, intenso. Não havia neve cobrindo o terreno e, ao sol, poderiam imaginar, até, que estavam na primavera.
— Sabe, quando eu e meu tio nos aproximávamos do castelo, vindo pelo lado
oeste, devo confessar que minha impressão era a de que ele estava num terreno muito árido.
Ao contrário, como podia ver agora, ao sul e leste havia matas de vários tipos
e tamanhos. E, como predissera, o dia estava maravilhoso para cavalgarem. Joelma estava feliz como nunca, seguindo ao lado de seu marido, os soldados vindo pouco mais atrás, caçadores e, servis. Mas não havia mais ninguém
observando-os.
Em Donhallow, era sempre o alvo dás atenções. Não, que não estivesse acostumada a isso, o que era comum no convento, mas o motivo de ser observada naquela época, era por causa dos seus erros. As garotas e
mulheres que lá estavam sempre à viam como foco de problemas ou olhavam-na apenas porque sentiam pena, por verem como era castigada.
Já em Donhallow, mesmo chamando a atenção de todos, Joelma percebia, que, ao surpreender olhares, as pessoas baixavam a cabeça e coravam, e muitas vezes desviavam o olhar, como se fossem eles os pecadores. Todos, menos Zoraida. Ela sempre encarava Joelma com franqueza, o que a agradava. E isso, como sempre se lembrava, ia contra os princípios básicos sobre uma dama, que lady Ana lhe ensinara.
Aliás, lembrando-se de lady Ana, Joelma dava-se conta de que jamais percebera naquela mulher o menor traço de felicidade. No entanto, uma das últimas garotas a entrar para o convento, dissera que ela estava casada. Isso não parecera ser possível, já que era uma mulher tão austera, e Joelma imaginava que tipo de homem poderia ter conseguido conquistar o coração de sua antiga mãe adotiva. Um homem tão severo quanto lorde Farias, talvez…