*— i choose you two!
Mais uma vez estava sentada nos gramados de Hogwarts e afastada de todos os alunos. A tentativa de se tornar capaz nas Artes das Trevas era cada vez mais frequente, qualquer tempo livre entre as aulas e deveres das Olimpíadas era dedicada unicamente ao livro roubado, a varinha que já fazia parte de seu corpo e a mente conturbada. Adelaide até tinha faltado em diversas aulas de esgrima e ballet, alegando indisposição ou simplesmente sumindo sem dar satisfação -- estava se tornando algo que odiava: uma pessoa irresponsável e extremamente egoísta, mas seu subconsciente insistia em alegar que era para um bem maior. No decorrer de seus deslizes, tinham a impressão que os pais estavam sempre por perto e lendo sua mente sempre que possível -- o impulso para achá-los aumentava com o passar do tempo, não traçaria metade do caminho alcançado sem um impulso.
Assim como imaginava a presença dos progenitores em alguns momentos de seu dia, era impossível esquecer dos dois enquanto se dedicava aos feitiços. Os grandes culpados por suas escolhas eram eles, insistia em acreditar nessa ideia. Não sentiria vontade de descobrir os mistérios do lado negro da magia caso Cassandra e Demetrio não tivessem desaparecido por aquela razão. Culpar a si ou aos avós não era uma opção. Eles tinham lhe dado todo o suporte durante a vida, os únicos que se importaram em passar momentos inesquecíveis ao seu lado, os únicos que realmente se importaram com o seu bem-estar. E culpar-se não faria bem algum, não foi ela quem desapareceu sem justificativa e abandonou uma criança nos braços dos avós.
Os pensamentos saíram de foco mais uma vez. Estava lembrando da véspera de seu último aniversário. Nunca imaginou rever os pais em vida, muito menos durantes os dias que antecediam a data que costumava ser a mais festiva de seu ano -- já havia perdido as contas de quantas vezes teve a esperança que os dois chegassem para lhe dar parabéns com um abraço apertado, só aquilo bastaria. Caminhar pelas colinas italianas também não era uma opção segura, mas seus avós deram-na livre arbítrio para ir e vir durante as férias com a condição que não voltasse muito tarde. Mas naquele dia tinha sido diferente, a caminhada aconteceu horas depois de organizar a lista da pequena comemoração que aconteceria no dia seguinte.
Notícias não oficiais rondavam a pequena cidade de que um grupo estaria recrutando puros-sangue, loucos que pediam a volta de alguém como Voldemort. O nome já não assustava mais a população, mas a ideia de ter um bruxo com os mesmos ideais que ele era uma ameaça a comunidade bruxa. Adelaide se sujeitou a entrar nos piores becos e vielas na procura de informações -- os Mercadante não se pronunciaram em momento algum sobre os rumores, dificultando ainda mais seus planos. Como uma questão de sorte, ou azar, sua procura obteve o resultado desejado: o grupo estava na cidade e se encontrariam dentro de poucos instantes numa das colinas mais distantes da cidade. O impulso de achar os pais era tão grande que não se opôs em correr pela cidade toda; os pulmões gritavam por ar, os músculos estavam próximos da fadiga total e os calcanhares chegavam a doer -- não parou até chegar ao seu destino.
Inocência, um dom que ninguém deveria perder. E foi ela a maior aliada da Mercadante por todo esse tempo, foi ela também que iludiu sua cabeça e abriu um precipício sobre seus pés no momento exato que duas figuras conhecidas entraram em foco. O discurso era vociferado com força pela voz grave de um homem e acompanhado por uma mulher mais calma, aproximando os já fanáticos e acolhendo os incertos. Demetrio sempre teve o dom do discurso, sua voz grave e macia conquistava qualquer um que prestasse atenção -- o cuidado em escolher palavras, conectar frases e até mesmo o duplo sentido era presente ali. Cassandra também foi uma boa mãe no pouco tempo que cuidou de sua filha, acolhia a menina com toda a graça quando Adelaide acordava desesperada por conta de um pesadelo bobo. Juntos, os dois eram o casal perfeito e pareciam ter escolhido a profissão perfeita: recrutariam qualquer um com todos os atributos que possuíam.
No primeiro olhar, os joelhos da morena falharam e tentou se recompor o mais rápido possível. Precisava ficar escondida, ninguém poderia notar sua presença ou o milagre que presenciava acabaria rápido demais. Convencer os novos integrantes do grupo com o discurso de ódio disfarçado não era tão difícil, ela mesmo estava se convencendo de que estavam fazendo a coisa certa. Os urros de aprovação confirmaram sua ideia, todos ali agora queriam fazer parte de uma missão de maior grau e estavam dispostos a passar por cima do que a sociedade bruxa tinha construído com tanto sacrifício depois da Segunda Guerra Bruxa. Estava hipnotizada pela ideia, queria entrar no meio do grupo e gritar junto. Alguns passos foram dados em falso e quando viu já estava sob a luz, deixando que todos enxergassem seu rosto.
O primeiro olhar que a encontrou foi o de Cassandra, pode jurar que essa visita inesperada tinha mexido com ela. Demetrio foi o próximo, vendo o motivo da comoção da esposa, e manteve-se firme, um tanto frio. Segundos depois os dois já tinham desaparatado e abandonado Adelaide pela segunda vez em anos. Lembrava-se da sensação de forma exata, era capaz de sentir o desapontamento e a raiva que dominara naquele momento. As lágrimas involuntárias percorriam todo o seu rosto, era como uma chuva particular. O corpo já não tinha sido tão ágil, os músculos se fadigaram rápido e as pernas falharam quando chegou a beira da janela de seu quarto -- aparentemente próximo da colina.
A tristeza do primeiro abandono, a raiva de ver os pais vivos sem ter lhe dado uma única notícia durante anos, o ódio de ter o olhar frio de Demetrio sobre ela, a amargura do segundo abandono, todos os sentimentos voltavam a tona quando se lembrava daquele dia. As vésperas de seus aniversários nunca tinham sido tão amargas quanto aquela. A mágoa apertava o seu peito até que a dor física se juntasse com a psicológica, eles estavam a torturando sem nem mesmo saber. Quando se deu conta, apertava as pálpebras de tal forma que a cabeça a latejava. Ainda estava sentada no gramado, os braços envolviam o livro com força e lágrimas saltavam de seus olhos sem pedir permissão -- a lembrança era forte demais, continuava a sentir os efeitos colaterais daquele breve encontro muitos meses depois.
O primeiro impulso foi de se levantar, não conseguiria ler no estado que estava. A raiva era tanta que o corpo chegava a tremer, estava instável demais e a única certeza que tinha era que, se os pais estivessem ali, seria capaz de torturá-los sem nenhuma piedade. Talvez tivessem a abandonado para a própria proteção, mas tinham a envolvido mais do que deveriam. Adelaide estava sendo movida pela esperança de encontrá-los mais uma vez e um resquício de rancor do abandono. Sentia em decepcionar os avós, mas o seu foco era chamar a atenção de seus pais.
A esgrima resolveria seu problema, por enquanto. Os passos duros foram dados até a sala que fora reservada para tais aulas. Não havia ninguém no local naquele horário, poderia gritar e gastar toda a energia sem dar satisfações a ninguém.








