O nome dela era Illyana. Illyana Dalca, também conhecida como Illyana Pavirov ou como Lily, pelo seu padrinho predileto. Uma Feuer, desfazendo toda a crença de que os Dalca eram Wasser convictos ------ ainda que a mãe tenha se desfeito daquele fardo quando fora selecionada para os Luft. Ela era o dragão, ostentava o poder e a destruição por onde quer que passasse. Suas companhias não eram das melhores, todavia Lily nunca realmente se importou com aquele incômodo, e jamais se importaria. Lealdade corria em suas veias, ainda que a mãe tivesse se desfeito daquele aspecto em particular ao desfazer a maldição que a avó a impusera. Nova demais para pensar por si própria, ainda que tivesse posições aguçadas e uma língua mais do que satisfatória quando algo que desejava era ameaçado ------ talvez uma das muitas semelhanças com o padrinho, ainda que não fosse seu pai, este, desconhecido para ela. Ninguém sabia quem fora o maldito sortudo a finalmente engravidar Irina Dalca depois de seu período obscuro, nem mesmo ela própria, se fosse completamente sincera, ainda que Illyana guardasse dois homens em seu pequeno hall da fama, pessoas a quem considerava como pais, ainda que não compartilhassem do mesmo sangue. Klaus Pavirov era um deles, apresentando-se como uma tábua de salvação, apaixonado pela loira de olhos de rena, outrora tão inocente como o animal a quem era comparada, mas atualmente a epítome bruxa da fênix que representava a sua casa. Irina ressurgira das cinzas, era verdade, mas devia aquele agrado não à quebra da Imperius, tampouco ao objetivo que estabelecera para si, de se vingar dos Dalca, de clamar seu lugar de direito no novo diretório das 28 Sagradas. Assim que segurou o pequeno embrulho em seus braços, Irina não pôde sentir nada menos do que um amor tão expresso e incompreensível pelo pequeno ser. Pela primeira vez desde que assassinara o pai, a Dalca chorara. Klaus não tardou a seguir a mulher.
Todos sabiam que o homem não era o verdadeiro pai de Illyana. Fora, inclusive, um escândalo quando Irina saíra da maternidade ao lado do bruxo sangue puro, um anel de prata no anelar da mão esquerda, indicando seu compromisso para com o loiro. A mais nova cresceu em um ambiente tenso, em que o padrasto era mais manipulado pela mãe do que todos à sua volta; cresceu sabendo que a mãe não possuía intenções idôneas ou era completamente isenta das dores às quais era imposta. Como uma pessoa pouco mais livre do que a loira um dia fora, Illyana pudera vasculhar os entornos de casa, viver sob uma vigilância mínima e acabar por se envolver com mais homens do que mulheres, no decorrer da vida. Enquanto as outras brincavam de boneca, Lily estava travando lutas de socos com seus amigos pelo controle das ruas ------ todos trouxas, para o desgosto não só de Irina, mas de todos os anciões a quem a morena tinha carinho por. O sangue bruxo se evidenciou com as magias, e a infante não tardou a usá-lo como desculpa para as travessuras e brincadeiras perigosas. Um ser livre, poderiam dizer, mais livre do que qualquer um pudesse imaginar, ainda que a fachada impetuosa e espirituosa escondesse intenções pouco contundentes ------ a mãe a ensinara a exibir sempre uma persona, como ela mesma fizera, quando mais jovem, e Illyana não tardou a seguir os conselhos da mulher, adotando aquele lema para o restante da vida ------, mesmo que ela não soubesse realmente o que desejava. Nunca saberia, entretanto.
Feuer fora a casa que a acolheu em Durmstrang, a casa do padrasto e a do seu padrinho ------ o segundo homem a quem Illyana tinha na mais alta estima ------, fora onde a morena encontrara os melhores amigos, todos puristas e egocêntricos, contaminando levemente o próprio pensamento da morena, precariamente ingênuo e juvenil à época. Lá, a ferocidade não somente se intensificou, como também desabrochou um senso de humor negro e de pouco controle pessoal. A astúcia, aliada à falta de medo das consequências e ao próprio temperamento natural da Dalca foram seus aliados durante os sete anos na instituição, os quais, a propósito, ela tentou se tornar em uma lenda. Era o que deveria ser, de toda forma. O bando ao qual se juntara não era pacífico, mas, de novo, tampouco a Dalca era. Aos dezesseis, todavia, quem diria? Uma notícia chocante abalou a casa Pavirov-Dalca. Illyana estava grávida e, ainda que soubesse o pai de seu filho, não era como se fosse expressar para que todos ouvissem ------ o orgulho parecia correr em suas veias, mais profundo do que o sangue, mais letal do que um lobisomem à lua cheia. Irônica, sempre com uma resposta atravessada à ponta da língua, despida de qualquer senso de moral que não seja o próprio e extremamente vingativa ------ ainda que sua ideia de vingança difira um pouco da do restante de seus amigos ------, Illyana trouxe alegrias, desespero, infelicidades e o senso mais próximo de sanidade desde que sua mãe a concebeu. Illyana fora a pessoa a quem Irina amara incondicionalmente, assim como a neta bastarda, Sage. A única, por mais que não demonstrasse isso, muitas vezes. Ela não possuía muito de si, além da catividade que os olhos de rena dela própria se reproduziram em sua herdeira. Illyana era a imagem de seu pai, imponente e ainda assim tranquila, uma imagem que passava naturalmente desde pequena. Tinha seus próprios demônios, assim como segredos tão sujos que chocariam qualquer um do mundo bruxo, era claro, mas Irina nunca se preocupou muito em destruí-los: eram o que a tornava especial. Os defeitos que a constituíam faziam parte dela, a formaram, a dilapidaram. Suas escolhas, ainda que não das mais inteligentes ou asseadas como a loira teria desejado, refletiam a selvageria que os olhos de rena prezavam, a selvageria que jamais pôde ser contida na filha.
Uma Dalca. Uma sangue puro. A esperança da loira em que um dia, ela fosse redimida dos muitos pecados que enfrentava dentro de sua mente, tal como tinha a certeza de que Sage um dia seria a esperança da própria filha, de que ela seria capaz de expurgar os pecados e malfeitos que Illyana outrora cometera. Assassinato, manipulação, traição... Não importava. A maternidade aparentemente a tinha deixado sentimental, e Irina se via fragilizada ao mesmo tempo em que não podia se sentir mais forte, quando com a prole. Irônico, patético, mas ainda assim, mágico ------ mais do que toda a magia que Durmstrang possuía entre os portões; algo etéreo, mais forte,