In a mad world, only the mad are sane; — Drácula&Cheshire
Carmesim. Drácula apreciava os mais diversos tons desta cor com certa ternura, caso não seja ousadia demais em usar tal palavra para definir os pensamentos deste, principalmente para algo que muitos considerariam tão trivial. Aos olhos multicoloridos daquele que há muito caminha por estas terras, no entanto, é quase um prazer oculto poder admirar tal cor embelezar as ruas da capital inglesa com maestria; apesar de lhe parecer quase uma ofensa ter seus mais belos e impecáveis assassinatos tomados como ações de um tal Jack, o Estripador. Ora esta, quando um mero mortal poderá sequer ter sua visão diabolicamente perfeita para cometer o que estampava os jornais londrinos todas as manhãs? Dizia sempre a Renfield que tiravam-no como tolo, mas que o desfecho de tal história poderia ser, no mínimo, interessantíssima para todas as partes, felizmente.
Porém, estes detalhes sobre o ser desprovido de alma não são de interesse na narrativa da noite em questão, apenas o fato do vampiro realmente nutrir um fascínio pela cor escarlata. Vez ou outra, aguardava sua vítima caminhando por telhados e paredes das construções industriais da cidade e agia de forma rápida e letal, o pouquíssimo felizardo em questão sequer sentia qualquer tipo de agonia. Mas, haviam os dias em que o Conde sentia falta de algo para realçar-lhe a loucura que as paredes escuras e silenciosas de sua mansão lhe trazia; a escuridão lhe era um refúgio, assim como lhe era o desespero. Ter de esperar até o anoitecer para ser totalmente livre lhe incomodava de forma inexplicável, ao modo em que ponderava os avanços perdidos em sua relação com sua amada ou tantos outros detalhes quando a luz solar fracamente clareava aquelas ruas e impedia-o de qualquer ação. Sendo assim, quando os tons pastéis de amarelo davam vez ao majestoso prateado lunar, Drácula via-se como uma fera liberta; um perigo iminente para qualquer criatura tão insana quanto ele próprio a ponto de cruzar seu caminho. A liberdade é tanto a cura quanto é o estopim para a insanidade e disso ele sabia melhor que ninguém.
Não havia êxtase semelhante ao de se banhar no líquido púrpuro; não havia excitação maior do que a de sentir a vida abandonar o corpo humano com tanta facilidade... Em muitas situações suas vítimas sequer eram capazes de encher os pulmões uma última vez ou despedir-se deste cruel mundo com um olhar para as estrelas; via uma beleza imaculada neste momento. Na morte. Pensando assim, fez questão em terminar com o que fazia rapidamente. A pele pálida da mulher que dançava em seus braços coloria-se em seu próprio sangue, assim como os lábios ou os cabelos loiros banhados no líquido férreo e quente que agora trazia uma sensação perfeitamente ilusória de vida ao Conde. Tinha um riso quase maníaco nos lábios e as mãos apalpavam-na, tocavam-na com delicadeza que seus dentes não demonstrariam nem em mil anos, muitas e muitas marcas destes agora enfeitavam-lhe o pescoço junto de suas pedras esmeraldinas; os olhos azuis dela encaravam o vazio, o tom róseo de seu rosto já não existia. A mulher agora certamente encarava a escuridão eterna e o silêncio da morte.
Drácula, porém, tinha todos os sentidos apurados; o sangue ainda fluía por seus lábios e trazia-lhe paz momentânea, revigorava-lhe aquele corpo que era seu há quase cinco séculos. Cada mínimo detalhe era recebido e identificado por ele, então não fora difícil perceber que alguém lhe observava do outro lado da pacata ruela. Não sabia exatamente o tanto que o outro vira, mas gotas pesadas começaram a cair, outra daquelas chuvas pouco esperadas de Londres que lhe tiraram a atenção por certo instante. Recolheu o paletó negro e sorriu para os céus escuros e cinzentos, a água lavando-lhe o pecado e pesando-lhe as vestes manchadas, os olhos negros fixos nos azuis inumanos sobre sua figura. Apesar de sua velocidade, caminhou até o garoto loiro com calma, as botas lamacentas fazendo um ruído que lhe incomodou os ouvidos até aproximar-se da figura masculina. Um tanto curioso, certamente, aquele era o primeiro que o vira assassinar alguém de modo tão frio, sem esboçar emoção alguma – ele teria percebido se houvesse qualquer reação, sem dúvida – e ainda possuía aqueles olhos, nunca antes vira alguém como ele. -- Espero que tenha apreciado a cena. Pode ser-lhe a última.














